Dez anos sem Cássia Eller

por Ismael Machado

Basta um pequeno exercício de reflexão. É só comparar. De um lado, Tulipa Ruiz, Céu, Bluebell, Barbara Eugênia, Mariana Aydar, Ceumar… a lista pode ser mais ampla, percorrendo um amplo espectro de cantoras que nos últimos anos foram alçadas à condição de revelação, de cult, ou qualquer outra classificação que se pensar. Agora pegue Cássia Eller. Sentiu a diferença?

É esse abismo quase intransponível entre o que era Cássia Eller e o que são essas cantoras da ‘nova geração’ o que faz com que a ausência de Cássia ainda seja, uma década depois de morta, algo a se lamentar profundamente na música pop brasileira.

Não convencido? Então ouça as apropriações de Cássia para “If Six was Nine” (Jimi Hendrix), ‘Smells Like Teen Spirit” (Nirvana), “Lanterna dos Afogados” (Paralamas) ou qualquer canção de Cazuza ou Renato Russo. Há vida ali. Há útero, sangue, saliva, raiva, gozo, riso, amor. Há pulsação de verdade. E em qual supermercado da vida se encontrar isso hoje?

A palavra apropriação usada aqui não é figura de retórica. Cássia Eller praticamente transformava em suas, composições que lhe caíam nas mãos. Ou que por ela eram invadidas e ocupadas, como se fossem terrenos improdutivos que precisassem ser plenamente transformados em produção a ser distribuída comunitariamente.

Não há exagero nisso. Tome-se como exemplo, a versão acústica (!) de “Quando a Maré Encher”, do repertório clássico da Nação Zumbi. Pois com Cássia, a música, por si só já poderosa, ganha intensidade ainda maior. Não é a toa que Dave Grohl, ao ouvir Cássia cuspindo fora “Smells Like Teen spirit”, no Rock in Rio de 2001, disse que aquela era a melhor versão já ouvida por ele do clássico maior do Nirvana.

Impressionar ouvidos desatentos parece ter sido uma constante na carreira de Cássia. Oficialmente ela surgiu para os palcos pelas mãos de Oswaldo Montenegro, o ainda injustiçado menestrel da MPB. Depois foi chamando a atenção aqui e ali. O curioso na carreira de Cássia Eller é que ela sempre pareceu andar numa mal equilibrada via entre o alternativo total e o reconhecimento de massa.

Isso faz com que ela tenha gravado desnecessariamente pelo menos umas seis versões de “Malandragem”, a música que fez com que ela, pela primeira vez, ultrapassasse a marca das cem mil cópias vendidas. Isso só foi ocorrer no terceiro disco da cantora. O pé na marginalidade musical já havia sido dado nos dois primeiros discos, recheados de composições de nomes não tão conhecidos do grande público, como Itamar Assumpção ou Patife Band.

O terceiro disco, que leva apenas o nome da cantora e traz primeira gravação de Cássia para “Malandragem”, é um disco que tem versões pouco lembradas para “Blues do Iniciante”, do segundo disco do Barão Vermelho ou “Música Urbana 2”, da Legião Urbana. É nesse disco que surge também pela primeira vez, Nando Reis. Mais do que uma rima, esse encontro seria uma solução para Cássia Eller.

Com discos pesados como “Veneno Antimotonia”, praticamente baseado só em canções de Cazuza e Renato Russo, ídolos confessos, Cássia parecia querer o reconhecimento do público, mas ao mesmo tempo meio que o tratava com descaso. Nando Reis surgiu para, além de se apaixonar por Cássia Eller, amaciar um pouco mais o jeito de cantar de quem, até então, usava o grito como expressão maior.

Nando Reis fez com que Cássia percebesse que delicadezas também poderiam ser boas armas sonoras. E aí a cantora gravou singelezas como “O Segundo Sol”, “All Star” e “Relicário”, “Luz dos Olhos”. Foi um encontro único. Cássia achou um compositor e Nando encontrou a tradução de sua voz.

Cássia passou a ser então, uma cantora de público. De massa. “Acústico MTV” vendeu quase um milhão de cópias. Explosiva e intensa no palco, tímida e fechada fora dele, Cássia Eller nunca soube muito bem como lidar com os dois lados da moeda. Fama e exposição não faziam, para ela, parte do pacote.

Com problemas no coração, com febres reumáticas, com uma vida que não foi necessariamente abstêmia, Cássia ultrapassou os limites físicos entre os anos de 2000 e 2001, com turnês cansativas, com exigências sentimentais e profissionais que não deu conta de suportar. Se pegou a quase todos de surpresa no início, a morte de Cássia Eller, por problemas no coração e não overdose, como se suspeitou no início, acabou por não ser tão surpreendente assim, no final das contas. No clichê com que se costumam tratar essas mortes, pode-se dizer que Cássia Eller seguiu o que diz a canção de Neil Young: “É melhor queimar do que apagar aos poucos”.

Só que, dez anos depois, como Renato Russo, Cazuza e Chico Science, Cássia Eller continua queimando…e a chama permanece forte. E a julgar pelo cenário atual, há poucas possibilidades de algo igual surgir.

– Ismael Machado é repórter especial do Diário do Pará e está lançando o livro “Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem”. Saiba mais aqui

Leia também:
– A versão domesticada de Cássia Eller ao vivo em Taubaté, 1999, por Marcelo Costa (aqui)
– Dois olhares sobre Tulipa Ruiz, por Juliana Simon e Tiago Agostini (aqui)
Blubell: ”Eu sou do tempo que a gente se telefonava, pero no mucho”, por Ramon Vitral (aqui)
– Tulipa Ruiz, o próximo passo e o jardim, por Bruno Capelas (aqui)
– Entrevistão: Lulina e Stela Campos, por Marcelo Costa e Tiago Agostini (aqui)

14 thoughts on “Dez anos sem Cássia Eller

  1. Sinceramente, acho a versão de Concrete Jungle da Céu tão fodona quanto If Six Was Nine, por exemplo.
    Essa necrófilia da arte, como diria o Pato Fu, é mesmo uma praga.
    Até os Mamonas Assassinas viram, como já vi aqui mesmo nesse site, relevantes.
    Cássia foi grande, óbvio. Mas outras tantas do tamanho dela continuarão a aparecer.
    Lembrei do Ira! e sua Receita Para Se fazer um Herói.
    “Pega-se um homem feito de nada como nós…
    Serve-se morto.”

  2. Tb acho super simples opiniões díspares, Ismael.
    Complicado seria se todo mundo dissesse amém pra tudo que falam.
    Ahh, Cássia tb tem uma versão de Little Wing do Hendrix lindona. Tá no disco póstumo dela.

    Abraço

  3. cassia eller faz falta sim… pro traficante dela. Ela pode ter sido uma cantora que ganhou espaço porque foi ousada e correu atrás do sonho. Todo reconhecimento e mérito pra ela. Mas talento não era seu forte. E nem de nenhuma dessas cantoras da atual safra da musica brasileira.

  4. Absolutamente zé henrique. Não sou cretino e tão pouco foi meu comentário. Para desfazer seu equívoco, poderia dizer, por gentileza, qual das partes que te ofendeu? A parte sobre a Cássia Eller ser horrível ou sobre a atual safra de aspirantes a cantoras brasileiras?

  5. Nenhuma frase foi cretina. Ela morreu do quê? Overdose. Seja fã ou não, assuma o fato. Pro lado de cá (MG) antes mesmo do breve sucesso, a fama relativa a porra-louquismo dela já existia.
    E foi por esse mesmo comportamento estereotipado que ela ficou famosa, mostrando peito, falando palavrão e tirando o foco do que ela supostamente devia fazer: aprender cantar e compor. Pq esse é o segundo fato que vc precisa lidar: Ela não cantava bem. Desafinava demais e só conseguiu gravar com um esforço bárbaro pq ela tb achava e assumiu isso publicamente, que cantar afinado era besteira.
    Talento (tanto o inato quanto o lapidado), LUI, é um conceito abrangente o qual eu posso definir e posso discutir se for necessário. Mas por hora, entenda apenas que talento e cassia eller não cabem na mesma frase. Igual falei no primeiro comentário, ela merece ser admirada apenas porque correu atrás do sonho e ralou. Apenas isso.

  6. Poh eu voltei e li o post original “dez anos sem cassia eller” e vou falar uma coisa: tudo o que eu falei está nas estrelinhas do que o cara escreveu originalmente. O texto soa até forçado quando tenta traçar um paralelo com o Kurt Cobain (citaçoes de neil young né, sei…).
    Mas tá tudo ali, pra quem conhece a história e sabe interpretar fatos. Cazuza, Renato Russo, Cassia Eller: tudo farinha no mesmo saco de falta de talento, chupação descarada de outras bandas e constantes presepadas pra manter a pose e o estilo forçado.

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