Belo Horizonte e a Feira Música Brasil

por Murilo Basso
Fotos: Divulgação

Para conhecer Belo Horizonte vale o roteiro tradicional como um passeio pela Pampulha com uma parada no Mineirão. Ou ainda um final de tarde na Praça do Papa, situada à base da Serra do Curral, com uma das melhores vistas da cidade. Se puder, gaste alguns minutos na Praça da Liberdade e veja um retrato vivo da evolução da capital mineira. Passe também pelos bares da Savassi e reserve um tempo para um bom almoço no “Bolão”: arroz, feijão e ovo às três da tarde. No domingo pela manhã vá à Feira de Artesanato na Avenida Afonso Pena. Mas se você gosta mesmo de música, não deixe em hipótese alguma de passear pela esquina da Rua Divinópolis com a Paraisópolis, em Santa Teresa. E, por alguns momentos, viva um pouco da história.

É nesse cenário que entre os dias 8 e 12 de dezembro aconteceu a terceira edição da Feira Música Brasil, promovida pelo Ministério da Cultura e realizada pela Funarte em parceria com a Rede Música Brasil. A programação, seguindo o padrão dos anos anteriores, é extensa: além das apresentações musicais, a programação da FMB desdobrou-se em Painéis e Debates, Encontros de Negócios, Oficinas de Capacitação e mostra audiovisual.

Aproximadamente 18 mil pessoas acompanharam as apresentações no palco principal, nos galpões da Funarte MG. Para quem possuía folego extra os shows continuavam madrugada adentro, alternando convidados, bandas e DJs em parceria com casas noturnas da cidade como o Nelson Bordello e o Lapa Multshow. Mais de dez horas de música diárias, então vale fazer um roteiro do que você quer ver e prestar atenção para eventuais surpresas. Certamente quando menos se espera boas surpresas acontecem.


Logo na quarta-feira (08/12), batuques e cantigas dão vida a toda diversidade musical do sertão baiano. E estes elementos são muito bem representados pelo Grupo Quixabeira. (foto) Uma ótima maneira para preservar e transmitir as manifestações culturais presentes no cotidiano desses moradores da comunidade de Lagoa da Camisa (BA), capazes de transformar o palco da FMB em uma verdadeira roda de samba.

Em seguida, a sergipana Patrícia Polayne fez um show intimista, quase poético, dando espaço a todas suas referências. Tropicália e música latina servem como guias até chegarmos a ritmos afro-brasileiros. As imagens e sensações provocadas provam que a cantora sabe unir maturidade e qualidade artística. Há ótimos momentos como “Sapato Novo” e interpretações intensas como a de “Lente de Contato”. “Com vocês as canções de amor e desencanto”, disse e sorriu. Contudo, também é nítido que a apresentação acabou funcionando como anticlímax. Afinal, se antes estávamos em meio a um legítimo “festerê” baiano, logo Gilberto Gil subiria ao palco dando uma verdadeira aula de simpatia.

Gil continua o mesmo e fez o que já está acostumado: colocou todos para dançar. “Fé na Festa”, provavelmente uma das grandes músicas do ano, abriu a apresentação em meio a inúmeros sorrisos. Mas logo ao final da segunda canção, “Dança da Moda”, o ex-ministro pediu para que o som fosse corrigido – estava visivelmente abaixo do necessário – e contornou o problema comandando sua festa particular. A sequência “Respeita Januário / Xote das Meninas / Xodó” rendeu um dos bons momentos da noite. Música para dançar, xavecar e sair sorrindo. E o final com “Asa Branca”, “Esperando na Janela” e “Madalena” junta na dose certa entrega no palco e execução primorosa. Quarenta anos de história em 90 minutos. E era só o primeiro dia.


No dia seguinte, uma breve visita ao Palácio das Artes, onde além das mostras audiovisuais aconteciam as apresentações dedicadas à música erudita. No palco o Gimba (Grupo de Intérpretes e Músicos da Bahia), formado pelos professores Lucas Robatto, Pedro Robatto, Alexandre Casado, Suzana Kato e Heinz Karl Schwebel. Na plateia 17 pessoas. Ou melhor, 17 sortudos! O quinteto explorou a diversidade de timbres proporcionada pela combinação dos seus instrumentos – flauta, clarinete, violino, violoncelo e trompete – para dar vida a uma atmosfera tão intensa, por vezes angustiante, tornando difícil o simples ato de respirar. Os melhores momentos são “Gimbado”, com sua estética minimalista, repetindo pequenas ideias na construção da canção e “Só Não Vai”, baseada em “Atrás do Trio Elétrico”.

Mais tarde, na Funarte MG, Andreas Kisser proporcionou aquele que pode ser considerado sério candidato ao troféu de “melhor pior momento” da história da música nacional. Trata-se de uma iniciativa bacana, tem lá seu valor, mas musicalmente não pode e não deve ser levada a sério. Uma reunião de amigos, boas risadas e só. No repertório músicas dos convidados – Flávio Venturini, Lenine, Henrique Portugal (Skank), Jairo Guedes (ex-Sepultura), PJ (Jota Quest), entre outros – e ainda homenagens (?) a John Lennon, Dimebag Darrel e ao Clube da Esquina.

Troféu Abacaxi para a participação de Henrique Papatella, vocalista da banda mineira Scarcéus, em “Não Era Pra Ser” e “Mais Uma Vez”, do Jota Quest. Pasme, Belo Horizonte tem seu Paulo Ricardo. Capaz de causar tanto constrangimento quanto o original em seu “Acoustic Live”. Menção honrosa para os diversos momentos “esqueci a letra” protagonizados por Podé, vocalista do Tianastácia. Claro, Lenine com “Nada Será Como Antes” e a versão para “Come Together”, fechando o show, foram bacanas. “Temos que fazer isso de novo!”, brincou Andreas. Não, por favor, uma vez já é suficiente. Várias risadas e clima de boteco no ar: divertido é pouco para definir essa reunião!


A madrugada começava quando Tulipa Ruiz se apresentou pela primeira vez com sua banda na capital mineira. Tulipa usa e abusa de sua naturalidade, carisma e simpatia para criar uma apresentação animada e marcante. No bate papo do dia seguinte diziam que BNegão & Os Seletores de Frequência deram sequência a noite com um ótimo show ao misturar hip hop, rock e funk. Quem não aguentou o ritmo aparentemente saiu perdendo.

A sexta-feira (10) começou com os pernambucanos do Voyeur. Em “Whoo Hoo” guitarras distorcidas, programações eletrônicas bem executadas e ótima presença de palco confirmaram uma das gratas surpresas do evento. Uma pena ainda não haver público (e os poucos presentes com o clássico ar de desinteresse). Em seguida a pianista carioca Heloisa Fernandes apresentou seu mais recente trabalho, “Candeias”, e enfrentou os mesmos problemas. O fato é que o até então pequeno público não estava ali para ver nenhuma das duas atrações, o que faz pensar até que ponto é válido expor seu trabalho para uma plateia quase nula e / ou totalmente desinteressada? Vale a reflexão.

Na sequência o Witch Hammer (MG) mostrou como fazer heavy metal com peso e velocidade. O público, que já começava a ganhar corpo, respondeu pela primeira vez e no melhor estilo “nos divertimos no palco e foda-se o seu ouvido” os mineiros deram seu recado. Mas estamos em 2010 e tudo que precisaria ser dito sobre o estilo, comportamento, postura e afins já foi dito e vem sendo repetido há cerca de dez anos. Ouve quem quer, aceita quem tem juízo. Ou melhor: discernimento.


Warley Henrique subiu ao palco e mostrou toda sua capacidade com uma apresentação instrumental baseada em seu cavaquinho. Fica visível a referência a grandes nomes da música brasileira como Pixinguinha, Tom Jobim e Cartola. Mais uma agradável surpresa. Só a sequência com “Piano na Mangueira” (Tom Jobim e Chico Buarque) e “Chão de Esmeraldas” (Chico Buarque) já valeria seu ingresso.

O também mineiro Renegado deu continuidade à programação colocando o festival literalmente no bolso. O rapper acerta em cheio ao optar por não reciclar o gênero, buscando uma nova roupagem para suas canções. Não vemos apenas o discurso já batido da crítica social. Claro, ele está presente nas ótimas “Do Oiapoque a Nova York” e “Renegado”, mas temos também um músico ligado ao que acontece a sua volta, incorporando baladas, reggae, soul music, samba e bossa nova ao seu som. É pop sem perder sua essência.

No último show da noite Otto não decepcionou. Com muita energia e participações de Lirinha e Bebel Gilberto, o pernambucano colocou o público para cantar, dançar e sentir todo seu sofrimento em canções como “Dias de Janeiro” e “Janaína”. Aliás, aqui, Otto lutou contra o péssimo som. Era nítida a preocupação do cantor ao apontar para o microfone, sem em nenhum momento parar a apresentação. Soa repetitivo, mas é inadmissível um evento deste porte apresentar este tipo de problema, que se repetiu no primeiro dia com Gilberto Gil e também se fez presente no show de Andreas Kisser – a bateria foi artigo de luxo, praticamente inaudível. Em contrapartida, é preciso ressaltar que não houve atrasos significativos em nenhuma das apresentações durante todo o festival e o restante da estrutura da Funarte MG (um palco, com um telão central e dois laterais, além da estrutura montada para atender ao público) e dos demais espaços envolvidos foram todos dignos de elogios.


Voltando ao show, fica a certeza de que Otto saiu consagrado. Em “Filha”, ao ouvir “Aqui é festa, amor, e há tristeza em minha vida” você sente um pouco pelo que o cantor passou antes de construir seu último trabalho, “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”. A sensação é de que não estamos assistindo apenas a um show, mas também a uma espécie de ritual, onde toda a angústia e sofrimento são exorcizados. Otto encara seu publico e escancara suas fraquezas para só então partir em direção a ele. “Crua”, em dueto com Bebel, provavelmente ganhou sua versão definitiva. Ouvir e ver a execução de “6 minutos” transcende o conceito de música para se tornar experiência de vida. Coisas que só um pé na bunda é capaz de fazer com um ser humano. No final do show, à capela, outra ótima surpresa: Elza Soares sobe ao palco e canta ao lado de Otto e Bebel. Emocionante é pouco.

No sábado (11) nova visita ao Palácio das Artes, dessa vez para acompanhar a mostra cinematográfica com “Tom Zé, Ou Quem Irá Colocar Uma Dinamite Na Cabeça Do Século?” pela tarde e “Os Doces Bárbaros”, logo no inicio da noite. Entre uma sessão e outra a apresentação do Quinteto Brasília. De cara, o flautista Sergio Barrenechea, já deu o tom do que o público iria presenciar: “A música erudita parece alienígena dentro desses eventos, mas é tudo música, não é?”, brincou. Contando ainda com Felix Alonso (clarineta), Stanislav Schulz (trompa), Flávio Lopes (fagote) e José Medeiros (oboé) os músicos conseguiram romper a barreira que separa a música clássica de um público caracteristicamente não elitizado, permitindo questionamentos durante a apresentação e sempre buscando a interação com o público. Em determinado momento, Felix e José, o Bobó, “desmontaram” seus instrumentos para explicar a diferença entre ambos a um dos presentes na plateia. Atitudes dignas de aplausos. Apresentação digna de lágrimas. Vale guardar na memória.

No domingo (12), ainda ocorreriam shows de nomes promissores da cena local, como o Dead Lovers Twisted Heart, além da quinta edição do “Show dos Direitos Humanos: Iguais na Diferença”, na Praça da Estação. Mas o recado já estava dado: bons shows, boa estrutura, produção cuidadosa e um ótimo público provam que a FMB está no caminho certo.

O Scream & Yell viajou a Belo Horizonte a convite da produção do evento

8 thoughts on “Belo Horizonte e a Feira Música Brasil

  1. Cara, saiu hoje no Jornal do Comercio daqui de Recife uma matéria acabando com o festival.
    Falava dá péssima organização, do som fajuto e que todos os artistas sairam reclamando.
    Não sei se o cara quis diminuir a Feira de BH pelo fato da de 2009 ter sido aqui em Recife.
    Enfim, o cara detonou. Colocou até o organizador do festival reclamando da prefeitura e do governo que não apoiaram e que segundo ele teria feito a grade ser escalada há uma semana do evento.
    Enfim, o de sempre, versões. E a verdade que se foda, até porque ela não existe. rsrs

  2. Mano, é simples: o que pegou mesmo foi o som. Foi horrível, inaceitável! Tanto na Funarte MG quantos nos demais lugares, excetuando o Palácio das Artes. E olha que o do Lapa eu não achei tão ruim assim, só um pouco abafado. Mas o relato de quase todos os amigos / colegas que estavam comigo dizem o contrário. Vai ver eram meus ouvidos já destruídos.

    Mas acredito eu que música era o ponto principal da FMB – painéis, debates e discursos ideológicos a parte. Então é simplesmente absurdo que um evento com esse mote e desse porte descuide disso. Eu diria inaceitável. O ex-ministro da cultura parar um show para pedir que o retorno melhore? Sério, não dá. O Otto desesperado, gritando e o som não saindo? Não tem desculpa mesmo.

    Eu já não estava lá no domingo, mas se rolou mesmo o que falaram sobre o “cercamento” da praça no “Show dos Direitos Humanos”, foi de longe outra grande palhaçada. Ou a maior de todas. Mas como não vi, não posso emitir opinião.

    Mas olha, estamos falando de música, certo? E música sempre vai nos surpreender. Mesmo com um som beirando a mediocridade, o Gil fez um show do caralho, o Otto fez escorrerem lágrimas dos olhos muita gente, o Andreas me fez chorar de tanto rir da cara dele e por aí vaí. É por isso que música é algo tão foda e é isso que deveria interessar acima de tudo.

    Outro ponto: a rodada de negócios, painéis e afins, serve para nego que se interessa. Ele vai e aproveita como quer, da melhor maneira que julgar (thanks, Letz). Tudo bem, eu não tenho a mínima paciência para isso e para todo o processo que envolve a tal “otimização da cadeia produtiva da música”. Tô mais preocupado com o produto final, se o som da tua banda é bom ou ruim, tudo da forma mais simples. Mas o que tinha de gente se movimentando para tentar achar alguma alternativa para seu trabalho foi bacana pacas. Quem quis aproveitar, aproveitou. Simples não?

    Agora, o resto da estrutura (banheiros, alimentação, informação) funcionou direitinho – o que é normalmente o oposto nesse nosso “Brasiu”. E isso precisa ser elogiado. Só que tem neguinho que restringe o evento a um só lugar: o palco principal. Que na FMB 2010 foi onde ocorreram os maiores problemas. Mas esquece que o evento ocorreu na cidade inteira, em mais sete ou oito espaços, inclusive durante o dia. Aí fica fácil cair de pau em tudo né?

    Só acho que nada é 100% descartável ou horrível. Nada mesmo. Sempre há alguma coisa que se salva. E acaba nos salvando 🙂

  3. Estava bacana, dava para se passar o dia inteiro no lugar fazendo amigos e revendo outros, com tudo rolando quase perfeito. A seleção musical foi ampla, abrangente, disposta a correr riscos sem perder a qualidade. O público, e isto sim é um problema, com pouca gente disposta a descobrir coisas outras. Falta de habito. As feiras de música são novidades que podem ser tão divertidas quanto os festivais, com a vantagem de serem produtivas. O que teve de debates, eram aulas com profissionais de classe mundial.
    Vamos para a próxima, bola para a frente.

  4. ouvi de bastante gente e tb li em alguns lugares sobre desorganização na edição deste ano da feira. é importante não apenas jogar confete, certo? a música independente deve se deter menos em picuinhas internas, se articular melhor e progredir sempre.

  5. Muito boa sua cobertura do evento, Murilo. Eu moro aqui em BH e também participei e cobri todos os dias de feira. Concordo com muita coisa do que você disse. O som realmente estava ruim no palco principal e foi uma baita deselegância (para não falar outra coisa) cortarem o áudio do microfone do Otto no final do bis surpresa, sem contar as inúmeras reclamações que você já citou. O mesmo problema de som aconteceu no sábado, no show da Ná Ozzetti (que deveria ter sido escalada para tocar no Palácio), não sei se você pôde conferir.

    Quanto aos outros shows nas casas de BH, é triste, mas é aquilo ali mesmo. O som é ruim pra cacete, tanto no Lapa, quanto no Music Hall e no Chevrolet Hall. A Obra e Bordello até passam porque são inferninhos, o clima é outro, mas no resto é aquilo ali que você ouviu mesmo.

    Também gostei bastante dos shows do Otto e do BNegão. Lucas Santtana, Cabruêra e 3namassa também fizeram ótimas apresentações no Lapa. E o show do Andreas, bom, foi decepcionante para quem esperava alguma coisa. Sério, pela “diversidade” dos convidados já dava para sacar que ia dar merda. Apesar disso, o show teve seus momentos. “Walk” do Pantera ficou bem legal, por exemplo.

    Enfim, eu gostei do evento. Não achei a organização ruim, como o pessoal está comentando aí. Claro, há vários pontos a serem discutidos e melhorados para uma próxima edição, mas acredito que o saldo final da FMB 2010 foi positivo.

    Ah, e sim: a Prefeitura cercou a Praça da Estação. Bando de babacas!

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