Sob o CEL: Sobre os 20 Anos de Nevermind

Sob O CEL #4
Sobre os 20 Anos de Nevermind
por Carlos Eduardo Lima

Comecei a escrever sobre música em 1996, numa encarnação impressa do atual Portal Rock Press. Nessa altura, Kurt Cobain já tinha estourado seus miolos e o mundo era um lugar estranho e sem nenhuma garantia. E estava ficando pior. Os anos 90 do século XX são, até agora, o início de uma nova sociedade, epitomizada por tecnologia e grana, na qual apenas o saber funcional, ou seja, aquele que vai ter dar mais condição de ganhar mais grana num emprego totalmente tecnológico, vai ser “útil”. Uso as aspas porque, a meu ver, todo saber deveria ser útil, desde decorar nomes de capitais ou sei lá, conhecer marcas de avião.

O que quero dizer com isso tudo é que, se a sociedade muda, a música muda com ela. Ela é produto indissociável da época em que acontece, ainda que possamos apreciá-la fora desse tempo de concepção, quando há as chamadas obras de arte atemporais. E não fui eu que disse isso apesar de sempre ter mantido essa opinião em meus textos aqui e alhures. O pai desse pensamento é o sociólogo alemão Norbert Elias, manifestado em seu livro “Sociologia de Um Gênio”, sobre o compositor Wolfgang Mozart.

“Nevermind”, do Nirvana, é, desse jeito, um produto específico da época em que foi feito, ou seja, 24 de setembro de 1991. O mundo em 1991 já prenunciava configuração política e modus operandi sociais e econômicos de hoje e dava a idéia de que se transformaria num lugar estéril. Mais ou menos as mesmas intuições que outros escritores, George Orwell e Aldous Huxley, ingleses, socialistas e intelectuais, tiveram nos anos 20, quando o mundo retrocedia rumo ao fascismo. De alguma forma igualmente intuitiva, um sujeito oprimido de classe média, sem qualquer erudição acadêmica, foi capaz de colocar em forma de música todo o medo mundano diante de uma rotina fútil e sem sentido.

Kurt Cobain, sem exageros, foi o último compositor que conseguiu sintetizar o retrato de seu lugar e torná-lo possível para pessoas que nunca viveram onde e como ele vivia. Adolescentes da Bulgária, da Austrália e do Uruguai devem ter se reconhecido nas letras de Cobain e sentido a atávica vontade de mudar o mundo – ou mesmo rebelar-se contra ele – após experimentar o peso das músicas de Nevermind. Não cabe julgar qualidade delas, mas a importância e o efeito que tiveram. Se a MTV conspurcou o disco e o transformou em mais um competidor pelo topo das paradas, não importa. O estrago estava feito e o nome do Nirvana, cravado na história.

Era um tempo em que “música independente” e “indústria musical” ainda faziam sentido e que havia algo que se perdeu hoje em dia: as conversas sobre música na loja de discos. Se temos downloads extra-rápidos em banda larga, de nada eles valem se não houver informação, percepção, capacidade de separar o joio do trigo, sabe, fazer valer a liberdade conquistada e não deixá-la perder o significado em termos como “fácil” ou “grátis”, que nos fazem confundir as bolas às vezes. O “Nevermind” do Nirvana não era fácil, nem grátis, mas era um grito por liberdade. Pode ser comparado às grandes obras do rock, seja pelo ataque punk ou pela crítica social da black music do início dos anos 70.

Para Cobain, ser de classe média, ter TV a cabo, casar jovem e ter filhos não era exatamente sinônimo de uma vida legal se isso fosse te aprisionar como um hamster na rodinha da gaiola. Tanto que ele não quis continuar experimentando tudo isso. Colocou em música o que pensava e deixou a tarefa de interpretação para as gerações seguintes. Se você sacou a mensagem, ouviu “Nevermind” nos anos 90, comprou seu CD em alguma loja de discos e preza tudo isso, vale investir uma grana numa das várias edições de 20 anos do disco. Seja a dupla, com CD bônus e trocentas faixas novas, sejam elas sobras de estúdio, lados-b ou gravações ao vivo. Se tiver condições de ir mais além, vale abiscoitar a edição quintupla, com CD’s e DVD da apresentação inédita da banda na época do lançamento do disco. Seja qual o formato que você escolha, não haverá espaço pra nostalgia, pois “Nevermind” parece ter esgotado tudo sobre o que o mundo seria hoje e há vinte anos. Tudo está atual e desconfortavelmente suspenso na noite do tempo. Dá medo, mas é grande arte.

******

CEL é Carlos Eduardo Lima, historiador, jornalista e fã de música. Conhece Marcelo Costa por carta desde o fim dos anos 90, quando o Scream & Yell era um fanzine escrito por ele e amigos, lá em sua natal Taubaté. Já escreveu no S&Y por um bom tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como o conhecíamos acabou lá por volta de 1994/95 mas não está conformado com isso.

LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM & YELL

Leia também:
– Indústria ganha sobrevida investindo em reedições de deixar fã sem dormir (aqui)
– “Nevermind” é, ainda hoje, um disco atual e sensacional, por Marcelo Costa (aqui)
– Entrevista com Steve Albini, por Elson Barbosa (aqui)
– O box “With The Lights Out” e “Nevermind Classic Albums”, por por Marcelo Costa (aqui)
– Duas são as maneiras de se ver a coletânea “Nirvana”, por Marcelo Costa (aqui)
– “Bleach – Deluxe Edition”, Nirvana, por Marcelo Costa (aqui)
– Entrevista: Charles Cross fala sobre “Heavier Then Hell”, por Victor Hugo Lopes (aqui)
– Um grupo de votantes aponta “Nevermind” como o Melhor Álbum dos anos 90 (aqui)

18 thoughts on “Sob o CEL: Sobre os 20 Anos de Nevermind

  1. O Nirvana é daqueles casos que vc pode até não gostar, mas tem que ter respeito.
    Depois de um sucesso avassalador como o Nevermind nove em cada dez bandas ou repetiriam a fórmula ou suavizariam o som.
    Eles fizeram o contrário, lançaram o In Utero(o Nevermind é mais importante, mas pra mim ele é melhor) com um som ainda mais cru e virulento.

    PS: Ótima resenha, Cel. Assino embaixo.

  2. Nevermind de fato é um álbum divisor de águas. Foi ao mesmo tempo um disco de rock à moda antiga (da mesma maneira que um Surfer Rosa, p.ex.) e o primeiro a expressar a estética e o zeitgeist que dominaria as décadas seguintes. Isso sem falar que quebrou a barreira entre mainstream e rock alternativo. Desde 91, as bandas independentes têm cada vez mais facilidade e acesso ao mercado e a um público maior. Embora isso envolva outros fatores (como a globalização econômica e a internet), é inegável que o Nirvana ajudou a, com o perdão do trocadilho, tirar o underground do subsolo. Basta ver a quantidade de bandas “indie” que proliferaram nos EUA entre 92 e 94, consolidando este “nicho” do mercado na década seguinte.
    Sobre o álbum, ele é recheado de músicas inesquecíveis. Basta ver que mesmo músicas que não foram lançadas como singles (“Drain You”, “Lounge Act”, “Something in the Way”…) são excelentes.
    P.S.: Concordo com o Zé Henrique – o In Utero é melhor que o Nevermind. As letras estão melhores, e a produção do Albini é espetacular.

  3. “Kurt Cobain, sem exageros, foi o último compositor que conseguiu sintetizar o retrato de seu lugar e torná-lo possível para pessoas que nunca viveram onde e como ele vivia.” Assino embaixo. Mas nessa época de downloads rápidos e internet banda larga, já pode ter passado um novo Kurt Cobain e ninguém viu.

    Belo texto!

  4. Concordo em gênero, número e grau com o zé henrique. GOste ou não (e eu gosto, mais ainda hoje, inclusive, do que quinze anos atrás, quando era adolescente e a banda fervia). Nevermind é o divisor de águas, uma rachadura entre o subsolo e o mainstream. Porra, derrubou todo mundo das paradas, Micahel Jackson etc etc etc. Aliás, a banda foi, sim, o último grade ícone do rock. Amo Radiohead, mas não dá pra comparar com o impacto do nirvana. Por favor, que ninguém venha com papo de Strokes, né… No mais, também sou mais louco pelo In Utero.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.