Cinema: Scott Pilgrim Contra o Mundo

Texto por Bruno Capelas

Os primeiros segundos de “Scott Pilgrim Contra o Mundo”, com o símbolo da Universal sendo exibido em 8-bits, não deixam mentir: estamos diante de um filme basicamente nerd. As espertas referências sobre a cultura pop, o nível de comédia baseado um bocado no nonsense e no humor herdado de histórias em quadrinhos – a película é baseada numa HQ de Brian Lee O’Malley – e o visual de videogame das cenas de ação só reforçam a idéia. Mas não estamos falando aqui de um filme de nicho. Quem não passou a adolescência inteira trancado em um quarto com revistinhas e cartões de RPG também será capaz de sair da sala de cinema gostando do longa-metragem.

Scott Pilgrim (Michael Cera) é um “adolescente atrasado” de Toronto que toca numa banda de garagem, a Sex Bob-omb, e deseja o sucesso. Ele “namora” Knives Chau, uma colegial cinco anos mais nova que ele. Namorar é força de expressão: eles jogam Dance Dance Revolution toda tarde, mas nada de beijos ou amassos. Ao mesmo tempo, o herói ainda não se recuperou do pé-na-bunda que levou de sua última namorada, agora uma estrela do rock. É nessa hora que ele se apaixona por Ramona Flowers, (Mary Elizabeth Winstead, a loirinha de “À Prova de Morte”, de Tarantino) uma americana cool cujos cabelos mudam de cor semanalmente. Se isso tudo ainda não fosse um problema, pra ficar com ela, Pilgrim terá que lutar contra a “Liga dos Sete Ex-Namorados de Ramona Flowers”.

Tirando os nomes nerds, a trama é recheada de coisas pelas quais a maioria dos adolescentes já passou é totalmente verossímil. Vejamos: um garoto tem uma banda de rock (quase todo mundo já teve ou quis ter uma), deseja o sucesso (todo adolescente sonha), vive um romance platônico (tsc tsc tsc) enquanto se recupera do trauma de um pé na bunda (história da vida de muita gente) de uma garota que, agora, recebe todos os holofotes da turma (quem manda querer a mais bela da classe). Então se apaixona novamente (é mais fácil começar uma nova história de amor do que resolver a platônica, você sabe, afinal, já passou por isso) por uma garota linda que tem uns ex-namorados malas (acontece… muito). Ou seja, roteiro de vida adolescente colorido com verniz (nerd) intelectual. Funciona.

Esses conflitos servem como pretexto para que sejam criadas algumas das mais divertidas cenas de batalha do cinema recente. Estamos falando de coisas no nível de uma disputa de baixo elétrico (porque guitar heroe já não tem mais charme) ou de uma luta com espadas que é impactada pelo universo gamer: não é qualquer filme que tem um protagonista que recebe uma arma com o singelo nome de “Espada do Amor Próprio”, com direito a um “bônus” de pontuação em sua confiança e personalidade. Além disso, os sete mal-encarados ex-namorados da moça também servem como símbolo para mostrar que os nerds também amam – e, justamente por isso, o filme pode ser apreciado pelo público comum.

Scott Pilgrim, antes de ser um nerd, é um desajustado (no sentido de não encontrar seu lugar na sociedade) – especialmente no que diz respeito a garotas. Ele mora com um amigo gay, Wallace Wells (Kieran Culkin), cuja vida sexual é muito mais bem sucedida. Sua irmã mais nova (Anna Kendrick, de “Amor Sem Escalas”) liga pra ele a todo o momento para debochar ou reclamar das besteiras que Scott faz. Ele é tímido, não consegue superar relacionamentos passados, usa xavecos ruins e tem a capacidade de falar as coisas erradas nas horas erradas. Por outro lado, ele tem um ótimo coração, e é capaz de amar e lutar por seu amor. Isso soa um gigantesco clichê, mas é essa história de amor – e algumas piadas um pouco mais acessíveis, como a cena do roubo do namorado da irmã de Scott pelo amigo gay – que tornam o filme uma boa diversão mesmo pra quem não vive sua vida como uma canção dos primeiros discos do Weezer.

Assim como nos filmes de Tarantino, uma das boas diversões de “Scott Pilgrim Contra o Mundo” para os “iniciados” no mundo da cultura pop é ficar caçando as referências que utiliza. Isso acontece tanto no universo dos games (o nome da banda de Scott, Sex Bob-omb, é inspirado nas bombinhas dos jogos do encanador Mario) quanto no da música (dois coadjuvantes do filme chamam-se Stephen Stills e Young Neil, e o filme se passa no Canadá). Os bons diálogos também colaboram: é difícil não rir da fina ironia das falas de Wallace debochando de Scott – preste atenção na cena que emula o clima de “Seinfield” – ou do charme bobão que o protagonista exibe em certos momentos.

Duas coisas ainda são dignas de nota: Michael Cera vem, filme a filme (“Juno”, “Superbad”, “Uma Noite de Amor e Música”), se consagrando como o grande ator desse tipo de personagem. O que pode ser tanto benéfico (por consagrá-lo e criar identificação fácil com o público) quanto problemático (quantos atores não ficaram estigmatizados por interpretarem apenas um tipo de personagem?). Como cereja do bolo do filme, a trilha sonora é caprichada, seja nas canções originais do loser Beck e do Broken Social Scene, seja na recuperação de clássicos do rock como “Teenage Dream”, do T-Rex, “To Ramona”, de Bob Dylan, e “Under My Thumb”, dos Rolling Stones.

Há um momento, indeterminado, nos últimos dez anos, que virou moda ser nerd – ou pelo menos se parecer com um. Isso é resultado de uma confluência de fatores e interesses. Nos últimos dez anos, viver à frente de um computador – e saber entendê-lo – deixou de ser uma atividade reclusa e passou a ser necessidade básica. Percebeu-se também que é possível ganhar dinheiro e status com essa idéia: Steve Jobs, Bill Gates, Mark Zuckerberg e Larry Page, para ficar apenas em quatro nomes, hoje habitam os primeiros degraus da lista da Forbes de homens mais ricos do planeta, e são admirados nos quatro cantos do globo. A indústria de videogames já alcançou – e em alguns anos, superou – o faturamento de Hollywood. O estilo de vida nerd também começou a ser propagado no horário nobre americano: além da sitcom “The Big Bang Theory”, séries como “CSI”, “Heroes” e “Lost” , na sua especificidade de conhecimentos técnicos e na regurgitação de símbolos a cada segundo, tem tudo a ver com os garotos dos óculos fundo-de-garrafa.

Entretanto, não dá pra dizer se essa é uma tendência que vem pra ficar ou se simplesmente é outra febre passageira. Nem cabe aqui discutir essa questão com tanto afinco. O que interessa, no final das contas, é que “Scott Pilgrim Contra o Mundo” usa com destreza as ferramentas do cinema e da cultura pop para apresentar um novo estilo de vida ao grande público e pode amealhar – se é que a HQ já não fez isso – uma série de seguidores fanáticos, assim como “Star Wars” ou “Senhor dos Anéis” – por que não? Com muito humor, bons diálogos e um ritmo ágil, “Scott Pilgrim Contra o Mundo” fascina ao mostrar que mesmo no peito de um nerd viciado em games e de uma garota de cabelo rosa bate um coração. Tem muita gente que esquece.

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Bruno Capelas é estudante de jornalismo e escreve para o blog coletivo Pop To The People e para o Cinéfilos. E apesar de ter escrito esse texto, também não entendeu uma série de piadas internas do filme.

13 thoughts on “Cinema: Scott Pilgrim Contra o Mundo

  1. Quando Bill Gates disse a profética frase ” tratem bem os nerds pois eles serão seus chefes no futuro “, ele talvez tenha criado um sub-gênero no cinema: o desses chefes. Numa sequência similar a de Smalville, mostrando o antes do chefe ou do super-herói, os tortuosos caminhos que seu estilo lhe impôs e a vida lhe impõe. Os filmes, infelizmente, ficam pouco a pouco ficando com enredos batidos, mas as referências pop infinitas fazem dos longas sempre boas opções.

  2. Que filme genial! Entre os melhores do ano com certeza… divertido, original, visualmente deslumbrante, roteiro esperto…
    Eu trabalho em videolocadora, é triste pensar que vai ter gente não entendendo grande parte do filme, tipo aconteceu com “(500) Dias com Ela”.
    É prum público mais específico, pra quem gosta de cinema mesmo, ou no mínimo, de videogame e HQ (que tenha um por cento de “nerd” no sangue uhahua)

    Gosto é gosto né, mas dizer que parou de ver (500) Dias com Ela na metade é foda….

  3. O filme indie do ano. O ideal é que seja visto no cinema, com tela grande e tal, mas a distribuidora brasileira pisou feio na bola. Tente mesmo assim ver (em São Paulo só está em três salas). Vale muuuuito a pena.

  4. Gostei da maneira como escreveu sobre o filme, despertando realmente o interesse para quem se aventurar em assistir. Recomendações: é preciso estar completamente envolvido com a trama, já que os personagens são todos muito exagerados , seus gestos grandes demais e com a intenção de preencher a tela toda…Mas vale a tarde, com pipoca e com o volume no último, afinal ninguém quer perder o que ele tem de melhor..Que é a trilha…

  5. cara, achei o texto meio sem fins.Começa fazendo referencia a algumas boas situações sobre o filme, e conclui falando de tendencia nerd.não sou professor de redação, mas acho que poderia terminar com alguma ratificaçao sobre o filme.Já assisti, achei bem legal, mas achei o texto grande demais pra uma resenha de filme, cansativo demais.Ficou dando voltas rasteiras em torno de um tema.Na boa, acho que poderia ser muito mais conciso nas ideias.Não gostei.

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