Duas faces do tango moderno

por Juliana Simon

Duas orquestras de tango atravessaram a fronteira e impressionaram o público paulista. As orquestas (assim sem o segundo “r” mesmo) El Arranque e Fernández Fierro fizeram shows no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, exibindo duas faces do tango moderno.

No show da primeira, no dia 21 de fevereiro, os gestos dos oito músicos pareciam milimetricamente ensaiados. Chamava a atenção a seriedade do bandoneonista Camilo Ferrero, o casamento perfeito dos dois violinistas – que tocavam sorrindo. Logo o tango – Guillermo Rubino e Gustavo Mulé e o vocal intenso de Juan Pablo Villarreal.

A apresentação da segunda, na sexta dia 11 de março, colocou os bandoneons em alto e bom som e fez jus aos enormes gramofones em chamas desenhados nos painéis do cenário. É um jogo de sensações. Antes do show, com as cortinas ainda fechadas, toca um Bob Marley para total estranheza da plateia. Quando elas se abrem, porém, desaba um sonoro e alucinante tango chamado “Despedida”.

No primeiro show, impera a elegância. Todos os músicos de ternos bem cortados. As conversas com a plateia acontecem em um tom arrogante-simpático (sim, possível), com várias provocações relacionadas à antiga rivalidade Brasil x Argentina. Com 15 anos de estrada, a El Arranque é referência no gênero e já tocou em todo o mundo. Uma das composições mais bonitas do último álbum – “Nuevos”, de 2009 – é um ode à depressão por semanas de turnê pelo Japão, chamada “Enigmatyco”.

Os Fernandez Fierro (foto 1 e foto 2), por sua vez, colocam o ritmo portenho em um liquidificador. Enquanto o pianista barbudo sobe no banquinho para tentar um som diferente, um dos bandoneonista agita os dreadlocks, o outro pula sentado e um dos violonistas joga o instrumento para o alto. A graça maior, no entanto, é o vocalista Walter “Chino” Laborde. A cada entrada uma nova camiseta, óculos escuros, um guarda chuva, um “Boa noitchi Sao Paolo, Ebirapuêrá!” e outras graças. Por mais distrações que todo esse teatro possa produzir, a música nunca para e a qualidade é indiscutível. Calorosos, falam mais de uma vez do prazer em tocar no gigante espaço. Em Buenos Aires tocam em “salões e galpões”, dizem.

Das composições de Leopoldo Federico à famosíssima “Por Uma Cabeza”, de Carlos Gardel, El Arranque arranca suspiros do teatro lotado de senhoras. As composições originais “Insomnios” e “Milonga de Mis Adioses” (com violinos arrepiantes) chamam a atenção e selam um show perfeito, que preenche bem o enorme espaço do Auditório.

A presença de palco também é marcante. Desconhecidos para a maioria do teatro lotado, empolgam do início ao fim. “Quem já conhecia a orquestra?”, pergunta o vocalista. Uns vinte braços levantam na multidão. “Quem sabe dançar tango?”. A plateia ficou muda, tímida até que um senhor e uma mulher se animaram a subir no palco. No fim, o público conquistado pediu um bis que parecia não estar programado. E ele veio intenso.

Charmoso ou delirante, o tango tem nessas duas orquestras representantes de peso. Já “de casa”, El Arranque e Fernandez Fierro mostram que o tango sobrevive firme e forte seja com sofisticação, ou com ares de bate-cabeça.

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– Juliana Simon é jornalista e assina o blog Deixo Um Post It

3 thoughts on “Duas faces do tango moderno

  1. Que bom que fizeram esse post.! Estava já a algum tempo procurando alguma indicação sobre tango, pois não conheço nada do gênero.
    Obrigado por terem tratado disso aqui no SY. Abraços!

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