Entrevista: Arnaldo Antunes

por Marcos Paulino

Imagine que você vai fazer aniversário e resolva convidar alguns amigos para uma festa em sua casa. Agora, sonhe que, como comemoração, vai ter um show e que dele participarão artistas como Erasmo Carlos e Jorge Benjor. E que, no jardim, onde a plateia se acomodou para ver você e seus convidados cantando no terraço, haverá uma penca de gente famosa, ali só para prestigiá-lo. Pois foi esse sonho que Arnaldo Antunes realizou para festejar seus 50 anos.

A festa/show resultou na gravação de um projeto, chamado “Ao Vivo Lá Em Casa”, que gerou um CD e um DVD, recém-lançados. O repertório foi baseado no último disco solo de Arnaldo, “Iê iê iê”, que presta uma homenagem aos primórdios do rock brasileiro, mas reúne compositores como Luiz Melodia e Jorge Aragão, além dos próprios Benjor e Erasmo. Além do show, o DVD traz também os dias que antecederam a gravação, quando a casa do aniversariante foi invadida por dezenas de técnicos que trabalharam para que o desejo se tornasse realidade.

Sobre esse projeto, Arnaldo conversou com o PLUG, parceiro do Scream & Yell:

Como surgiu a ideia inusitada de gravar este novo trabalho no quintal da sua casa?
Desde que mudei para essa casa, há uns oito anos, que eu via o terraço onde a gente fez o show como um palco perfeito. E pensava que um dia iria fazer um show lá, pras pessoas assistirem do jardim. Era uma ideia vaga, mas um desejo. Quando surgiu a oportunidade de fazer o registro do show do “Iê iê iê”, apresentei essa ideia pro Andrucha (Waddington), que dirigiu o DVD. Ele se entusiasmou e levamos adiante o projeto.

E como funcionou a logística para colocar toda a parafernália necessária na casa?
Desde que começamos a pensar na ideia, já fui dando um trato na minha casa, como se fosse pra receber uma festa. Pintei a porta, consertei algumas coisas, podei a pitangueira que cobria uma parte do terraço pra poder ter uma visibilidade melhor, enfim, teve uma certa preparação da casa. Na semana que antecedeu a gravação, teve o trabalho mais pesado de montagem da estrutura de filmagem, gruas, técnica de som, cabeação, caminhão com o gerador. Foi preciso uma mudança na estrutura da casa. Os quartos dos meus filhos foram adaptados, um virou técnica de som, outro, de vídeo, outro, camarim. Precisamos dormir fora de casa porque era uma movimentação de muitas pessoas. Teve que tirar umas telhas pra colocar uma estrutura por onde as câmeras andassem. Foi uma certa bagunça, que deu trabalho, mas foi muito entusiasmante.

E sua família levou tudo isso numa boa?
Super. As crianças acompanhavam a montagem, foi uma curtição pra todo mundo.

Você teve que escolher convidados pra cantar e aqueles que iriam pra plateia também. Como foi esse processo?
A plateia era composta só de amigos e familiares, de pessoas queridas, como se fosse uma grande festa. Dos convidados para participar do show, cada um foi escolhido por um motivo. O Fernando Catatau (Cidadão Instigado) produziu o “Iê iê iê” e foi natural chamá-lo pra tocar. O Erasmo foi por conta da associação com o universo iê-iê-iê, ele que é um dos pais dessa história. Ele foi muito gentil, muito afetuoso, foi muito bacana a participação dele. O Jorge Benjor é um ídolo de muitos anos, assim como o Erasmo. Somos parceiros em algumas composições, e claro que pensei na coisa de juntar Benjor e Erasmo, que daria uma liga bacana, pelas afinidades musicais e de vida. Quanto aos Demônios da Garoa, a gente já vinha utilizando uma gravação da música “Já Fui Uma Brasa”, do Adoniran Barbosa, co-mo uma introdução do nosso show. Resolvemos fazer isso ao vivo e nada melhor que os Demônios pra tocar uma música do Adoniran.

Essa gravação teve um clima de “Festa de Arromba”, sucesso na época do iê-iê-iê. Como você conseguiu um espaço na agenda dessa gente toda?
Não sei, quem pôde vir, veio. Claro que muitos outros convidados não puderam vir. Mas teve essa coisa de reunião dos artistas, com uma inspiração na “Festa de Arromba”. É bacana essa associação. A presença da Wanderléia foi muito simbólica, mesmo não cantando, mas estando entre os convidados. Teve também a Marina Lima, o Paulinho Boca, o BNegão, vários convidados inclusive de gerações diferentes, que deram esse clima de confraternização da música popular brasileira.

Você tem várias facetas, a de ex-Titã, de compositor de músicas para crianças, de poeta, de artista solo. Você gosta de variar, de tempos em tempos, seu campo de atuação?
A prioridade é o trabalho solo, que agora registramos em DVD e com o qual pretendemos seguir em excursão até o final do ano que vem. O resto são projetos paralelos. Tem o Pequeno Cidadão, um disco coletivo que, quando a agenda permite, apresentamos em show. Tenho participações em trabalhos de outros compositores, tenho também uma carreira como poeta, como artista visual. Mas o eixo é a carreira solo, que agora está sendo levada pelo “Iê iê iê”. De certa forma, tenho que com-patibilizar essas atividades todas. Mas quando estou lançando alguma coisa nova, fico com o olhar muito focado naquilo.

O Brasil está num momento legal pra consumir essa produção cultural tão variada?
Difícil responder, é uma pergunta muito abrangente. Acho que o Brasil tem uma produção cultural muito relevante. Nossa música é reconhecida em todo o mundo. Isso pode se estender às artes plásticas, à literatura. Tem criadores e espaço para que mostrem cada vez mais seu trabalho, principalmente com a internet, um veículo de divulgação de todas as áreas de criação muito democrático.

Tem sido comum bandas grandes, principalmente no exterior, reunirem-se após vários anos de sua separação para shows ou mesmo a gravação de disco. Há algum projeto dos Titãs nesse sentido?
Não, não há esse projeto. Ninguém falou sobre isso. Já participei de shows e de DVDs dos Titãs depois da minha saída. Na turnê que eles fizeram com os Parala-mas, participei cantando duas ou três músicas. Eventualmente, a gente pode se encontrar nos palcos, fazer coisas juntos, compor juntos. No “Iê iê iê”, tem três parcerias com os Titãs. No meu DVD anterior, tem a participação do Branco Mello e do Nando Reis. Enfim, somos amigos, fazemos coisas juntos, mas não tem um projeto com o saudosismo de reunir os Titãs.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

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Leia também:
– Arnaldo Antunes ao vivo no Sesc Pompéia, por Marcelo Costa (aqui)

5 thoughts on “Entrevista: Arnaldo Antunes

  1. Comprei essa semana esse DVD e achei sensacional!
    A idéia, o clima, as imagens e, claro, as músicas.
    As belezuras pop do cd Iê Iê Iê mais versões de músicas de Luiz Melodia, Jorge Aragão, Odair José sempre no ritimo citado acima.
    Tem até uma música que lembrava da minha adolescência: “Ela é americana da ámerica do sul, tô gamado nela, vou me casar com ela” Demais!
    Muito bom ver, e ouvir, o Arnaldo nessa boa fase. Ele merece, é o melhor de sua geração.
    Revival com os Titãs? Vá de retro Satanás! Esses caras estão mortos há uns 15 anos.
    O Arnaldo me causa orgulho alheio e os Titãs(sou grande fã da fase áurea) vergonha do mesmo tipo.

  2. Sou fã! Minha escola está homenageando-o em um Festival de poemas! Gostaria de receber um vídeo dele produzido especialmente para nossos estudantes! Será que alguém poderia me ajudar?

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