Cinema: A Árvore da Vida

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Malick reflete sobre existência do mundo e sugere “carpe diem”
por Tiago Trigo

Aproveite a graça da vida antes que a tirana natureza a roube de você. Não adianta esperar explicações de Deus para a vida ou para a morte. Não virão. Em “A Árvore da Vida”, o recluso e misterioso Terrence Malick reflete sobre a existência do mundo e dos humanos e sugere um “carpe diem”: o melhor de viver está em desfrutar os momentos, os detalhes, os pequenos prazeres: um raio de sol ou uma inocente brincadeira na infância. Tragédias acontecem o tempo inteiro, com tudo e todos. Ninguém está imune.

O tema abordado pode levar a pensar que o quinto longa-metragem do diretor, que chega aos principais circuitos de cinema do Brasil nesta sexta-feira (12/08), é um clichê óbvio e piegas. Mas não. O que mais conta é a forma escolhida por Malick, um cineasta autoral que não dá entrevistas e dirigiu apenas cinco filmes em 28 anos. Com maestria, ele mostra que não perdeu a mão nos anos de afastamento (não filmava desde 2005, quando fez o “O Novo Mundo”) e transforma a câmera em um pincel. A fotografia é indescritível e a luz solar parece obedecer a comandos de voz do diretor, que fez sua obra-prima, não à toa laureada com a Palma de Ouro em Cannes neste ano.

Logo no começo o espectador é convidado a acreditar que há apenas dois caminhos a escolher na vida: o da graça ou o da tirania. A obra é centrada na história de uma família tradicional do sonho norte-americano dos anos 50, cujo pai, Mr. O’Brien (Brad Pitt), mostra que pode ser tão ou mais tirano que a natureza. Durão, quer que seus filhos sejam fortes e independentes e comanda a família com “linha dura”, seguindo à risca os preceitos de um modelo patriarcal que resiste até hoje em muitos lugares do planeta.

A mulher e mãe dos três garotos é Mrs. O’Brien (a bela Jessica Chastain), que representa a graça, e logo no começo recebe a notícia da morte de um dos filhos, levado aos 19 anos. O baque provocado pela tirana natureza leva até o pai agressivo a se arrepender pelas vezes em que deu bronca no garoto. Então Malick deixa a família de lado para explicar que o mundo é assim mesmo, não adianta chorar. São muitas cenas sobre fenômenos naturais e aparecem até dinossauros para mostrar que o planeta é assim desde os primórdios. Chega a parecer outro filme e lembra um documentário do National Geographic. A explicação da metáfora é tão didática que chega a cansar. Perde-se tempo demais com isso.


Depois dos delírios exagerados do diretor, a família volta à cena, mas alguns anos antes. O nascimento das três crianças é mostrado (a natureza dá antes de tirar) de maneira extremamente delicada, com closes nos bebês, em momentos que parecem feitos para arrancar suspiros de todas as mulheres com instinto materno (nem todas têm). As cenas têm tanta beleza que às vezes soam irreais.

A infância dos meninos e a relação familiar são exploradas nos detalhes. Jack (Hunter McCracken), o mais velho, é o que mais sofre com os maus tratos do pai. As exigências e broncas são tantas que ele chega até a desejar a morte de O’Brien, em sua ingenuidade e sinceridade infantis. A mãe, o contraponto, é querida pelos três garotos, com quem brinca o tempo todo, diferente do pai, que está sempre com uma bronca na ponta da língua.

Malick corta direto para o presente, onde vemos Jack, o maltratado filho mais velho, agora vivido por Sean Penn, cheio de mágoas e arrependimentos, tentando reatar com o pai. Um homem deprimido pelo passado (a infância conturbada, a morte do irmão) e reflexivo, apesar da vida confortável que leva: mora em um lugar bonito, tem um bom emprego e, aparentemente, uma mulher que o ama. Mas vive claramente perturbado.

Porém Malick não fica muito tempo com o envelhecido Jack. A ideia do diretor é mostrar que algumas marcas da infância podem ser indeléveis. E que só a maturidade faz enxergar que a vida é composta de graça e tirania (personificadas pela mãe e pelo pai, respectivamente) ao mesmo tempo e é preciso saber conviver com isso, aproveitando cada segundo, pois a qualquer momento não estaremos mais aqui.

Texto publicado na(o) Quinta-feira, Agosto 11th, 2011 e arquivado na seção Cinema. Você pode acompanhar os comentários postados aqui através do FEED RSS 2.0.


3 Responses to “Cinema: A Árvore da Vida”

  1. Eduardo NAKAMURA

    Não sei pq mas tenho a ligeira impressão que esse filme é um dos melhores filmes que eu ainda não vi e já o considero um dos melhores que já vi sem te visto.

  2. rodrigo perez

    me desculpe, caro autor, mas esta é, de longe, a pior resenha sobre um filme que eu já tive a oportunidade de ler…

    so f+++ing sorry!

  3. Andy

    Até o texto do Zeca Camargo está melhor:
    http://g1.globo.com/platb/zecacamargo/2011/08/22/o-comico-e-o-cosmico/

    está mais Mac, menos Trigo hehehe

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