Entrevista: Blubell

por Ramon Vitral

Quando emplacou uma música na abertura do seriado “Aline”, da Rede Globo, a cantora Isabel Garcia ainda não tinha CD gravado para vender. Antes Bluebell, Isabel perdeu o “e” do nome artístico ao mudar de gravadora: não pôde levar o pseudônimo para a nova casa.

Hoje Blubell, a também compositora batizou seu segundo álbum como “Eu Sou do Tempo que a Gente se Telefonava”, mas grava todas suas músicas em casa, com um programa da Apple. A artista paulista tem consciência do contexto fonográfico turbulento no qual emerge e sabe de sua condição como fruto do meio.

O ano começa promissor para Blubell. A estreia da segunda temporada de “Aline”, baseada nos quadrinhos de Adão Iturrusgarai, traz novamente sua música “Chalala” na abertura. Enquanto na primeira temporada, em 2008, Blubell encaminhava a canção em formato MP3 para rádios, dessa vez poderá enviar um álbum novo com 12 faixas.

A exposição no canal televisivo de maior audiência do Brasil vem associada a uma bagagem adquirida entre os cinco anos que separam seu primeiro CD do segundo. Ao mudar de gravadora e ter seu pseudônimo reivindicado por seus antigos empresários, Blubell acatou uma sugestão de Arnaldo Antunes e aportuguesou o nome, tirando o “e”. Uma sacada criativa coerente para um mercado no qual, segundo ela, “é preciso bater escanteio e ir pra área cabecear para o gol”.

Blubell recebeu o Scream & Yell para um bate-papo em sua casa e conversou sobre a produção do novo trabalho e suas estratégias para divulgar o álbum com o quinteto de jazz À Deriva. Aos 33 anos, está no Facebook (facebook.com/blubell), Twitter (http://twitter.com/lablubell) e MySpace (http://www.myspace.com/blubellspace).

“É…”, ela pondera, ”Eu sou do tempo que a gente se telefonava, pero no mucho”.

O que aconteceu entre os cinco anos que separaram o primeiro álbum (“Slow Motion Ballet”) do segundo?
Venho tentando gravar esse segundo disco desde 2008. Procurei alguns produtores e até comecei alguns trabalhos, que não foram pra frente por diversas razões. Passei seis meses no Rio. Quando voltei resolvi chamar o quarteto À Deriva, agora quinteto, para tocar comigo. A gente já fazia um trabalho de jazz antes. Quando chamei esses caras pra tocar as minhas músicas, começou a dar super certo e veio o convite da gravadora. Durante esse período, uma dessas associações com outros produtores resultou na “Chalala”, da “Aline”. O produtor é o Emerson Villani (Patife Band, Funk Como Le Gusta, Titãs) e a nossa ideia inicial era gravar um disco. Ele estava fazendo a trilha da série junto com o Branco Mello, e perguntou se podia mostrar a música para a Globo. “Hã…deixa eu pensar” (risos). Eles gostaram e ele disse que achava que iria entrar e tal. Quando fui ver era a abertura!

Você tinha uma música como trilha da abertura de uma série do canal de televisão de maior audiência no Brasil, mas não tinha um álbum para vender.
Financeiramente foi legal, a Globo paga direitinho. Mas na primeira temporada, em 2009, eu não tinha um disco. Tinha rádio que me ligava pedindo e eu perguntava se podia mandar em formato de MP3 (risos). Não consegui aproveitar porque não tinha o CD na mão. Só tinha o primeiro trabalho, de 2006, que eu não queria divulgar, queria fazer alguma coisa nova. Mas foi uma loucura, minha página no MySpace teve mais de mil acessos por dia, rolou mídia espontânea, mas eu não tinha assessoria de imprensa na época e não deu pra aproveitar. Agora, vamos ver o que acontece. Tem o clipe que a gente fez, com a versão nova da música. No disco tem ela em duas versões, com o quinteto e a original como bônus track. O clipe é da versão nova. Depois de um tempo descobri que já tem um três videoclipes de fãs da “Chalala”, uns com fotos da “Aline”, outros com fotos minhas. Agora tem o clipe oficial. Espero que agora consiga aproveitar essa visibilidade né?

E como foi gravar esse clipe?
Eu já tinha feito um clipe com o Rodrigo Meirelles, da 02 Filmes, com a música de trabalho do primeiro disco. Foi todo roteiro dele e ficou muito legal, acho lindo. Nesse novo fiz o roteiro, mas também foi uma coisa mais coletiva. Botei mais a mão na massa. Tinha em mente que queria trabalhar com frases, que bloguei ou escrevi. Pílulas confessionais (risos). Tive uma ideia inicial de colocar essas frases de várias formas, numa casa, como imã de geladeira, post-it… Então pensamos em fazer cartazes, mais ou menos baseado no vídeo de “Subterranean Homesick Blues”, do Bob Dylan. Achamos uma locação maravilhosa no Parque da Água Branca e decidimos que eu soltaria os cartazes em movimento. Chamei uns amigos pra aparecerem no fundo. O Allen Ginsberg aparece atrás do Bob Dylan no clipe e chamei um pessoal pra ser meus Allen Ginsbergs (risos). Gravamos num sábado às 7h da manhã e foi pouca gente, só cinco pessoas (risos). Ficou com uma cara meio retrô.

Do primeiro disco para esse mudou um pouco o tipo de música que você canta.
Mudou a sonoridade. O primeiro disco foi feito da seguinte maneira: gravei todas as músicas, acho que 10, com voz e violão, e os produtores fizeram o que bem entenderam. Liguei pra eles e falei: “o tema é livre, vai lá” (risos). Ficou um disco super variado. Eram dois produtores e uma sonoridade que não era bem a que eu pensava. Então a diferença de um disco pro outro é muito grande, foram dois processos completamente diferentes. Acho que eu já tinha essa verve meio jazz quando fiz o primeiro, mas a coisa não transpareceu muito por causa da produção.

Dessa vez você se envolveu mais na produção?
Tem algumas músicas nesse CD que já compus pensando na banda. A “Triz” (terceira música do álbum), por exemplo, pensei em inventar uma linha de baixo e desenvolvi a música em cima disso. Já pensando que ia ficar perfeito com eles tocando. Acho que as minhas composições acabaram ficando naturalmente mais calminhas porque eu tava numa fase mais “trintinha” (risos).

Falando em “Triz”, sai dela a frase que nomeia o CD. Por quê “Eu sou do tempo em que a gente se telefonava”?
Acho bacana essa frase. É um sentimento da minha geração. Meio irônico né? Tenho Twitter, Facebook, passo mensagem de texto… Na verdade quando falo essa frase, estou falando de uma relação a distância, vivo na ponte-aérea há quatro anos (risos). Achei que fosse traduzir o disco bem.

Gravar e disponibilizar uma música é cada vez mais fácil e as redes sociais ajudam nesse processo. Você fez uso de várias tecnologias, mas o álbum tem uma pegada…
Meio retrô né? Exatamente.

Quais lições do primeiro disco você utilizou na produção desse segundo?
Aprendi e fiz exatamente o contrário. Eu não curti a experiência do primeiro CD. Não foi legal, eu era jovem e achava que era uma grande oportunidade que eles estavam me dando, um favor que estavam fazendo (risos). Tem até uma música do primeiro disco, que chama “La Vie En Chose”, que a gente faz até hoje no show e regravamos, mas não usamos no CD. Bati o pé pra ela entrar no primeiro disco. Os produtores não queriam. “Não. Isso aqui é um disco de rock e você não pode ficar fazendo piada!” Então não foi uma experiência muito agradável. Lógico que aprendi muito. Aprendi que gravar disco é fácil, o difícil é você lançar, conseguir visibilidade e shows. Mas o mais legal dessa vez foi ter conseguido juntar uma banda que gravou o disco e vai fazer o show. Isso dá uma unidade.

O primeiro disco você gravou e entregou pro produtores. Como foi trabalhar com a banda?
Fiz as músicas, as pré-produções no meu Logic Studios aqui em casa, com instrumentos virtuais, e mostrei para os meninos. A gente escolheu as músicas, algumas coisas ficaram para um próximo. (Então) fomos pra um sítio em Ibiúna. Lá ensaiamos e fizemos os arranjos juntos, em meio a nadadas na represa e partidas de futebol. Faz um churrasco, volta e ensaia mais um pouco (risos) Uma experiência que recomendo para toda e qualquer banda e artista. Muito legal! Voltamos pra São Paulo, o Maurício Tagliari (da YB Music) deu uma dirigida (ele produz o disco junto comigo), e gravamos todas as bases ao vivo, todo mundo junto.

Você assina todas as canções. Gosta de compor?
Tem música que sai muito rápido. Mas a maioria não. Sai a música e a letra leva um tempo trabalhando. No geral é quando tenho alguma inspiração, mas sempre sobre coisas que acontecem comigo. As pessoas me perguntam se sou autobiográfica. Sou. Não saberia escrever sobre o Egito, por exemplo. Adoraria saber. No momento não estou escrevendo. Estou trabalhando muito e me sentindo mais uma executiva da música do que uma compositora. Tem fases bastante frutíferas e outras menos.

Você fez um show de lançamento no Sesc Pompéia. Já tem uma programação com as próximas apresentações?
A gente ainda tá descobrindo como trabalhar isso. Estou meio que pisando em ovos. Vendo com quem vou trabalhar… Essa é a parte mais difícil, tocar bastante. Muitas vezes você acaba tendo de trabalhar sem ganhar nada. Conheço artistas que hoje estão super-bombados, mas que para ir pro Rio têm que se bancar. Enfim, tem que gastar pra fazer show hoje em dia. Até ter um retorno demora um pouco. Tem que estar trabalhando com gente que esteja realmente a fim de colocar o negócio pra frente. Tanto a pessoa que vai te vender, quanto os músicos que vão estar com você. E ninguém quer pagar a estadia de uma banda com seis integrantes. Um negócio muito difícil. Mas a gente tem que insistir.

Como foi o show no Sesc?
Foi maravilhoso, emocionante. Tive uma lagriminha no olho do começo ao fim. Deu muito certo, o público estava super quente. Teatro lotado, aquele lugar é super especial né? Foi um acontecimento na minha vida.

Você falou que já tem algumas músicas que ficaram para um terceiro CD. Já tem planos para um próximo trabalho?
Tenho músicas já. Quero continuar com o quinteto e acho que vai ser meio que uma continuação desse. Mas está muito cedo. Agora vai sair mais cedo. A nova gravadora me dá toda liberdade pra fazer o que quero. Me encontrei.

Foto 1: Divulgação / Fotos 2 e 3 por Eduardo Gabriel

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– Ramon Vitral (@RVitral) é jornalista e assina os blogs Despautado e RVitral
– Eduardo Gabriel é fotógrafo. Veja mais fotos: www.flickr.com/photos/eduardo_gabriel/

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