Entrevista: Os Pontos Negros

por Pedro Salgado

O nome Os Pontos Negros foi adotado para fazer contraponto ao White Stripes, porém o som que o grupo português pratica o aproxima muito mais dos Strokes do que da dupla de Detroit. O trabalho desenvolvido ao longo de dois anos viria a revelar uma banda não só atenta às novidades, mas também capaz de praticar um rock n’ roll sem ornamentos. Formada em Queluz (arredores de Lisboa), Os Pontos Negros conquistaram o público português e mostram que tem asas para voar mais alto.

Filhos de ex-missionários de Moçambique que foram para Portugal assumir o pastorado da Igreja Baptista de Queluz, Jónatas (vocalista) e David Pires (baterista), cedo começaram a ensaiar os seus primeiros passos na cave da igreja. A eles se juntou Silas (tecladista), também filho de pastor, este da Igreja Baptista do Cacém. Com a inclusão do guitarrista Filipe Sousa ficou completo o elenco de um conjunto com bases cristãs, mas com orientações musicais mais pesadas e boa instrumentação.

Em julho de 2007, o grupo gravou um EP com cinco canções logo disponibilizadas no Myspace (http://www.myspace.com/ospontosnegros). Poucos meses depois seriam contatados pela gravadora Universal portuguesa e nascia o disco “Magnífico Material Inútil”. A oferta musical revelava um rock certeiro que colava no ouvido. O grande hit foi “Conto de Fadas de Sintra A Lisboa”, que celebrava o relacionamento entre um homem e uma mulher de classes sociais distintas, mas ainda havia espaço para a romântica “Querida”, uma ode lusitana roqueira ao matrimónio.

Com contrato em mãos, Os Pontos Negros começavam a lotar salas por todo o país surgindo com destaque na segunda rompante do rock português (o primeiro boom do rock português aconteceu na década de 80 – como no Brasil). Já em 2010 colocam nas lojas “Pequeno Almoço Continental”. De acordo com a banda, “o título do álbum tem tudo a ver com a boa disposição de começar bem o dia olhando com otimismo para o que há para fazer”.

A ideia de “trazer o Verão para o Inverno” está bem retratada no quase pop primeiro single, “Rei Bã” (assista ao clipe aqui). Há mais motivos de interesse no segundo trabalho como a excelente “Duro de Ouvido”, um rock clássico com refrão memorável (“Mas tenho alegria dentro do meu coração”) ou a deliciosa “Amor, é Só Febre” (é ouvir e viciar). O segredo da música do quarteto reside na preocupação de articular uma certa fórmula indie com inflexões dançantes, espirituosas e com sátira social. “Tudo o que escrevemos tem a ver com o que fazemos, não só em relação à música mas à nossa vida”, diz David Pires.

De Queluz para o Brasil, Os Pontos Negros conversaram com o Scream & Yell. Confira:

Como vocês definiriam o seu som?
Somos uma banda de rock. Apesar de termos sempre presente uma veia pop nas canções que fazemos, a interpretação que lhes damos é sempre direcionada para a influência rock que temos desde os primeiros dias da banda.

Quais são as maiores diferenças entre “Magnífico Material Inútil” e “Pequeno-Almoço Continental” ?
Creio que as diferenças mais significativas entre esses dois discos estão na interpretação das canções e no conjunto que elas formam enquanto álbum. No primeiro existe claramente uma maior homogeneidade entre todas as faixas, quer no tipo de som, quer na forma como as tocamos. No segundo quisemos explorar outros tipos de sonoridades das guitarras e sobretudo nos órgãos, dando a cada canção uma identidade própria e distinta de todas as outras. É um disco onde o objetivo foi retirar os pontos fortes de cada música, o que torna o “Pequeno-Almoço Continental” mais heterogéneo que o “Magnífico Material Inútil”.

A imagem de vocês é muitas vezes comparada à dos Strokes. O que pensam disto?
Não sei. Acho que às vezes as pessoas sentem uma necessidade de ter algum padrão de referência quando começam a ouvir alguma coisa nova. No nosso caso, a referência inicial foram os Strokes, que são uma banda que gostamos muito, mas não é uma coisa que nos preocupe. Queremos seguir o nosso caminho. Os próprios Strokes foram comparados a muita gente (como o Velvet Underground) e no entanto fizeram o que tinham que fazer. Desde que seja uma banda boa, não há qualquer problema.

Em canções como “Rei Bã” vocês flertam com o pop. Isso quer dizer que vocês não são apenas uma banda de rock convencional ?
Nunca tinhamos pensado nisso em termos de flerte, mas agrada-me a ideia. Flertar com a pop é legal. “Rei Bã” é uma canção totalmente diferente daquilo que tinhamos feito até agora, e o resultado final agradou muito. Nós gostamos de fazer coisas diferentes dentro daquilo que é a nossa identidade enquanto banda. Somos uma banda de rock, mas o sentido pop das canções está sempre presente, de uma forma mais ou menos declarada.

Qual é o maior objetivo dos Pontos Negros ?
Acho que é conseguir viver da música. Isso seria o ideal. Mas sendo um bocadinho mais realista agora, temos sempre como objetivo principal fazer boas canções, bons discos e dar concertos ainda melhores.

Vocês sentem que a nova geração de bandas portuguesas tem possibilidade de conquistar o exterior?
Sim. Porque não? Há muita coisa que se faz aqui em Portugal que não se ouve nem se vê lá fora. Embora poucos, temos exemplos de artistas que conseguiram ter sucesso no exterior como a Amália Rodrigues, Madredeus e agora Deolinda. É bonito falar em triunfar fora de Portugal, mas acho que o mais importante é que as pessoas daqui se sintam idenficadas com a música que se faz dentro das nossas fronteiras e que as bandas sejam fiéis a isso mesmo.

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Pedro Salgado (@woorman) é jornalista, reside em Lisboa e irá contar as novidades da música lusitana aos leitores do Scream & Yell

10 thoughts on “Entrevista: Os Pontos Negros

  1. beem legal vcs abrirem espaço pras bandas de portugal! (apesar de eu ainda ter uma certa resistência ao sotaque português quando cantado… mas estou tentando resolver isso.)
    espero ver david fonseca (desse sou fã demaaais) e clã por aqui.

  2. Muito legal o espaço pra uma banda portuguesa! Parabéns! Eu humildemente recomendaria uma matéria com a Groovie Records e os Portuguese Nuggets. Abs!

  3. Vi a matéria, baixei o disco e o sotaque portuga me conquistou. Há uns quatro dias que eu não ouço outra coisa (sério) que não “Lisboa, Não Passas desse Inverno” e “Rei Bã”. Ponto pro S&Y. 🙂

  4. People,
    Aqui é um zuca morando em Portugal.
    Obrigatório ouvir, Tiago Guillul, Samuel Úria, Guel, Guillul e os Comboio Fantasma, Os Ninivítas, Os Golpes, Os Quais, Os Capitães da Areia, Os Pinto Ferreira, Os Feromona, Ornatos Violeta, Pluto, Smix Smox Smux, David Pires, Jónatas Pires e Lipe (à solo claro), Linda Martini, Virgem Suta, Os Velhos, Paus, Pedro da Rosa (da última geração de grandes guitarristas de Portugal), Manuel Fúria, enfim, a música portuguesa tem uma maturidade que só se conhece ao ouvir, e, quando se ouve, aquilo entra.
    Viva o panque roque escrito e gritado em Português.
    Abraço

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