Entrevista: Peixe : Avião

por Pedro Salgado, de Lisboa

Eis uma banda atípica que utiliza um método inovador de composição: quase nunca se encontram, constroem pedaços de músicas e da troca de e-mails e discussão de ideias surgem as canções. Há algo de poético e de cerebral na música do quinteto de Braga, que lhes valeu algumas comparações com Radiohead, entretanto e justamente vencidas.

O Peixe Avião é a face visível de um projeto que tem a sua expressão maior no indie e até no pós-punk, com um forte componente lírico português. E consegue encontrar uma boa dose de inspiração composicional no pôr-do-sol ou nascer do sol. Sem exagero, é uma banda que trabalha arduamente em estúdio.

Do EP “Finjo a Fazer de Conta Feito Peixe: Avião” já tinha ficado o aviso de que o conjunto se tornaria numa das referências incontornáveis da moderna música portuguesa. A ideia pegou de vez no CD de 2008, “40.02”, sucesso de crítica e 5º disco do ano da conceituada revista musical portuguesa Blitz.

A sensação de deixar as músicas respirar, patente na hipnótica “Frio Bafio” ou no rock orgânico de “A Espera é Um Arame”, encontrou no disco sucessor, “Madrugada” (2010), um irmão mais denso e até desconsolado, mas sem perder a validade ou o charme. Há um teclado incisivo e muita densidade em “No Jogo da Quimera” e elegância a rodos em “Um Acordo Qualquer”.

Os falsetes do cantor Ronaldo Fonseca, o equilíbrio engenhosamente desiquilibrado do baterista Pedro Oliveira, a sensação de cascata feliz dos guitarristas Luís Fernandes e André Covas, e a precisão no baixo de Zé Figueiredo são alguns pontos chave para entender que tudo não se resume a uma facção académica que luta pelo reconhecimento, mas antes afirma uma sonoridade e um propósito consistente que faz sentido.

“Quero aquilo que fica a dois lábios de distância”, canta-se inteligentemente em “Detalhes de um Plano”, que exibe um delicado acabamento e uma colocação precisa de texturas. Com características de uma banda que não desilude, o Peixe:Avião segue o seu caminho rumo à perfeição. De Braga para o Brasil, o Peixe:Avião conversou com o Scream & Yell. Confira:

Qual é o significado do nome Peixe:Avião ?

Desde o início, pretendíamos que o nome do nosso projeto pudesse evocar, de certa forma, os ambientes sonoros que queríamos construir, que soasse estranho a quem o ouça, e desse curiosidade em descobrir o que está ali por detrás. O nome surgiu após a leitura da primeira frase da primeira música que fizemos, “Atiro ao Alvo”, que diz: “Finjo a fazer de conta feito peixe avião”. Analisando este nome sentimos que, efetivamente, ele continha esse potencial imagético, onde invoca diferentes ambiências e contém uma conjugação de elementos opostos, mas complementares em si. Tentamos, portanto, emergir para diferentes espaços, com a nossa música.

No mais recente trabalho, “Madrugada”, fica a sensação das canções serem mais densas do que em “40.02”. Concordam?

Sim, neste disco decidimos trabalhar mais os arranjos e harmonias nas canções, por cima de matrizes de estrutura pop, com versos e refrões mais perceptíveis. Gostamos de fazer música complexa, detalhada, com várias camadas e pormenores, o que traz densidade aos temas. Mas temos noção que (essa música) traz usualmente mais dificuldade para sermos ouvidos por algumas pessoas. Não queremos que as nossas músicas sejam demasiado fáceis de ouvir, quase como música descartável, em que se ouve uma vez e se joga fora, ou pelo outro lado, demasiado complexas e tão densas, que seria muito difícil transpô-las e compreendê-las. Criar música é um processo de contínua aprendizagem, e com três anos de existência estamos ainda a aprender a fazer boas canções, bons discos, que cativem os ouvintes e lhes tragam o prazer de querer descobrir e revisitar a nossa música.

Vocês lidam bem com o fato de serem classificados como indie rock português?

Sim, aliás gostamos de pensar que, apesar de tentarmos encaixar a nossa música em estruturas mais pop – aproximando assim a nossa música de mais pessoas – deixamos sempre espaço para criarmos a nossa própria identidade, os nossos próprios padrões, um cunho de certa forma descomprometido com as normas.

Em “Frio Bafio” há uma ideia de deixar a canção respirar, para além de uma vertente hipnótica. O que vocês tinham em mente?

“Frio Bafio” começou sendo uma canção mais calma e introspectiva, mas sofreu uma renovação buscando lhe atribuir maior densidade e mais ritmo, levando-a a chegar a um ponto alto que aí se mantém, repetindo-se, e apresentando pequeninos pormenores à medida que cada padrão se repete. É uma característica do kraut-rock, que muito apreciamos.

Vocês pretendem abordar novas linguagens musicais nos próximos discos?

É uma das nossas preocupações, sem dúvida, tentar reinventar a nossa maneira de escrever canções e de sentir que estamos fazendo alguma evolução. Queremos experimentar diferentes abordagens, desde a maneira de começar a construir e finalizar uma canção, testando também sonoridades que ainda nos são estranhas e aliar isso ao que já nos sentimos confortáveis fazer.

Têm alguma mensagem para os leitores do Scream & Yell?

Gostaríamos que a curiosidade os levasse a querer descobrir a música dos Peixe:Avião, assim como a música portuguesa, cantada em português, no geral. Cada vez mais têm surgido em portugal projectos interessantes e com muito a dizer, por isso, venham visitar o nosso país nem que seja pela sua música!

http://www.myspace.com/peixeaviao

Leia também:
– Especial: Como anda a nova cena de música portuguesa, por Pedro Salgado (aqui)

3 thoughts on “Entrevista: Peixe : Avião

  1. peixe avião é demais assim como toda a cena portuguesa repleta de shows e festivais – a antena 01 radio portuguesa é muito legal ! a revista blitz idem ! recomendo na radio o programa bons rapazes todos dias as 20 hrs alias de seg a quinta ! rui maia tbém é demais – baixista do x wife e dj ! lisboa é a cidade !

    abç

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