R.E.M. e o fim de uma era

por Ismael Machado

“Eu sei que vou vê-los no futuro. Assim como eu sei que verei todos os que nos seguiram e nos apoiaram ao longo dos anos. Mesmo que seja só no corredor de vinil de sua loja de discos local, ou de pé na parte de trás de um clube assistindo a um grupo de rock de garotos de 19 anos tentando mudar o mundo”.

À parte a possibilidade de clichês que confundem mais do que explicam no universo da música pop e, mais particularmente, no universo do rock and roll, a frase de Peter Buck, guitarrista do R.E.M., insere-se, talvez num dos momentos mais significativos vividos pela música nas duas últimas décadas, pelo menos. O ‘enciclopédico’ guitarrista da banda fez com que fãs no mundo inteiro derramassem pelo menos uma lágrima emocionada com essa despedida que é, ao mesmo tempo, uma profissão de fé no rock and roll como impulsionador de vidas.

Na quarta-feira, 21 de setembro, o R.E.M. apagou os holofotes, desligou as tomadas e saiu do palco. Encerrou uma das carreiras mais consistentes já vistas na música pop. Os últimos dois discos da banda, “Accelerate” (2008) e o ainda recente “Collapse Into Now” são testemunhos vivos de que não estava havendo ainda um desgaste criativo no R.E.M.

E isso não é pouco.

Foram 31 anos de carreira. A banda iniciou em 1980, em Athens, Geórgia. Nenhum daqueles rapazes tinha a cara e o jeito de roqueiros na plena acepção da palavra (como Wilco e Decemberists atualmente). Michael Stipe era fã de Patti Smith. Quando se uniram, trouxeram cada um, o que de melhor pode haver em referência pop. Beatles, punk, Beach Boys, Velvet Underground, Byrds, folk e country, Leonard Cohen, glam rock. Tudo bem empacotado e assimilado.

Peter Buck era chamado pelos amigos de enciclopédico porque conhecia todos os riffs possíveis dos clássicos do rock. Um ano depois de formada a banda veio “Murmur”, o primeiro disco, lançado por uma gravadora independente, a IRS. O disco que começava com “Radio Free Europe” já era uma das melhores cartas de intenção que se pode ter. Adotado pelas rádios universitárias, comuns nos Estados Unidos, o R.E.M. deu sentido, pela primeira vez, à palavra rock alternativo.

Era uma alternativa musical a excessos, grandiloqüências, pasteurizações. Em alguma esquina da vida Byrds encontrava o Clash, observados com benevolência pelos Beach Boys. É tocante ver a banda nesse período inicial em programas de televisão, com Stipe ainda buscando dominar o palco, algo que ele faria com um carisma incomum, anos mais tarde. E ver Peter Buck, sacolejando, pulando, tentando ser ao mesmo tempo blasé e Pete Townsend.

Vieram outros discos nessa mesma linha, como “Fables of Reconstruction” e “Life’s Rich Pageant”, quando o R.E.M. foi colocado na mesma prateleira de algo que era definido como ‘New Rock’. Elogiados, paparicados pela crítica, descobertos por um público cada vez mais ávido, o R.E.M. sentiu o baque. Em “Talk About the Passion”, um dos primeiros clássicos, Stipe derrama-se: “Nem todo mundo aguenta o peso do mundo / Nem todo mundo aguenta o peso do mundo / Quanto, quanto, quanto tempo?

É necessário respirar. É necessário preservar o que de intacto há no sonho. E, como a Legião Urbana fez logo depois do estrondoso sucesso dos dois primeiros discos, o R.E.M. foi buscar no passado a pausa certa. O arquivo de cartas mortas de “Dead Letter Office’ traz versões para Velvet, Aerosmith, Pillon, brinca com rascunhos de canções, flerta com a surf music. A encruzilhada estava ali, pronta a engolir a banda.

Mas veio o canto de cisne dessa primeira fase. Como se fosse o “primeiro ano do resto de nossas vidas”, o R.E.M. lançou em 1987 “Document”, o último independente. O primeiro da nova fase que viria a seguir. Coeso, intenso, enxuto e dinâmico, o disco traz clássicos instantâneos como “King of Birds”, “Finest Worksong” e as duas arrasa-quarteirões, “The One I Love”, inspirada, segundo Stipe, nos Smiths e “It’s the End of The World…”, uma das melhores canções já feitas para se encerrar um show.

O mundo pop quedou-se diante do R.E.M. O disco foi escolhido por muitas publicações como o melhor do ano. E então surgiu a Warner. Seria o fim do baluarte dos independentes? Essa era uma questão que jornalistas musicais se colocavam. A resposta só veio dois anos depois. “Green”, o disco de transição, o primeiro por uma grande gravadora. Disco de preciosidades ocultas como “World Leader Pretend” e de clássicos como “Orange Crush”.

O R.E.M. fincava terreno. Mantinha convicções democratas, defendia os índios, alfinetava a política norte-americana. Mas não se esquecia das canções. E enquanto a década findava, e os anos 90 iniciavam, o R.E.M. lançou dois dos melhores discos da história do rock. “Out of Time” e “Automatic for the People” levaram a banda a outro patamar. Ia embora, definitivamente, a adolescência e entrava a maturidade.

“A vida é maior do que você e você não sou eu / Os caminhos por onde irei / a distância em seus olhos / Oh, não, eu falei demais/ Eu causei tudo isso…(…) Aquele sou eu no canto / aquele sou eu sob os holofotes / perdendo minha religião / tentando te acompanhar / e eu não sei se eu consigo fazer isso”, cantava a banda em “Losing My Religion”. E qual seria essa religião que estava sendo perdida? “Eu pensei ter ouvido você rindo / Eu pensei ter ouvido você cantar / Eu pensei ter visto você tentar”

Quando dizia “estou escolhendo minhas confissões”, é como se Stipe estivesse percebendo o que deve ser feito e dito e o que é para ser evitado nas luzes e cores da fama. “Out of Time” é um disco denso, deslocado no tempo. As canções são mais pungentes, há mais espaços para órgãos, violinos, bandolins. Stipe começa a mostrar do que é realmente capaz como vocalista em canções como “Country Feedback”. “Nós viemos de falsos colapsos, de mágoa pessoal, de coleções de auto-ajuda, dor pessoal…” e manda um sonoro ‘fuck off’, para dizer depois que tinha o controle, mas perdeu a cabeça… e que era louco pensar no que se poderia ter tido.

Em “Half a World Away”, o lamento é mais intenso. “Este poderia ser o pôr do sol mais triste que já vi… Minha mente está correndo, como sempre… Minhas mãos cansadas, meu coração dói… estou metade do mundo longe, aqui”. Os sussurros e gritos de dor e fúria encontram eco. As turnês se multiplicam. A banda ganha ares de primeiro escalão. O público cai de joelhos ao ‘novo’ R.E.M. Há perplexidade nisso tudo. Mas o melhor ainda estaria por vir.

Esse melhor atende por “Automatic for The People”. O disco que, entre outras coisas, traz “Drive”, “Everybody Hurts”, “Find The River” e “Man on The Moon”. Só isso já o qualificaria como clássico absoluto. “Everybody Hurts” parece direcionada ao R.E.M. de dois, três anos atrás. Afinal, todos sofrem, todos se sentem sós, mas há sempre a possibilidade de amigos, de um novo começo. Nunca Stipe cantou tão bem. E nos palcos, a banda ganha consistência, forja os melhores shows que se pode imaginar.

Mas a estrada cobra pedágio. Foram turnês atrás de turnês. Dois anos seguidos na estrada. O resultado em disco é “New Adventures in Hi-Fi”, logo depois do ‘sujo’ “Monster”, a versão R.E.M. para o grunge. Há, entre tantas guitarras distorcidas, a singeleza de “Strange Currencies”, a que diz “Eu tropecei e caí, mas será que morri?”

Poucas bandas souberam cantar o amor como o R.E.M. E pense no amor como o que você quiser pensar. Mas é Stipe quem sussurra, lento: “E eis meu apelo: Preciso de uma chance, uma segunda chance, uma terceira chance e uma quarta / uma palavra, um sinal, um aceno, um suspiro / apenas pra me iludir, pra me pegar, pra transformar em realidade essas palavras, Você será minha!”. Sejamos feitos do mais frio aço para não sucumbirmos a isso. A não sermos tocados nesse momento.

As letras de Stipe nesta fase ganham qualidade maior. Estão mais maduras. Falam de relacionamentos fracionados, de fraturas de sentimentos, de desencanto com a esfera pública. Em “Be Mine” ele canta: “que se você me fizer sua religião / eu te darei todo o espaço que precisar / eu vou inalar sua respiração / eu serei a taça, caso você sangre”.

Ou em “New Test Laper”, em que Stipe mostra que entende sobre relacionamentos a dois. “Quando eu tentei contar minha versão da história / eles me cortaram, entrou o intervalo / fiquei em silêncio durante cinco comerciais / eu não tinha mais nada a dizer”. Experimente olhar para o parceiro ou para a companheira ao lado e não se identificar com isso.

Desgaste também na banda. Bill Berry, o baterista, sofre um aneurisma. Decide sair da tormenta de turnês e gravações. Recolhe-se em uma fazenda. O trio que sobra sente o baque. Volta depois com o subestimado “Up”. Mas como achar ruim um disco que tem “At Most My Beautiful”, “Walk Unfraid”, “Why Not Smile”. Como? Tente escrever algo assim: “No meu momento mais bonito / Eu conto seus cílios, secretamente / a cada um, sussurro “eu te amo” / E deixo você dormir / Eu sei que você está me vigiando de olhos fechados, ouvindo. Pensei ter visto um sorriso”. Apenas tente.

Se os anos 80 foram de afirmação, os 90 de consolidação e maturidade, os anos 2000 encontraram o R.E.M. num desafio. Manter-se relevante. Manter-se alerta contra a indulgência a si próprio. A banda conseguiu. Mesmo que haja críticas a “Reveal” e “Around The Sun”, há ali canções que mais da metade das bandas pop do mundo não conseguiram produzir em toda a carreira. “Eu costumava pensar, como os pássaros voam / Eles cantam pela vida, então por que não podemos? Nós nos apegamos a isso e reivindicamos o melhor / Se isso é o que você está oferecendo / Eu vou pegar a chuva, eu vou pegar a chuva”, diz “I’ll Take The Rain”.

O anúncio do fim do R.E.M. é um daqueles momentos que serão preservados para os fãs mais antigos da banda, aqueles que cresceram com eles, como um sinal de que o tempo, inexorável, vai pedindo passagem, corroendo antigos sonhos, transformando outros, modificando nossos próprios passos, trazendo angústias e certezas. É a nossa vida, afinal de contas, ou como a banda canta: “Levante-me, levante-me, eu atinjo meu sonho / Eu me perdi, me perdi deles / Dor de cabeça me chamando / Eu me perdi em tristeza / Eu me perdi em dor / Eu me perdi em gravidade / Memória, deixa, deixa, deixa”.

– Ismael Machado é repórter especial do Diário do Pará e está lançando o livro “Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem”. Saiba mais aqui
– Fotos por Marcelo Costa do show do R.E.M. no T In The Park, na Escócia, em julho de 2008

Leia também:
– “Lifes Rich Pageant – Deluxe”: muitos rascunhos interessantes (aqui)
-“Live at The Olympia”, R.E.M – Não show, nem ensaio, mas uma aula (aqui)
– R.E.M. ao vivo em São Paulo: sobre sono e sonhos, por Marcelo Costa (aqui)
– “Songs For a Green World” e a transição do R.E.M. do indie ao mainstream (aqui)
– “Reconstrucion of Fables”, o álbum mais fraco da primeira fase do R.E.M. (aqui)
Vídeos: assista ao show do R.E.M. no Rock in Rio 2001 (aqui)
– “Accelerate”, do R.E.M: Cinismo e barulho, por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. apresenta as novas canções ao vivo no Blogotheque (aqui)
– Cinco shows – que eu vi – para baixar e ouvir: R.E.M. na Bélgica (aqui)
– R.E.M ao vivo no Rock In Rio 3, por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. – Discografia comentada, por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. no Rock Werchter, na Bélgica, por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. no T I The Park, na Escócia, por Marcelo Costa (aqui)

14 thoughts on “R.E.M. e o fim de uma era

  1. Oh, oh, oh….oh, oh, oh…the sweetness follows….

    Qualquer canção do R.E.M 80% das bandas atuais dariam os dois braços, e não seria o bastante.
    Automatic for the People é literalmente um álbum para levar para casa como se fosse um móvel, algo que entra em sua vida e, por mais que se ignore no dia a dia, você sempre levará consigo.

    Um dia ainda lerei algum texto longo sobre o AftT e o Green, meus álbuns favoritos.

  2. É triste saber o fim de uma grande banda, mais triste ainda por ter sido talvez a última grande banda americana, sem substitutos a curto prazo, e muitíssimo mais triste porque acabou uma das bandas que mais curto e me emociono com. Não verei um show dos caras como sempre me prometi fazer e não ouvirei disco novo daqui a um ano ou dois. Não se pode perder tempo nesta vida. Ao mesmo tempo estou grato o suficiente de existir numa época em que pude acompanhar os caras. Valeu pelas canções!

  3. Wilco, Decemberists (e em um plano mais pessoal, Flaming Lips) estão aí para segurar as pontas do rock norte-americano por mais um tempo. Mas o fato é que a melhor banda americana em 30 anos apagou as luzes, deixando um vazio no coração de milhões ao redor do mundo, eu incluso.
    E não consegui ver um show deles, que lástima!!

    Só me resta ouvir o presente de despedida deles e fazer coro com a Patti Smith em Blue. Pois é assim que minha alma musical ficou.

  4. Belo texto para uma grande banda e é nessas horas que fica claro o quanto eu não entendi a atitude do Cobain. Como bem escreveu a Ana Maria Bahiana naquele texto sensacional sobre o New Adventures eles não foram uma faísca, mas uma fogueira. Valeu caras e como eles mesmo cantaram “Pick up here and chase the ride”.

  5. Amo mesmo o R.E.M.
    Muito da porcaria que sou devo a esses caras.

    Mas vamos ser sinceros. O R.E.M. acabou quando Bill Berry saiu.
    Ali o cristal trincou. E aí já era.

    Tudo bem. Os discos estão aí e é isso o que importa.

    Curiosos de bom gosto nascem todos os dias.

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