Entrevista: Wander Wildner


texto por Murilo Basso
fotos por Eduardo Gabriel

Fanfarrão por natureza, Wander Wildner passou por uma das bandas mais geniais do país, usando ironia e sarcasmo para demonstrar sua insatisfação, deu vida ao “punk brega” em uma época em que se produziam apenas sambinhas e corrupção, e hoje, mesmo ainda sem saber se é hippie, punk ou rajneesh, está em paz.

Cerca de dois meses atrás, tranquilo, com sua guitarra e mochila nas costas, Wander passou por Curitiba para divulgar seu último trabalho, “Caminando Y Cantando”. A brincadeira, como já era esperada, contemplou todos os momentos da carreira do músico gaúcho e nos mostrou um artista ainda mais maduro.

Toda influência da década de 70 marca presença em “A Palo Seco”, de Belchior, “Viajei de Trem”, de Sérgio Sampaio, e “Clo”, gravada pelos Almôndegas. O apaixonado incorrigível está em “Dani”, do amigo Jimi Joe, fundamental para a construção do disco. A inquietude de “As Coisas Mudam” contrasta com a esperança de “Boas Notícias”. E as andanças aparecem em “Pra Ti Juana” e “Calles de Buenos Aires”.

O fato é que do momento em que começou a ser idealizado até seu lançamento, “Caminando Y Cantando” consumiu alguns quilômetros da vida do músico. Para conseguir seu objetivo, Wander rodou o mundo e voltou com o que ele próprio classifica como “apenas um disco folk”. Mas você pode enxergar além e perceber um artista em constante evolução, com uma espécie de “carta de intenções”, capaz de escancarar todos os fantasmas que o acompanharam durante sua carreira, para então chegarmos o mais próximo do que Wander Wildner é hoje.

Depois de uma feijoada, bebendo vinho e, claro, tirando onda, Wander conversou com o Scream & Yell. Ao final do bate-papo, o mesmo cara capaz de produzir clássicos como “Eu Não Consigo ser Alegre o Tempo Inteiro” e “Bebendo Vinho”, deixa uma dúvida no ar: Wanderley Luiz Wildner se leva a sério ou não? Leia a entrevista e decida. Ele segue caminhando. E cantando.

Como foi sua estadia em Berlim?
Foi ótima. Quando fui para lá ainda não sabia o que iria fazer. Não sabia quanto tempo iria ficar. Na verdade, não sabia nada. Quando cheguei, o lugar onde fiquei era aquele quarto que tinham os vídeos. Era um lugar muito legal, um apartamento. Lá eles fazem muito isso, alugam o apartamento e cada quarto é de cada pessoa. O quarto é a casa de cada um, o banheiro e a cozinha são coletivos. Isso é muito comum na Europa. Tinha uma amiga minha de Porto Alegre morando em um quarto, um gaúcho que eu não conhecia no outro e o quarto do meio estava sobrando. Era de um músico brasileiro que morava lá. O apartamento era alugado por ele, mas ele estava no Brasil. Ele deixava as coisas dele guardadas, algumas ainda estavam lá, as outras mandou para outro lugar e alugou o quarto. E o lugar tinha um astral muito bom, ao lado de um parque, tinha um janelão. Tudo muito calmo, silencioso e legal para caramba. Então me veio à ideia de fazer o disco.

Mas você não foi para lá com a ideia de fazer o disco?
Não, não. Na verdade, no final de 2009, a minha ideia era trabalhar em uma fábrica de galvanização na Suiça. Um amigo meu trabalhou lá e a irmã da antiga namorada dele era casada com o filho do dono da fábrica. Antes e depois da segunda turnê dos Replicantes fiquei na casa dele. Eu estava querendo trabalhar lá, não estava gostando do Brasil, não tinha música nova e queria dar um tempo. Mas acabou não rolando o emprego. Então em março fui para Buenos Aires, depois, em Abril fui para Montevidéu. E ali começaram a surgir algumas músicas, algumas melodias e letras. Em Buenos Aires surgiu “Calles de Buenos Aires” e depois em Montevidéu comecei a fazer “Puertas y Puertos”.

Para nos situarmos melhor: você foi para Buenos Aires em março, Montevidéu em Abril e Berlim em maio, certo?
Isso. Mas eu não sabia quanto tempo iria ficar. Acabei indo porque estava cansado e Berlim é uma cidade legal para caramba, muito alternativa e muito barata. É muito louco. Só indo para saber. É diferente de todas as outras cidades do mundo. Eu já tinha ido para lá duas vezes, em duas turnês com os Replicantes. Resolvi ir para lá, tinha essa amiga e outros amigos estavam morando lá. Mas eu não sabia o que ia fazer. Levei um violão e uma mochila com roupas, só isso. E acabei tendo a ideia de fazer o disco. Fui procurar algumas musicas, comecei a pensar em quais poderia gravar e chegando lá terminei “As Coisas Mudam”, que era uma musica que eu já tinha começado. Depois comecei a trabalhar em outras duas que eu também já havia começado, mas resolvi fazer parceria. Resolvi passar o que tinha escrito (de “Calles de Buenos Aires”) para o Arthur de Faria. Ele é de Porto Alegre, mas ia passar duas semanas em Buenos Aires e me falou: “Bah, tu tem que ir para lá”. Acabei indo junto, no mesmo período. Decidi dar para ele e para o Jimi terminarem a música. A outra, “Puertas Y Puertos”, perguntei para o Santiago Guidotti, que é um músico do Uruguai, se ele queria terminar. Gravei, mandei para ele, ele gravava, mandava de volta e assim fomos fazendo. As demais eu falei para uns amigos que queria fazer o tal disco folk. O Marcelo Guimarães, que é da Robô Gigante, me mandou “Pra ti Juana”. O Kaly, que é da banda Stuart, de Blumenau, estava de férias e me visitou em Berlim. Ele cantou “Boas Notícias” e eu falei: “E aquela música que tu tocou ontem estava a negócio?”. “É tua Wander, pode gravar!”. Outro amigo, o Sérgio, já tinha me dado “A Razão do meu Viver”. Assim fui montando o repertório, escolhi uma música do Jimi, escolhi as outras e fui pensando: “Vou fazer um disco de folk com as minhas influências”. Deu nisso aí. Foi bem simples (risos).

E tu acabou fugindo completamente da linha característica de bateria/ baixo/ guitarra de seus trabalhos anteriores.
Era pra ser. Esse disco tem algo conceitual. Busquei o conceito de ser um disco folk. Essa era a ideia. Até então nem um disco meu tinha sido dessa maneira. Os outros discos eu pegava as músicas que tinha e gravava. E nesse não. Nesse fiquei pensando que músicas colocar. Tanto que tem (apenas) uma composição minha e duas parcerias. As outras oito não são minhas. Em “Caminando Y Cantando” eu sou intérprete. É um disco em que interpreto o folk.

Tu não acha arriscado mudar dessa maneira? Não tem medo do teu público não sacar essa mudança?
Não (risos). Não faço musica pensando no público. Faço isso para mim. Na verdade sempre foi assim. Desde Os Replicantes, em todos os meus discos. Faço música porque gosto de fazer música. E algumas pessoas gostam das músicas. Os meus shows acabam sendo todos diferentes. Hoje vou tocar sozinho, em pé, em um bar em que o público vai estar em pé. Quarta-feira toquei no Opinião (Porto Alegre), que é um lugar enorme, com um puta som. Comecei sozinho, sentado, depois veio o Jimi, o baixo, a guitarra, tocamos mais algumas músicas, veio um violão, dois violões. Depois tiramos as cadeiras, largamos os violões, pegamos guitarras e fomos tocando. No final larguei a guitarra, entrou um baixista, o baixista pegou a outra guitarra e eu só cantei. Tem show que é em teatro, você toca sentado o tempo inteiro. Então, em cada um a sonoridade é diferente e algumas músicas mudam. Em um show sentado dá para tocar mais músicas folks. Em um show em pé toco mais rock, mas o repertório é basicamente o mesmo em todos: as músicas novas mais as antigas.

O disco já abre com “As Coisas Mudam”. E o primeiro verso (“E o bravo fico sô / O mundo tornara-se ridículo / Para se viver”) me pareceu muito forte…
É um trecho de filme, um diálogo.

De “O Pequeno Grande Homem”, do Arthur Penn, não é?
Isso. Eu anotei aquela frase há muitos anos atrás…

E tu terminou ela em Berlim?
Isso. Já tinha começado umas partes da letra, mas ainda não estava pronto. Em Berlim vieram mais ideias. Faltava uma parte da melodia. Na verdade eu tinha duas partes separadas e ainda não as tinha juntado. Tinha o refrão e a outra parte, mas elas não estavam juntas. E eu não tinha todos os versos.

Achei que ele representa bem o disco. Começando com sua narrativa.
É um disco muito político, que tem muito da minha visão sobre o mundo. Ele tem varias direções. No começo do disco a pessoa está desiludida, mas ela tem que fazer algo, porque fazendo algo as coisas mudam. Então o disco começa totalmente desiludido e esse cara vai lembrando-se da sua vida. Depois o amor, em “Dani”. Ele fica pensando sobre o que vai ser no futuro. São várias histórias, como se fosse um longa-metragem, composto de vários curtas, como na verdade são todos os meus discos. Nessa concepção ele é igual aos outros. São historinhas que tem ligações assim. Ele fala muito de viagens, de aventuras, que é o que venho falando desde o “La Cancion Inesperada”. Não é um disco brega. Tem “A Razão do meu Viver” que é uma música romântica. Até fiquei na dúvida sobre colocar ela ou não no disco. Porque não é um disco romântico. Pode até falar de amor em “Clo”, em “Dani” e “Pra ti Juana”, mas fala de um jeito diferente do que eu sempre falei. “A Razão do Meu Viver” eu ganhei e ela era muito boa – é uma canção perfeita. E eu já estava para gravar ela no disco anterior. Só que o Sérgio Luffing, que a compôs, fez há muitos anos atrás para sua mulher, pensando no Reginaldo Rossi cantando. Ele me mostrou, sei lá, cinco, seis anos atrás. No disco anterior, em 2008, eu falei “Bah Sérgio, e aquela música e tal…”, mas ele nunca sabia ela inteira. “Bah, eu não me lembro da letra”. E ficou me enrolando. Ele é um luthier, tem uma oficina de guitarras, uma loja lá em Porto Alegre.

Ele é músico também?
Sim. Constrói instrumentos e é músico. Mas ele não toca, só compõe. Essa música ele compôs há sei lá, 20, 30 anos. E para o “La Canción Inesperada” ele não me deu ela. Não conseguiu lembrar a letra! (risos). Fiquei pensando: “Essa musica é muito boa, vou gravar ela”. Porque no fundo também sou romântico. Não sou tanto quanto eu era, mas ainda sou um pouco. Como me criei como romântico ainda sou um pouco, mas não um doente como sempre fui (risos).

Mas querendo ou não, o disco ainda tem vários resquícios de romantismo.
É. O disco é uma história de um cara que vai atrás, procurando arrumar a vida dele. Que é o que eu faço. Procuro tornar minha vida melhor, fazendo o que acho legal fazer. Por isso estou sempre procurando uma aventura nova, inventando uma história nova. Pensei em parar de fazer música porque fazia cinco anos que não compunha nada. Como vou continuar cantando se não componho? Não posso. Agora consegui fazer esse disco. É um disco de intérprete, diferente. Ele me deu uma sobrevida, mas continuo sempre tendo que fazer algo novo. Como sou muito intérprete me coloquei interpretando muito mais do que nos outros. É um disco mais ou menos como na época dos Replicantes, que eu não fazia nenhuma música. Eles faziam e eu interpretava. Nele compus duas musicas novas, de um jeito novo, fazendo parceria. Nunca tinha feito parceria dessa forma, fazendo a música junto. Já tinha feito letra em cima de uma música ou música em cima de uma letra, mas compor a música junto, trabalhando em conjunto, nunca. Ok, consegui fazer isso, então acho que tenho mais um tempo de vida.

Tu curtiu esse lance de fazer música junto?
Claro! Foi muito bacana. E é uma surpresa. O cara faz alguma coisa e “Bah, olha o que o cara fez! Ele fez um refrão aqui”. Nossa, é muito legal.

No disco também percebo muito dos anos 70.
Totalmente inspirado. Dei uma volta ao mundo e no tempo. Em Porto Alegre, nos anos 70, tinha uma rádio chamada Continental, que tocava os grupos da cidade. E tinha muito grupo folk, sem bateria. Eram violões, percussão, gaita e violino. Eram dois grupos que tinham violino. O Almondegas e o Utopia. O Saracura tinha gaita e, na verdade, até tinha bateria, mas eram canções. Não era rock. Na época eu também ouvia o que tocava no Brasil. Zé Ramalho, Belchior…

“Puertas y Puertos” me lembrou o “Delibáb”, do Vitor Ramil.
Eu vi o show dele em Buenos Aires, quando estava por lá. Foi ótimo. É um disco que tem três músicas em espanhol. Eu conheci Montevidéu. Buenos Aires já conhecia, mas Montevidéu não. O nome do disco é “Caminando Y Cantando”, também em espanhol. Tem relação com “Caminhando e Cantando”, do Geraldo Vandré, a parte política. O nome do disco e a primeira música são o lado político. O lado romântico está nas músicas de amor. O lado da aventura nas viagens. E é isso que coloco: a minha vida. Estou na estrada desde fevereiro, quando larguei meu apartamento, coloquei as coisas em um depósito e fui viajar. Em março fui para Buenos Aires, depois tinha vários shows em Porto Alegre. Fui uma semana para Montevidéu. Tinha mais shows pelo Brasil. Eu estava fazendo vários shows, boa parte no Rio Grande Sul, mas mesmo assim continuei viajando. Fiquei em casa de amigos, em hotel. Quando voltei da Europa, no final de Julho, me hospedei na casa do Jimi Joe, porque resolvi que esse disco tinha que ser gravado em Porto Alegre, que tinha que ter o Jimi, porque o Jimi também viveu essa época folk de Porto Alegre. Ele tem essa experiência. E um disco folk é um disco de violões, então tinha que ter o violão dele. O meu violão é muito simples, o dele é que é trabalhado. Esse disco é o mais próximo do que sou agora, como eu estou vivendo hoje, o que eu quero.

Mesmo com certo tempo de carreira, tu ainda continua circulando. Como tu avalia o cenário atual da música independente nacional?
É legal. Tem mais bandas viajando, inúmeros festivais…

E musicalmente?
Ah, é uma merda! (risos) Porque o Brasil é uma merda e a música é o reflexo do País. Por isso que a política é assim. As pessoas entregaram o País, não estão fazendo esse País. Elas aceitaram ser capitalistas em uma sociedade de consumo e estão vivendo os problemas desse tipo de sociedade. Muitos carros, muita violência e os artistas fazendo tudo por dinheiro. A qualidade acaba caindo porque a arte é algo que tu faz porque aquilo ali é tua vida. Isso é a verdadeira arte. Mas, nos últimos 25 anos, tudo começou a ser só entretenimento, então as pessoas fazem teatro para ganhar dinheiro, fazem cinema para ganhar dinheiro. Para manter seu estilo de vida consumista. E o jovem, o que ele ouve? Voltando no tempo, de agora para trás: Restart, Nx Zero, CPM 22… (risos) Capital Inicial, Titãs, Paralamas (risos). Só vamos encontrar algo bacana no início da década de 80. O começo das bandas grandes é legal, mas depois eles estão em um esquema de empresários, de jabá. E fazem música pensando nisso. Isso não é arte. Arte é tu não saber o que tu vai fazer. “Puta merda! Como é que vai ser essa música?”. Tu quebra tua cabeça para saber que tipo de som vai fazer. E não dessa forma: “Nossa, tenho que fazer uma música para tocar no rádio”. Por isso que o hoje é sempre o reflexo da geração antiga. Sempre as gerações mais velhas são as responsáveis.

O mainstream nunca te interessou?
Não. Nunca fiz parte dele.

Mas ele já se interessou por você?
Normalmente no mainstream é tu quem se encaixa. E as pessoas conhecem a minha posição. Eles não vêm até mim porque sabem a forma como penso. Trabalho assim desde antes dos Replicantes. Fiz cinema, televisão e teatro antes de fazer música, antes dos Replicantes. E sempre era alternativo, sempre era de uma forma que não era mainstream. Sempre fiz desse jeito. Me criei fazendo arte dessa forma, buscando outras alternativas. Não vou pagar jabá para rádio porque é um crime. Porque as rádios são concessões públicas. As rádios e as televisões. Elas têm que servir a comunidade. Só que o governo não fiscaliza isso. É o Brasil, o País do “não dá nada”. É assim que as pessoas levam e por isso não gosto daqui. Por isso saí ano passado. Não tenho a ver com esse País. A cerveja é muito ruim, o carro é ruim, o móvel é ruim e o fogão é ruim. Tudo é feito para durar pouco tempo. Prefiro a Europa, onde tudo dura mais. As pessoas têm prazer no que elas fazem. Sempre trabalhei desse jeito e procuro sempre fazer o que é melhor. Porque estou usando isso. Mas aqui é uma merda. Por isso não me sinto bem, não consigo me relacionar com as pessoas. Aqui tem carro, na Europa tem bicicleta (risos). E aqui já vivi em uma época em que as pessoas tinham uma consciência política muito maior.

Tu ainda ouve rádio?
Não. Hoje a TV é a minha rádio. Ela fica ligada e a uso como usava o rádio antigamente. Mas cada vez tem menos coisa boa. Quando a TV a cabo surgiu tinha um monte de coisa boa. Eu não aguentava mais a TV comum. Hoje já não aguento mais a TV a cabo. Os filmes são muito ruins, os programas são muito ruins. Está ficando igual à TV aberta. Mas só deixo ligada, vejo a TV mais como companhia. Estou trabalhando no computador e ela está ligada. Vejo algumas coisas que sei que gosto. Com aquele monte de canal já sei mais ou menos o horário do que me interessa. A única rádio que escuto é um rádio de reggae e ska, a “SkaFreaks”. É uma rádio da internet muito interessante. A variedade de ska é muito grande: tem umas coisas meio reggae, meio roots, mais rock. É uma rádio muito boa de escutar porque varia muito e acaba surpreendendo. E esse é o grande barato da rádio. Mas, em geral, as rádios hoje são muito ruins. Porque as músicas são ruins (risos). Também baixo algumas coisas, os amigos me passam outras e acabo ouvindo muito no computador.

E disso que teus amigos têm te passado, algo novo que tenha te chamado a atenção?
Lá fora têm algumas coisas boas. A música nacional é que é muito ruim. Do que surgiu recentemente gosto bastante da Superguidis. Adoro eles como banda. São muito legais, já tocamos algumas vezes juntos. O Andrio escreve letras muito boas. Também gosto do Walverdes, mas é uma banda que toca muito pouco, e faz tempo que eles não compõem. O Mini trabalha em uma agência de publicidade, cuida da família, então ele trabalha muito e acaba não tendo tempo para compor. Agora que eles estão fazendo alguns shows.

Saiu o novo deles, o “Breakdance”. Tu chegou a ouvir?
Não, esse eu não conheço! Eles são tão alternativos que nem ouvi falar (risos). Mas são poucas bandas nacionais que gosto. Até porque é difícil eu ir a shows. Ah, gosto da Pata de Elefante. Fui ao show novo deles. Acabo falando mais de Porto Alegre porque há três meses que estou por lá.

Tu tá morando em Porto Alegre?
Não. Eu estava gravando o disco, mas não moro lá. Fiquei na casa de um amigo, gravei o disco lá e agora tenho uma série de shows. Fico lá até o final de dezembro (2010), depois não sei o que vou fazer. Porque não consigo pensar em montar uma turnê. Esse foi o primeiro disco que não tenho uma turnê. Todos os outros discos eu lançava e tinha três meses de show. Esse não. Marquei o show de lançamento em Porto Alegre, tenho quatro shows em um barzinho pequeno, o Zelig, que vou fazer só com o Jimi Joe. Público sentando, um show mais intimista. Mas depois não sei o que vou fazer. Porque não fiz uma turnê. Cansa fazer as mesmas coisas. Eu não consigo. Agora nesse disco tenho que levar o Jimi. Nos outros eu podia tocar em trio. Nesse eu já sei: só vou poder fazer o show dele em um Sesc ou em um teatro. E tem que levar o Jimi Joe. E o público tem que estar sentado. Tudo bem, não tenho essa obrigação, posso apresentar as músicas em versões mais rock, em pé com guitarra. Estamos ensaiando e conseguimos fazer umas versões legais. “Viajei de Trem” ficou ótima com guitarra distorcida. Então não sei ao certo o que vou fazer. Estou esperando as ideias chegarem.

Viajar de novo?
Talvez eu viaje sozinho. É mais fácil marcar shows sozinho. Talvez volte para São Paulo, faça uma base lá e quando puder marcar shows fora, marco. Sempre tenho uma banda em São Paulo e uma banda em Porto Alegre. E uma banda em Recife, que me acompanha lá. E toco em algumas cidades com uma banda me acompanhando. Faço uma parte do show sozinho, a outra parte a banda ensaiou algumas músicas e toco com eles. Mas é a primeira vez que lanço um disco sem turnê. E não vou fazer turnê, não vou. Vou fazer os shows que pintarem. O cara vai ligar, vou dizer show com banda é tanto. “Ah, não tenho”. Então vou sozinho. Não vou fazer turnê, não tenho mais saco. Fiz um show em Porto Alegre, lancei o disco lá, teve 236 pagantes. O show do Paul McCartney consumiu o dinheiro da galera uma semana antes (risos). Vai ver seja por isso. Pessoal comprou os ingressos caríssimos no cartão e depois do show do Paul todos os outros shows tiveram pouco público (risos).

Tu foi no show do Paul?
Não. Nunca ouvi muito Beatles (risos). Eu era Stones! Lá em Porto Alegre tinha muito disso. Fãs de Beatles e fãs de Stones. E eu não era fã de Beatles. Ouvia, sabia as músicas, mas nunca tive disco. Mas dos Stones tinha os discos e gravava os outros em fita K7. Até porque tinha muita gente fã dos Beatles e eu achava aquilo muito over. Pra mim, o grande beatle é o George Martin. Os Beatles só existiram por causa dele. Os caras iam embora e ele botava os malucos na obrigação de gravar, de tocar. Ele é o cara mais importante dos Beatles. Ninguém vai concordar com isso (risos). Mas o primeiro beatle é ele, depois vem os outros quatro. Ele é um gênio.

Mas estava em Porto Alegre na semana do show?
Sim, sim. Estava.

O que achou de todo o circo que se fez em torno da ida dele para Porto Alegre?
As pessoas ficaram todas emocionadas. Depois até vi uns pedaços do show e peguei o final do show de São Paulo, na Globo. É um cara tocando as músicas velhas (risos). Tudo bem é legal. Pô, 68 anos e não tomou um gole de água durante o show. Duas horas… Isso é incrível! Tá, legal. E ok, tão legal quanto qualquer outra banda que eu ache legal, não mais do que isso. Como as pessoas não estão fazendo o que gostam, quando vem alguém fazendo alguma coisa legal elas acabam gostando muito daquela pessoa. Já notou que as pessoas falam muito da pessoa em si? “Ah, Wander, tu é do caralho!”. Não! A música pode ser legal, mas eu sou uma pessoa qualquer, igual a todo mundo. O trabalho que faço, resultante de um monte de amigos que trabalham comigo, é legal. Só isso. Por isso não gosto de fã. Fanatismo é uma doença, tá lá no dicionário. Fã vem de fanático. Começa com a religião. Católicos são fanáticos por Cristo. Claro, os cristãos são uma coisa e a igreja Católica é outra. Até 250 d.C não tinha igreja. Eram só pessoas que falavam em Cristo. Um cara. E em 250 o Imperador Constantino se dá conta. “Cara, eles estão falando de um cara que morreu há 250 anos”. Louco, não? E transforma isso em uma religião, o catolicismo. Na música isso começa com os Beatles. E eles param de tocar por causa disso.

No show, teve aquele lance de vaiarem a guria que era de Florianópolis.
Mas é que as pessoas são assim. Mas isso é uma coisa muito grande, que tem no Brasil todo… Lá no Rio Grande do Sul tem muito isso. É burrice. Lá a burrice deve ser maior (risos).

Eu estava em um jogo do Inter no final de semana que comemora a Revolução Farroupilha. E confesso que achei bacana ver 30 mil pessoas ali, cantando o hino do estado. Mas cantar o hino em um show de rock beira o extremismo.
Antigamente tinha uma história de quando o Papa visitou Porto Alegre. Vinte anos atrás, sei lá quanto tempo. E nasceu o grito “Ucho, ucho, ucho. O Papa é gaúcho!”. As pessoas vivem no mundo delas. A sociedade faz isso e elas vivem uma loucura. Eu cansei, não tenho nada a dizer sobre isso. Não sou gaúcho, não sou nacionalista. Não me considero gaúcho, nem gremista, nem porra nenhuma. Sou apenas um homem a pé.

Aceitando esses “rótulos” tu acabaria se limitando?
Claro! Isso é uma delimitação social. É óbvio. Porra, tu nasceu no Rio Grande do Sul, então tu tem que viver a vida inteira lá? Vai ficar em Porto Alegre porque é porto-alegrense? Vai ficar em Curitiba porque é curitibano? Não, porra! Vá conhecer o mundo. Você só nasce em determinado lugar, mas não pertence a ele.

E qual a solução? 25 anos depois o futuro ainda é Vortex?
Cada vez mais! (risos) Sem dúvida, cada vez mais perto de Vortex!

Veja mais fotos de Eduardo Gabriel: www.flickr.com/photos/eduardo_gabriel/

Leia também:
– Quatro vídeos de Wander Wildner ao vivo em São Paulo, 2011 (aqui)
– “Caminando e Cantando”, trilha sonora para o livro “On The Road” (aqui)
– Entrevistas com Wander: 2001 (aqui), 2004 (aqui), 2006 (aqui), por Marcelo Costa

21 thoughts on “Entrevista: Wander Wildner

  1. A trilha do Wander deveria ser Lugar Nenhum dos Titãs.
    “Eu não tô nem aí, eu não tô nem aqui… Nenhuma pátria me pariu”
    Gosto muito da fase punk brega dele. Eu tenho uma camiseta escrtita eu te amo é sensacional!

    PS: Mania de chamar o samba de sambinha. Coisa de roqueirozinho.

  2. João, tire esse ódio do seu coração rapaz. Ele tem o direito de nao gostar. E não esta´com a faca no seu pescoço pra vc concordar. Relaxa minino!

  3. Entrevista muito boa. 🙂 O Wander é uma figuraça. No 1º festival Se Rasgum teve um dia que fiquei vendendo uns discos para as bandas e pro Lariú. Aí ele montou a banquinha dele do lado e começou a soltar pérolas diversas. Ele gritava “camiseta do Ramones a 10 reais”, aí a molecada parava pra comprar e era uma camisa dele. Quando a turma fazia cara de decepção, ele soltava: “Compra aí, que depois da segunda lavagem vira do Ramones. Te garanto!”. Figuraça.

  4. Ahh, esqueci de comentar.
    Vc mesmo começa o texto respondeu – “fanfarrão por natureza” – sua pergunta – Wander se leva ou não a sério? – Murilo.
    E o comentário do Adriano aí em cima corrobora ainda mais.
    Claro que NÃO se leva a sério. Trata-se de um sábio.

  5. Wander Wildner é um pela saco de marca maior. Depois que ele destratou uma amiga minha (colaboradora do Tenho Mais Discos Que Amigos) em um pocket show da finada banda Manacá, em uma livraria do Rio de Janeiro, eu perdi todo e qualquer respeito que eu já não tinha por ele. O caso foi que a garota gostava do trabalho do cara e estava meio sem jeito de trocar uma idéia e pedir uma foto com ele, normal, longe da tietagem desenfreada (até pq né… QUEM tieta o traste além das wannabe vanguarda?), então eu que sou mais cara de pau, cheguei e falei ‘Pô, cara. Minha amiga gosta do teu trabalho e ela queria tirar uma foto contigo, será que rola e tal?’ ele, com sua cara de cu desdentada, olhou para o lado e disse ‘Não sei quem ela é, então não tiro foto com quem não sei quem é’ e continuou na sua pose de estrela underground, que tinha acabado de berrar uns três ou quatro poemas xexelentos, que ninguém deu atenção pois esperavam justamente o Manacá.

    Afinal, quem trocaria a presença da Letícia Persiles por um pobre coitado, falastrão e desdentado que ainda por cima não tem o mínimo da educação com quem tem o costume imoral de gostar de um trabalho tão mediano?! Teve sorte que eu não era um cara esquentado, pois mereceu um soco pra perder o resto dos dentes. Walder, vc e um MEDÍOCRE.

  6. Bruno, meu chapa, isso que vc contou é muito clichê.
    Pouco importa se o artista é gente boa ou não. O que deve importar – pra quem consome/seus fãs – é sua obra.
    Se a pessoa for legal/simpática/generosa melhor. Não sendo assim, ela que se foda.
    Miles Davis era mau caráter – o que não é o caso do Wander. Ora, problema dele.
    Fico com sua música e mando o negão pra aquele lugar.
    Além do mais, todos podem estar em um mau dia.
    Pense nos seus.

  7. Zé Henrique, se foi clichê ou não eu estou pouco me fudendo. Aliás, grandes bostas ele ser assim com quem curte o trabalho (que eu já achava fraco bem antes disso) dele. Ninguém tem obrigação de ser agradável, mas educação é uma coisa que vc tem ou não tem e quem teve isso de berço, como eu tive, não tolero esse tipo de babaquice. Como eu disse, o babaca teve sorte d’eu ser um cara tranquilo e não quebrar o resto dos dentes podres dele.

    Não tenho costume de pelar saco de artista, querendo ir em camarim e o caralho a quatro. Mas, vejo que se eu me dou ao trabalho de pagar e ainda ir dar uma idéia no cara, elogiar pelo bom trabalho, o MÍNIMO que esse puto precisa ser comigo é cordial. Afinal, é meu dinheiro que sustenta, ou não, as carreiras dele.

    Se você gosta de ser tratado com grosseria por quem vc admira, parabéns pela vocação ao masoquismo. Eu não nasci com esse sangue de barata na veia. E é justamente pensando nos meus que digo, cordialidade é o mínimo. Existem N maneiras de se negar a fazer algo que vc não quer, e se ele é tão bom assim com palavras como acham que é, certamente ele sabe quais usar. Serveriam as mesmas que ele usa nos bastidores pra conseguir uma vaguinha num festival aqui, outro acolá.

  8. Não entendi os parabéns pela vocação ao masoquismo.
    Seria, pra vc, algo elogiável?
    O papo nada tem a ver com isso. As pessoas mais interessantes são múltiplas.
    Só os babacas são ou tetam ser uma coisa só.
    Além do mais, vc sabe o que mais ou menos espera de cada um, né?
    A Sandy – mesmo que esteja de TPM e querendo matar o primeiro que apareça – vai ser sempre um docinho. É refém da imagem que criaram pra ela.
    Prefiro os que agem de acordo com humores do momento.
    Me lembrei agora de uma passagem do Keith Richards com o Chuck Berry. Berry sempre foi o maior ídolo de Richards e na primeira vez que Keith o viu encheu tanto o cara por um autógrafo que levou um murro na cara.
    Richards contou isso – li numa entrevista da Playboy – as gargalhadas e disse que ficou mais fã ainda.
    Ou seja, Chuck é a Sandy ao avesso.
    Como diria Lobão, é tudo pose.
    Esquenta com essas bobagens não, cara.
    Fique só com o que vale a pena, a obra.
    No mais, todos somos, em vários momentos, ordinary people.
    E por fim, lembrando dos Titãs dos bons tempos.
    Nem sempre se pode ser Deus.

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