Cinema: Comer, Rezar, Amar

por Marcelo Costa

Você já quebrou a cara no amor, caro leitor? Para quem respondeu sim, um exercício: multiplique a dor desta vez que você quebrou a cara em um relacionamento por… sete. Dolorido, né. E depois de quebrar a cara tantas vezes – ou em longos namoros, o que fazer da vida quando se descobre que você continua fazendo tudo errado? Resposta fácil: começar de novo – do zero. Ou, como diria um velho samba, “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

É esse lema que a mezzo jornalista, mezzo escritora Elizabeth Gilbert emprega em “Comer, Rezar, Amar”, livro que se tornou best seller ao contar a história da mulher que, ao sair de um casamento infeliz, se vê afogada em mais um relacionamento infeliz, decide largar tudo e se dedicar aos prazeres e as descobertas da vida em uma viagem por três países: Itália, Índia e Indonésia (é possível que ela tenha escolhido mais pelo dicionário do que pelos dotes de cada lugar, mas tudo bem).

O título do livro – agora filme – é explicativo: em um país ela se entrega aos prazeres da boa mesa, em outro à dificuldade da religião e, no terceiro, ao amor (sentiu o gosto do açúcar?). Em uma época em que as comédias românticas parecem estar condenadas ao limbo da repetição, “Comer, Rezar, Amar” insere alguns elementos extras à trama – nada que vá fazer Billy Wilder sorrir no túmulo – tentando se diferenciar das dezenas de clones de “Harry e Sally” que chegam aos cinemas. E consegue? Não. Ou quase.

Logo no começo da trajetória turística de Liz (Julia Roberts) temos bons momentos ancorados na comédia de costumes. Ela está na Itália, aprendendo a língua italiana, comendo massa e engordando. Conselho de mesa de boteco detectado: “A calça não fecha”, diz uma nova amiga sueca. “Compre um número maior. Nenhum homem liga para as gordurinhas. Eles não vão mandar você embora assim que você tirar a roupa. Eles sabem que tiraram a sorte grande”, filosofa Liz. Tem lá sua razão.

Em Roma, com belíssima fotografia externa e exagerada opção por closes nos atores, Liz forma um grupo de amigos, não pega ninguém, mas come muita, muita massa. Dali ela parte para a Índia, onde pretende se dedicar a meditação e segue depois para Bali, para reencontrar um xamã que havia previsto todo o desastre por qual ela passaria (o divórcio em que ela sairia sem um tostão, o retorno à Indonésia e a decantada volta por cima) e também o amor.

Historinha bonitinha (e ordinária) com pontadas de ironia (no primeiro momento em que se sente perdida após a separação, Liz se afunda na seção de auto-ajuda de uma livraria e sai de lá com “Quem Mexeu no Meu Queijo”, clássico da literatura motivacional e atentado ao bom gosto literário com pena variando entre prisão perpetua e cadeira elétrica), “Comer, Rezar, Amar” tropeça nos clichês. Os elementos extras não salvam o formato batido, pois o diretor Ryan Murphy trata o material com pouco caso, tornando o filme insosso.

Ok, vale tirar um pouco do peso das costas do diretor: a culpa é mais do material original do que do roteiro complacente, que o conformismo com que Ryan filma a história corrobora. O personagem Elizabeth Gilbert é caricato ao extremo, e os momentos em que o filme respira resultam de piadas, citações ou mesmo da fotografia de lugares que não fazem partem dela. Toda beleza da parte indiana, por exemplo, reside mais na força da religião do que na incompetência de Liz de se entregar a ela e/ou entendê-la.

A falta de profundidade do personagem reflete (claro) no filme e o efeito ralo que proporciona sugere um ato de coragem da jornalista Elizabeth, que desnuda o vazio de sua alma não só para a literatura, mas também para Hollywood, como se levantasse uma bandeira (de certo modo valorizando a apatia) cujo lema poderia ser “eu sou simplória assim e me orgulho disso”. Tem lá o seu valor, mas é pouco (muuuito pouco) para 2 horas e 13 minutos de película.

Julia Roberts está ok e pode até conseguir uma indicação ao Oscar (Globo de Ouro é fácil) pelo papel, mas não é a Julia voluptuosa de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, “Erin Brockovich”, “Noiva em Fuga”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Dossiê Pelicano”, em que com um sorriso já despedaçava corações. O processo de emagrecimento após a gravidez (e, talvez, alguma plástica) lhe tirou boa parte do brilho. Em algumas cenas ela chega a parecer uma Meryl Streep de terceira categoria e em outras uma Sarah Jessica Parker após cinco dias chorando.

Javier Bardem está impagável em um papel que muita gente não toparia fazer: um brasileiro sentimental cuja primeira frase no filme é “eu gosto de gravar fitas k7 com músicas de Phil Collins e Air Suplay”. Seu português macarrônico só constrange, mas cabe perfeitamente no papel – e no filme e na vida de Elizabeth. Por fim, a trilha sonora clichê tem Neil Young, Eddie Vedder, João e Bebel Gilberto, Marvin Gaye e, a única surpresa, Josh Rouse. São canções bonitas que no filme parecem embalar um cartão postal, e não uma cena.

Eis o grande problema de “Comer, Rezar, Amar”: é um filme brega porque Elizabeth é brega. Não há surpresa, não há incomodo, não há pontadas de adaga no peito do espectador. “Comer, Rezar, Amar” é banal e pode ser encarado como um filme turístico, em que uma pessoa com a vida encaminhada profissionalmente e desajustada particularmente tenta descobrir o melhor de três países (e tudo que ela irá mostrar deste melhor você já conhece, caro leitor) enquanto tenta descobrir quem mexeu em seu queijo. Se os problemas do mundo se resumissem a isso…

10 thoughts on “Cinema: Comer, Rezar, Amar

  1. Por que de uns 5 anos pra cá começaram a brotar produtos voltados pra mulher-de-quarenta-e-tra-la-lá-recém-divorciada-que-quer-aproveitar-a-vida-e-ser-feliz-e-auto-suficiente-e-arranjar-um-namorado-bonito-inteligente-e-que-a-respeite-como-mulher-mas-ainda-assim-cavalheiro? E que invevitavelmente acabam virando historinha de conto de fadas de final feliz?

    Eu gostava mais quando fazer um filme voltado para determinada audiência significava colocar 13th Floor Elevators de trilha sonora. Ou fazer o personagem principal virar zumbi.

  2. Sei não… vi o filme com a minha namorada… é… o filme te contagia mais pela fotografia do que pela história.

    Concordo com a crítica e com os comentários, mas o Javier Bardem tá horrível bicho. Que que isso, que atuação grotesca… caramba o cara parece um louco de tão “sentimental” que ele é, cheio de trejeitos que mais parece um italiano do que um brasileiro (não desmerecendo os italianos, mas nada a ver com brasileiros)

    E por fim achei o filme de um simplismo absurdo. Ok, to infeliz, em vez de tentar resolver o problema eu vou fugir pra Itália, Índia e Bali… poxa super bacana hein? Simples assim para qualquer situação da sua vida
    Pior é que ele de uma forma se posta como uma realidade inefável para toda mulher com crise de relacionamento e tudo mais.
    E sim a tal da Elizabeth é brega, talvez por ser jornalista ela veja isso como uma forma cool, mas ela é brega.

  3. Olá, creio que o filme não se resume a descobrir o melhor de 3 países, mas sim descobrir coisas diferentes, sensações diferentes quea fizesse sentir emoções novamente. Ela já não sentia prazer em nada, então se permitiu a tentar sentir….como viver sem sentir? Sabia que a depressão está mais presente no mundo do que nós percebemos…ela é real..a pessoa desaprende a sentir emoções…e a vida se torna sem graça…mas como a maioria dos homens não sentem mesmo…então é super natural achar q o filme se resume a conhecer 3 paises..primeiros vcs teriam que sentir..pra poder entender o filme…KKKKKKKkkkkkk..abraços!

  4. O filme é muito ruim.

    Assistam Encontros e Desencontros, filme com uns bons anos de idade mas que sobrevive ao tempo e retrata uma verdadeira estória de amor.

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