Show: Marcelo Jeneci em Belém

Marcelo Jeneci e a não descartabilidade da música
texto por Ismael Machado
fotos por Caio Brito

Nos dias de hoje, com o Youtube servindo de plataforma para clipes supostamente polêmicos e originais (vide Lady Gaga) e com a voracidade de informações sendo facilmente digeridas e cuspidas fora, qual o verdadeiro sentido de um show? O que ele (ainda) pode fazer para ser mais do que um mero entretenimento que será esquecido momentos depois, como aquela música baixada e arquivada entre tantas outras no computador ou nos aparelhinhos de nomes diversos que são trocados a cada seis meses?

É uma das reflexões que se pode fazer quando determinados artistas se propõem a ofertar ao público algo mais do que um punhado de meras canções descartáveis. Na mesma semana em que um vídeo mostrava a arremedo de cantora Katy Perry sendo flagrada no palco fingindo tocar uma flauta durante um show e confessando constrangida que nada sabia daquele instrumento, o site Scream & Yell relatava o que foram os shows da banda Pearl Jam no Brasil.

O Pearl Jam talvez seja uma das últimas bandas do planeta em que a música está acima de modismos, lances mercadológicos ou outros factóides que parecem hoje ser mais importantes que tudo. E há quem ainda os critique por isso.

E o que tem Marcelo Jeneci a ver com isso? Tudo. Num domingo, 19/11, Marcelo Jeneci fez, se não o melhor, o mais emocionante show do Festival Se Rasgum, em Belém. Lembrou que a música é, ou pelo menos deveria ser, algo a mais do que a descartabilidade. E que há, sim, a possibilidade de uma espécie de transcendência emocional naqueles breves momentos em que o artista sobe ao palco e se entrega para o público.

A palavra entrega é apropriada. Jeneci entrega ao público o que o público espera. Só que faz isso levando a platéia a um outro tempo. Quando ao final do longo solo de “Por Que Nós”, remetendo a uma ambientação de rock progressivo, Jeneci agradece a Guilherme Arantes, há finalmente um reconhecimento tácito a um dos compositores brasileiros que na virada dos anos 70 para os anos 80 melhor soube captar as angústias e sonhos adolescentes na transição para a idade adulta em pelo menos quatro discos antológicos, sempre flertando com as possibilidades que o rock progressivo oferece.

Jeneci não se furta de longos solos instrumentais e, para os ouvidos mais atentos, faz uma ponte extremamente interessante entre o que de melhor havia no Tropicalismo e na música pop dos anos 70 no Brasil com o que de mais diverso há na MPB atual. Estão ali concentrados Roberto Carlos (de resto homenageado com uma bela versão de “Do Outro Lado da Cidade”), Odair José, Mutantes, Guilherme Arantes, Arnaldo Antunes, música caipira, rock progressivo, Elton John, iê iê iê, clube da esquina…

As referências seriam listadas às dezenas, mas o fundamental é que de todo esse caldo que poderia ser facilmente entornável, Jeneci extrai canções doces (não confundir com o péssimo e empobrecedor ‘fofinho’, com que jornalistas mais cínicos e preguiçosos costumam rotular sons que não se baseiam numa suposta agressividade sonora ou de letras). Doces, sim, mas o adjetivo mais apropriado talvez seja… cativante.

Durante o show, a jornalista e colunista cultural Esperança Bessa postou no twitter que Marcelo Jeneci conseguia a proeza de fazer os mais sisudos homens chorarem. Nem de longe ela foge da verdade. Isso porque as canções vão sendo desnudadas aos poucos sem disfarces. São apenas canções, é fato, mas raramente nos últimos tempos, canções tem se mostrado tão descomplicadas e intensas, como nas que embalam o primeiro disco de Jeneci, “Feito pra Acabar”, lançado em dezembro do ano passado e alçado a disco do ano neste mesmo site. Essa mistura entre simplicidade e sofisticação, pode até parecer paradoxal ou, para usar outra expressão preguiçosa, fruto de ‘cabecice’ do autor, mas ao fim do show ou da audição do disco, a sensação real é que Jeneci ama música.

É óbvio isso? Nem tanto. Os cuidados nos arranjos, a busca por letras que soam simples, sim, mas que conseguem alcançar a dose certa de emoção, despertam amor pela música. Não apenas pela música dele, em si, mas pela música de forma geral, a boa música pop em particular.

No show de Marcelo Jeneci há tantos momentos ímpares que fica difícil estabelecer qual o clímax. Mas é certo que em “Feito pra Acabar”, com o arranjo em crescendo, com a interpretação lembrando o que John Lennon fazia na época da terapia do grito primal, é um daqueles momentos de um concerto em que a sensação é de plenitude. Um descarrego emocional que flagra um cantor/compositor num momento especial da própria carreira e que consegue, com isso, estabelecer uma comunhão com o público como não se costuma ver. Desacostumamos disso. Estávamos quase desaprendendo a por pra fora esses sentimentos. As grossas lágrimas e a voz embargada no canto acabam por nos lembrar porque a música tem esse poder. E vale a pena sentir isso, nem que seja por uma noite apenas.

– Ismael Machado é repórter especial do Diário do Pará e está lançando o livro “Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem”. Saiba mais aqui

Leia também:
– Saiba como foram os três dias do Se Rasgum 2011. Adriano Costa, Iuri Freiberger, Jarmeson de Lima, José Flávio Júnior, Marcelo Costa e Ricardo Moraes apontam os melhores shows (aqui)
– A vitória despercebida de Marcelo Jeneci, por Yuri de Castro (aqui)
– O que falta para Marcelo Jeneci tomar as rádios?, por Marcelo Costa (aqui)
– Melhores de 2010 Scream & Yell: “Feito Pra Acabar”, de Marcelo Jeneci, em primeiro (aqui)
– Cinco jornalistas contam como foram os shows do Pearl Jam pelo Brasil em 2011 (aqui)

12 thoughts on “Show: Marcelo Jeneci em Belém

  1. O show dele no Escambo aqui em Sabará foi exatamente isso que o Ismael retratou. Jeneci faz as coisas com amor, então imagino que todo show dele seja assim, uma celebração da música.
    Após o show de Sabará fui falar com ele,que foi extremamente solícito. O cara foi inclusive buscar a Laura em um “camarim” improvisado para falar comigo. De quebra, ganhei um autógrafo, um abraçõ e um agradecimento por estar prestigiando o trabalho dele.
    Cara humilde, talentoso, que faz música por amor. Vai longe.

  2. Eu assisti o show do Marcelo Janeci no Parque Villa Lobos em São Paulo há poucas semanas atrás e fui surpreendido positivamente. Havia ouvido o disco Feito Prá Acabar antes, mas admito que por mais que eu quisesse, eu não consegui achá-lo especial. Isso até o show. O disco tocado ao vivo é muito melhor que o de estúdio. Tem mais corpo. Tem mais peso. Deixa de ser “fofinho” para ser emocionante. Você se emociona muito durante o show, se não for preparado então, ele te pega de calças curtas e é bem provável que você chore em algum momento mesmo. Eu chorei durante felicidade … disfarcei é claro, mas estava sensível e aquela música caiu como uma luva naquele momento. E olha que a última vez que uma música tinha me feito chorar, foi no American IV, com Bridge Over Troubled Water, pois na época minha avó tinha acabado de falecer. Enfim, hoje o show do Marcelo Jeneci é um dos eventos que nos fazem perceber que a música vai muito além de downloads, de resenhas ou críticas. É um show que emociona, com músicas que se transformam ao vivo e que crescem, você sente o clima feliz, e você sai do show mais leve, com aquela sensação boa de que tudo ainda vale a pena. Depois do show, passei a ouvir o disco com outros ouvidos, e mesmo que ele ainda não seja tão bom quanto o show, ele deixou de ser apenas “fofinho” para mim, e passou a ser música que me faz lembrar de momentos, que me faz fechar os olhos e ver imagens, filmes, e pessoa sorrindo felizes.

  3. Tenho lido muito sobre o Jeneci, e confesso que por preguiça ou preconceito não me aventurei a escutar, mas depois desse texto fica quase impossível não dar uma orelhada no trabalho do cara

  4. O primeiro show do Marcelo Jeneci que assisti foi o lançamento de “Feito pra Acabar”, aqui em São Paulo. Um privilégio ouvi-lo acompanhado da orquestra de Arthur Verocai. Uma lindeza que me fez chorar do início ao fim…

    É tudo tão intenso e o Jeneci passa uma emoção tão sincera que em certo show um cara me disse “Dá vontade de ter ele como o meu melhor amigo”. E dá mesmo.

    Lindo texto, Ismael!

  5. Nem com essa resenha do Ismael me dá vontade de querer ouvir. Acho-o, como dizem os paulistas, coxinha demais.
    Interessante como um pop tão banal/trivial como o do Jeneci, Tulipa, Tiê… só por serem de determinada cena musical se transformam em discos relevantes.
    Ahh, fofinho não é empobrecedor. É definidor.
    O Gil, por exemplo, tem uma obra(em sua imensa maioria) doce, mas não fôfa.

  6. Eu estranharia se o zé quisesse ouvir…aí ele não seria mais do contra…e toda a ‘fama’ de mau arduamente tentando ser construída poderia vir por água abaixo…aí seria complicado né? hehehee

  7. Pô, Ismael, fama de mau? Confesso que um ser bonzinho/fofinho não me atrai, mas sou do bem.
    Gosto de pessoas, e procuro sempre ter, que têm opinião. Até mesmo pra poder mudá-la.
    Não dá pra engolir tudo que nos servem, né?
    Um neo Guilherme Arantes ser a grande parada da nova música brasileira é demais pra mim.

    Abraço

  8. haaha ei zé…como a gente diz aqui em belém…tô só encarnando. zoando de brincadeira. não leva a sério…ah,…vc precisa conhecer melhor o guilherme arantes. pega tres discos…76, cara e a coragem e coração paulista. são bem fodões…de verdade…abs

  9. Ahh, melhor assim, Ismael.
    Espero que os elogios da resenha ao Jeneci também tenham sido brincadeira. rsrsrr
    Eu manjo essa fase de arranjos mais intrincados do Guilherme. É boazinha – ele tem algumas boas letras.
    Mas, repito, seu sucessor piorado ser o tal dos indies brazucas é brincadeira de mau gosto.

    Abraço!

  10. Foi a melhor análise do trabalho do Marcelo Jeneci que li até hoje, e olha que eu já li muita, mas muita coisa sobre ele como fã incondicional que sou. Belíssimo texto Ismael!!! Está pra nascer cantor, compositor, multi-instrumentista e artista como Marcelo Jeneci. Vale muito a pena ver um show, pois é uma experiência de beleza e lirismo que completam um CD tão interessante e poético.
    Abraços e sorrisos!!!

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