Retratos de Elliott Smith

“An Introduction to… Elliott Smith”
por Bruno Faleiro

De tempos em tempos, gravadoras preparam coletâneas sobre ícones de gerações anteriores, como forma de apresentá-los aos novos ouvintes de música. Com esse pressuposto, a Kill Rock Stars, dos Estados Unidos, ao lado da Domino, do Reino Unido, lançou em novembro “An Introduction to… Elliott Smith” (2010), que varre a conturbada e magistral carreira do músico.

Mesmo que a prática seja questionável, uma vez que, o verdadeiro interessado por música pode ser introduzido à obra de Smith através dos clássicos “Either/Or” (1997) e “XO” (1998), e as maiores beneficiárias no lançamento são as gravadoras, não se pode desprezar uma seleção de músicas compostas por um artista que divide postos com Nick Drake, Kurt Cobain e Jeff Buckley, não só na genialidade, mas também na forma como chegaram ao fim da vida de maneira precoce.

Entre as canções selecionadas há destaque para as faixas do disco “Elliott Smith” (1995), e, principalmente, “Either/Or”. Em que pese o fato deste ser o álbum mais relevante do cantor, estes também são os CDs lançados através da Kill Rock Stars e sua parceira britânica. Esta é uma das principais falhas da coletânea, pois a também grandiosa obra “XO” aparece somente com a valsinha “Waltz #2”, e “Figure 8”, de 2000, só é representada por “Hapiness”.

Difícil acreditar que a seleção foi somente artística e não houve o intuito de valorizar os discos presentes no catálogo da gravadora. Ou que a Kill Rock Stars foi privada de mais músicas dos discos precedentes por empecilhos financeiros e/ou jurídicos junto à major Dreamworks.

As feridas abertas na biografia de Elliott são expostas novamente no atual lançamento. A dramaticidade está presente em “Last Call”, gravação lo-fi, de seu primeiro disco. A ironia explicita sua relação com Los Angeles, em “Angeles”. Outros temas conturbados também vêm à tona novamente, como sua relação com as drogas, mais especificamente a heroína, em “Needle in the Hey”, e o álcool, em “Between the Bars”, música do álbum de 1997 – ano em que o músico teve sua primeira tentativa de suicido, ao saltar de um penhasco e ficar preso entre árvores. Posteriormente, ele definiu a situação como ‘patética’.

A faixa “Miss Misery” é um capitulo a parte, não só nesta coletânea, mas também na vida do músico norte-americano. Em 1996, Smith cedeu cinco músicas para o filme “Gênio Indomável”, de Gus Van Sant. Destas, quatro estavam presentes em discos do cantor. A exceção foi a inédita “Miss Misery”. A canção que encerrava o filme protagonizado por Matt Damon foi indicada ao Oscar do ano seguinte, o que gerou a maior exposição que o até então músico do underground já teve.

Na cerimônia, um atrapalhado Elliott Smith apresentou uma nervosa versão de seu maior hit. De terno branco e cabelo bagunçado, o artista errou alguns versos e viu sua música ser derrotada pela enfadonha “My Heart Will Go On”, de Celine Dion, trilha de Titanic.

Após o episódio, ele fez questão que a música não entrasse em seu álbum seguinte e em nenhum outro registro. No entanto, em “An Introducion to…” a vontade do artista é desrespeitada e seu maior sucesso aparece em uma versão anterior à utilizada na obra de Gus Van Sant.

Elliott Smith deixou a vida em 21 de outubro de 2003, ao perfurar duplamente seu peito com uma faca, após mais uma briga com a namorada Jennifer Chiba. À época, foi constatado que Elliott cometeu suicido, no entanto, a necropsia do corpo também indicou a possibilidade de homicídio (uma das principais alegações é que não é possível suportar uma perfuração no peito, retirar a faca e ferir-se novamente).

Se a causa da morte de Elliott ainda gera muitas dúvidas e contradições, seu legado é inquestionável e não há necessidade de coletâneas, que se confundem entre homenagem e oportunismo, para provar a profundidade de sua arte. De qualquer forma, “An Introducion to…” é uma janela que se abre para que um novo público descubra de Elliott Smith. Pode começar por esta, mas não deixe de abrir as demais janelas.

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Bruno Faleiro (@faleirofaleiro) é jornalista, edita a Revista do Cruzeiro e assina o Faleirolandia.

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“From A Basement On The Hill”, Ellioth Smith
por Jonas Lopes
Texto publicado originalmente na versão 1.0 do Scream & Yell em 17/02/2005

A indústria pop nos proporciona algumas situações bem curiosas. O caso de “From A Basement On The Hill” é emblemático. Elliott Smith passou pelo menos dois anos brigando com a gravadora Dreamworks para conseguir lançar o disco, cuja primeira versão ficou pronta em 2001. A major se recusou a colocar o álbum no mercado, afirmando que era depressivo demais (o que eles esperavam, tendo em vista os trabalhos anteriores de Elliott? Ska?). Expugnado, Elliott teve que recomeçar o trabalho e regravar o disco, o que vinha fazendo até sua morte, em outubro passado. E agora, quase um ano depois, o disco é lançado pelo selo Anti, o mesmo de Tom Waits, Nick Cave e Neko Case (ou seja, já pode ser considerada a gravadora mais melancólica do planeta). O produtor Rob Schnapf (que mixou “Either/Or”) e a baixista dos Jicks (banda de apoio de Stephen Malkmus) Joanna Bolme finalizaram a mixagem do álbum.

A primeira coisa a se dizer sobre “From A Basement On The Hill” (o nome vem de um verso de “Memory Lane”) é que não é, como vinha sendo divulgado, um retorno à estética lo-fi e simplista de “Either/Or” (1997) e “Elliott Smith” (1995). A não ser que Elliott houvesse desejado assim e a pós-produção tenha limado esta pretensão. O disco começa onde “Figure 8” (2000) parou: produção expansiva e exemplar (exagerada, para os puristas), algumas guitarras pesadas, experimentações com canais e instrumentações, harmonias vocais cada vez mais complexas e arranjos de cordas.

“Coast To Coast”, que abre “From A Basement On The Hill”, lembra “Son of Sam”, primeira faixa de “Figure 8”; as guitarras com distorção, que chamavam a atenção em “LA”, aparecem na arrastada “King’s Crossing”; “Last Hour” é prima distante de “I Better Be Quiet”. Porém, “From A Basement On The Hill” é mais coeso que o anterior, e não deixa aquela impressão de que duas ou três músicas poderiam ter ficado de fora.

Uma velha influência de Elliott bate ponto no disco novo: os Beatles. Foi o quarteto de Liverpool que chamou a atenção de Elliott para a música, depois que o americano, então com cinco anos, ouviu o “White Album” – “como não virar baixista depois de ouvir Helter Skelter?”, dizia. A paixão sempre esteve explícita em seus discos (“Baby Britain”, de “XO”, é a cara de “Getting Better”) e, por mais que Lennon fosse seu beatle favorito, era com George Harrison que ele mais se assemelhava musicalmente (em outra faixa de “XO”, O”h Well, Okay”, dá pra notar bem a semelhança entre as vozes). A muralha de guitarras de “Don’t Go Down” parece algo arranjado por Phil Spector para “All Things Must Pass”. “Strung Out Again” e “Shooting Star” lembram um pouco as contribuições de Harrison para “Abbey Road” e “White Álbum”. As faixas acústicas, “Let’s Get Lost” e “Last Hour” (com solo lindo de violão) em especial, estão imbuídas de momentos tocantes.

Lendo e ouvindo as letras das canções dá para, não concordar, mas entender os motivos de temor da Dreamworks. “From A Basement On The Hill” é sim um disco muito deprimido. Provavelmente o mais triste que Elliott gravou. E é uma melancolia desolada, desesperada, de versos de quem estava desistindo de viver, como “anything that I could be/would never be good enough for you/if you can’t help it, just leave me alone (…) it sounds like being here just wasn’t that much fun” (“Coast To Coast”). “Little One” é quase um testamento, um adeus: “and I won’t know the fact that I’m dying/if I seem to be reckless with myself”. Em King’s Crossing Elliott ainda tenta buscar razões ao cantar “give me just one good reason not to do it”. Os produtores tiveram a sacada de incluir um sampler depois deste verso, retirado de um show, da namorada de Elliott, Jennifer Chiba, respondendo bem baixinho na mixagem: “because we love you”. Comovente.

A canção mais deprimida do álbum, no entanto, é “Twilight”: “you don’t deserve to be lonely/but those drugs you got won’t make you feel better”. Seu arranjo, infelizmente, ficou um pouco abaixo do esperado. Era melhor ao vivo, com piano. E aqui fica claro que a voz de Smith já não era mais a mesma. Outra música cujo arranjo decepcionou é “A Distorted Reality Is Now A Necessity To Be Free”. A versão lançada ano passado, como b-side de “Pretty (Ugly Before)”, era superior (a letra também é diferente). Se Elliott tivesse terminado o disco, poderia ser o melhor álbum do ano, ou até o melhor de sua carreira. De qualquer forma, “From A Basement On The Hill” é uma obra sublime, uma despedida digna de seu talento, e pelo menos foi lançado. Isto é que importa. Pena que Elliott teve que nos deixar pra isso acontecer.

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Jonas Lopes é jornalista e assina o blog Gymnopedies

9 thoughts on “Retratos de Elliott Smith

  1. Entre as canções sobre drogas, The White Lady Loves You More é também notável. Elliott tem poucos discos e uma coletânea se faz desnecessária. Mas, com os anos, vai acontecer o mesmo que acontece com o citado Nick Drake e tantos mais: mil coletâneas, relancamentos com bônus tracks e blah blah blah.

  2. não me recordo dele ter errado versos na apresentação do oscar… mas ele, sim, cantou uma versão “resumida” da música, a pedido dos organizadores do evento, acho.

  3. Nick Drake vivia atormentado por não ter conseguido uma maior repercussão nos seus dois discos lançados, alem do fracasso de vendas, o Elliot Smith bem que poderia ter capitalizado em cima dessa musica ” miss misery”, ao invés de sabotar o próprio trabalho, vai entender esse pessoal

  4. A primeira vez que tive conhecimento dele foi nessa apresentação do Oscar, ainda adolescente. Percebi aquele “elemento estranho”, totalmente destoante e me apaixonei.

    Junto com J.Buckley, o melhor que foi cedo…

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