Cinema: O Concerto, Radu Mihaileanu

por Juliana Torres

Você entra no cinema, acha o melhor lugar que combine o ângulo certo com uma boa acústica, desliga o celular, se acomoda na poltrona e começa uma viagem mezzo cômica mezzo dramática, narrada em russo, recheada de Tchaikovsky, comunismo e revoluções. É assim que Radu Mihaileanu nos apresenta “Concerto” (“Le Concert”), uma co-parceria entre cinco países (França, Bélgica, Itália, Rússia e Romênia) escrita por Héctor Cabello Reyes e Thierry Degrandi.

O diretor romeno, que também assina o elogiado “O Trem da Vida” (1998), enche o filme com estereótipos sociais (o judeu que só pensa em dinheiro, o cigano que só pensa em bebida e o comunista que só pensa em poder) para nos introduzir ao personagem de Andrey (Alekesey Guskov), principal maestro do Teatro Bolshoi, em Moscou, na antiga União Soviética, cuja carreira foi destruída. Todos os motivos ficam para o final, mas pequenos flashbacks no decorrer da trama – que levam e trazem o espectador – tornam a narrativa mais decifrável.

O filme resgata o orgulho russo pós-revolução. De um país esfacelado pelo governo ditatorial, “Concerto” reitera a importância da música e da arte na reconstrução do Estado. E, nesse aspecto, o destaque fica para Sasha (Dmitri Nazarov), um músico decadente que perdeu toda a família e não vê mais esperança na arte, até ser impelido pela vontade de Andrey, que intercepta um convite endereçado ao atual Bolshoi para tocar no Teatro Châtelet, em Paris.

Convencido de que a orquestra não é mais a mesma sem ele no comando, Andrey decide que essa é sua única chance de retomar a vida. Reúne músicos de todas as espécies, desde pai e filho judeus até ciganos eslavos, e parte para Paris, se passando pela orquestra russa. Tudo que se segue a partir daí te faz lembrar um grande conto de fadas. Uma fábula cercada de sarcasmo e que parece ter a principal função de criar uma nova cultura, híbrida, formada por todas as outras que resolveram se chamar de Europa.

A orquestra montada por Andrey é, basicamente, a sociedade européia excluída que, unida, aventura-se a mostrar à high-society francesa que eles podem peitar o poder – o mesmo poder que uma vez os tirou do palco. A música de Tchaikovsky é presente em grande parte do longa e garante lágrimas nos minutos finais. Não a toa que levou o César do cinema francês nas categorias “Som” e “Trilha Sonora”.

As atuações, sem dúvida, são o carro chefe do filme. Dmitri Nazarov e Alekesey Guskov carregam todo o peso do drama e da comédia e se mostram capazes de levar o espectador ao riso e ao choro. E o fazem. A narrativa, dividida em duas partes, tem uma chave que lhe dá sentido, mas Mélanie Laurent – que interpreta Anne-Marie Jacquet – não convence… de novo. Em “Bastardos Inglórios”, Mélanie pareceu não aguentar a pressão do personagem, e repete em o erro em “O Concerto”. Ela tinha a agulha e a linha para costurar a história, só não percebeu isso, e seguiu com a mesma frieza e inexpressividade que mostrou no longa de Tarantino.

A escorregada de Mélanie não atrapalha o todo de “O Concerto”, uma das melhores coisas  que pode ser vista em circuito comercial neste começo de ano. Ele causa boa impressão desde a primeira cena e você sai do cinema tendo a certeza de que tudo pode acabar bem. É perfeito para aqueles dias em que esperança parece ter pedido um tempo de você.

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Leia também:
– “Bastardos Inglórios”: Tarantino volta ao grupo de elite do cinema, por Marcelo Costa (aqui)

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