A urgência de Tom Waits

por Gabriel Innocentin​i

“Estou aqui desde Eisenhower”, canta Tom Waits em “Last Leaf”. Ele garante também que é “the last leaf on the tree”. Se balançarmos a árvore, podemos desmenti-lo: Bob Dylan, Leonard Cohen e Van Morrison continuam na ativa. Mas a questão é: este senhor de 62 anos ainda tem algo a nos dizer em 2011?

Tom Waits canta em falsete: “All the news is bad”. A boa notícia é que, sim, ele continua em forma: “Talking at the Same Time” é uma das melhores letras de sua carreira. E talvez a mais importante de “Bad as Me”. Nesta canção com ar de Grande Depressão, ele ainda encontra um refrão que pode aludir ao mundo da internet: “Todo mundo está falando ao mesmo tempo”.

Em entrevista ao site Pitchfork, ele afirmou: “A internet é necessária, mas não é parte do meu mundo. São robôs, certo? Eles estão dominando o mundo. Agora mesmo somos parte dos planos deles”. Antes do disco ser lançado, ele divulgou um vídeo em que alertava para a falta de privacidade na internet, criticando o compartilhamento de canções. Estraga a festa, perde a graça, diz ele.

Apesar da ranhetice, o outrora contador de histórias em pianos de bares decadentes não se furtou a fazer um disco rápido: das 13 canções, apenas três têm mais de 4 minutos. Culpa de sua esposa, Kathleen Brennan, que ordenou economia nas letras e na duração das canções. Isto também significou um trabalho mais comportado, sem cadeiras e correntes arrastando, barulhos estranhos e ruídos inidentificáveis.

“Bad as Me” é um álbum falsamente antiquado: tem mais guitarras do que no disco mais recente da banda de Thom Yorke, é tão dançante quanto Black Keys (faça o teste: ouça “Get Lost” com o clipe de “Lonely Boy” no mute) e mais coeso do que “Alice” (2002), que trazia a canção “Fish & Bird”, uma inusitada história de um peixe apaixonado por uma baleia (uma canção para entrar no setlist da “Teoria de Alison” de Miguel Luna).

A opção de compor um disco sem frescura resultou numa obra que transmite urgência, tão acessível quanto “Mule Variations” (1999), seu maior sucesso e um dos discos mais amados pelos fãs. Com uma carreira de quatro décadas, Tom Waits não precisa provar mais nada e aqueles que o criticam por ter entrado numa suposta zona de conforto se esquecem da beleza que pode surgir de um disco que refina sua arte. Só quem a domina pode cantar com tamanha autoridade o verso “Todos os caminhos levam ao fim do mundo”.

Entre os coadjuvantes de luxo estão Flea, baixista do Red Hot, e David Hidalgo, multi-instrumentista da banda Los Lobos que já tocou com Bob Dylan e Elvis Costello. As faixas mais elaboradas são justamente as que contam com a participação do pirata Keith Richards, como “Chicago” e “Hell Broke Luce”. “Ele veio com 600 guitarras num caminhão. E um mordomo”, contou.

A parceria rendeu “Satisfied”, uma resposta ao hit “Satisfaction” dos Stones. Enquanto o jovem e sex symbol Mick Jagger urrava sua frustração sexual – “Não consigo me satisfazer” – o velhinho Tom Waits usa e abusa da sua voz roufenha e gutural pra cantar: “Before I’m gone, I said I will have satisfaction”. Um hino à vida, como ele mesmo definiu.

“Face to the Highway” é o lado reverso da cute “Diariamente”, de Nando Reis e Marisa Monte. Enquanto a dupla da MPB se preocupa com pipoca, fronha, marzipã e azeitona (não é piada, procure a letra), Tom Waits enfileira: “o oceano quer um marinheiro / a arma quer a mão / o dinheiro quer um gastador / e a estrada quer um homem”, para concluir “virei meu rosto pra estrada / e vou virar as costas pra você”. Isto só na primeira estrofe.

A jóia do álbum é “Kiss Me”. O começo já remete para o clima de “Blue Valentine” (1978) – aquele disco em que Tom Waits, O Solitário, mandou um cartão de dia dos namorados pra si mesmo. De volta a 2011, temos o arpejo agudo na guitarra, com um pianinho fazendo a base e o baixo de Marcus Shelby pontuando a canção. E o refrão matador: “Kiss me, I want you to kiss me, like a stranger once again”. Perdeu a namorada, mande pra ela. Se não conseguir sequer beijo de despedida, namore um ser humano da próxima vez.

Não feche sua lista de melhores do ano sem ouvir esse álbum.

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– Gabriel Innocentini (@eduardomarciano) é jornalista e assina o blog Eurogol

Leia também:
“Bad as Me”: balanço equilibrado de baladas e canções agitadas, por Tiago Ferreira (aqui)

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