Entrevista: Fê Lemos, Capital Inicial

por Marcos Paulino

A poucos dias de gravar “Das Kapital”, 12º disco de estúdio do Capital Inicial, o vocalista Dinho Ouro Preto caiu do palco durante um show, bateu a cabeça e acabou internado. Além do trauma craniano em si, deparou-se com complicações, como uma infecção e uma resistente pedra no rim. Longe dos companheiros Fê Lemos (bateria), Flávio Lemos (baixo) e Yves Passarell (guitarra), teve que se contentar em acompanhar as gravações via internet. Isso, porém, não impediu que a banda brasiliense, do alto de seus respeitáveis 28 anos de carreira, lançasse um bom disco de inéditas, permitindo-se ousar ao apostar numa interessante variação sonora em suas 11 faixas.

“Das Kapital” é um disco de rock curto e grosso. Destoa enormemente do rock que apresenta a nova geração. Isso se deve também à troca de produtor, entrando David Corcos no lugar de Marcelo Sussekind. Mas mais ainda à vontade dos veteranos músicos de se reinventar. Sobre esse trabalho, o batera Fê deu a seguinte entrevista ao caderno PLUG, parceiro do Scream & Yell.

Hoje o público do Capital Inicial reúne quem acompanha a banda desde os anos 80 e os filhos dessas pessoas. Vocês pensam nisso quando vão compor para um trabalho novo, como este “Das Kapital”?
Não, é natural. A gente não planeja compor pra determinada faixa etária ou pra um grupo em particular. As músicas refletem o estado de espírito de cada compositor, as influências que ele está tendo naquele momento. Houve uma época em que tentamos soar diferentes, no final dos anos 80, com as batidas eletrônicas, e não fomos bem sucedidos. Aprendemos a duras penas a trabalhar com o que nos dá prazer. No começo dos anos 90, houve uma onda dos bateristas tocarem com dois bumbos. Estudei durante um ano pra tocar com dois pedais, e o som virou uma maçaroca. Aquele não era eu. Tenho que tocar da minha maneira da melhor forma possível. Enfim, quando a gente compõe, procura ser fiel ao nosso som. Não dá para querer tocar como uma banda nova, nem ficar congelado no tempo.

Mas vocês pensam no fato de que há várias gerações ouvindo a banda? Isso pesa?
Sempre pensamos nisso. Quando o Dinho voltou para a banda, em 1998, vimos uma galera nova no show. Eram jovens que não conheciam o Capital da década de 80. Aí veio o “Acústico”, pra mostrar pra essa geração um pouco da nossa história. O disco teve um alcance incrível. E desde então temos renovado o nosso público, porque sempre procuramos renovar nosso material, e não ficar gravando covers. Agora, o fato de sermos relevantes para os adolescentes nos enche de orgulho, porque eles são muito exigentes.

“Das Kapital” traz uma boa variedade sonora. É essa busca por novos sons que faz o Capital ainda ter fôlego, ao contrário de tantas outras bandas que estouraram nos anos 80?
Acho que sim. Há aí dois ingredientes. Um é a qualidade musical, que vem com a gente desde moleques. Outro é que sempre procuramos fazer nossa música, nunca fomos uma banda de covers. E sempre tentando fazer algo que nos surpreendesse, sem repetir fórmulas. Talvez transpa-reça nas músicas a busca por manter essa chama da originalidade acesa e faça com que soem especiais. Neste disco, procuramos a todo custo evitar músicas das quais não estivéssemos seguros. Aceitamos a sugestão do produtor, de fechar em 11 músicas, e não 14, como era o padrão.

O disco tem músicas curtas, todas com cerca de três minutos. A ideia era essa ou foi por acaso?
A ideia era essa. Vivemos uma época que de certa forma é um retorno aos anos 50 e 60, quando as bandas soltavam três ou quatro singles por ano. Depois é que os reuniam num LP. Agora também se trabalha com músicas individuais. Não há mais aquele hábito de se ouvir um disco inteiro. Isso acabou depois do MP3. Então pensamos em fazer um disco mais curto, com 11 músicas campeãs.

Nos anos 80, havia uma grande variação na sonoridade das bandas de rock brasileiras. Nos primeiros acordes, já era possível saber quem estava tocando, diferentemente das bandas de hoje. O Capital aproveita essa experiência de tantos anos para se diferenciar?

A geração de 80 viveu um momento especial, tanto na vida do Brasil quanto da cultura pop. No final dos anos 70, houve o punk rock, a reinvenção do rock. Nos anos 80, veio tudo isso e o fim da ditadura, a luta dos nossos pais. As bandas que possuíam uma verve política tinham o que falar. E as influências musicais nessa época eram fartas. O Barão era uma pegada mais Rolling Stones, o rock de Brasília era mais influenciado pela new wave, o rock punk paulista, o rock gaúcho com seu sotaque. Talvez hoje a sonoridade que influencia as bandas mais novas seja mais parecida e isso faça com que soem parecidas. Mas acho que isso não é problema algum. Esta-mos vendo o nascimento de uma nova geração e os bons artistas vão sobreviver e desenvolver seus próprios estilos.

O Dinho teve vários problemas de saúde em virtude do acidente que sofreu durante um show. Isso complicou muito a gravação do disco?
Esse foi o disco para o qual a gente mais ensaiou. Vínhamos de três meses de ensaio diários, seis horas por dia. Quando o Dinho sofreu o acidente, faltavam quatro dias para entrarmos no estúdio para gravar. Resolvemos gravar a base, já tendo uma ideia de como queríamos que o disco soasse. Um dos músicos fez a voz guia e o Dinho foi acompanhando do hospital, pelo Skype. Claro que faltou a empol-gação dele no estúdio, mas até por causa disso demos o nosso máximo. Também achávamos que nos ver trabalhando serviria de estímulo pra ele. Seria muito pior esperar por ele, porque teríamos perdido todo o trabalho de ensaio e ele poderia ficar deprimido. Quando o Dinho saiu, foi só encontrar a melhor forma pra cantar.

Ele até ousou sair um tanto de seu estilo em algumas músicas…
Verdade. Ao cantar, ele traz um pouco da angústia e do sofrimento que passou. Ele teve tempo pra refletir sobre as letras também e algumas delas trazem as marcas desse trauma.

Vocês reformularam todo o visual dos elementos cenográficos da nova turnê. Quais são as novidades?
Resolvemos fazer um show mais apoiado em tecnologia, com luzes de última geração. Nosso cenário era mais baseado em elementos dos anos 70, painéis, panos, bonecos infláveis, rampas, passarelas, estruturas metálicas pesadas. Diminuímos o hardware e incrementamos o software. Se desligamos as luzes, você não vê nada no palco. A luz cria o cenário. Outra mudança é que resolvemos abrir a turnê nas capitais, pra onde antigamente íamos no final. O objetivo foi usar o efeito multiplicador dos shows nas capitais, que é inigualável.

O interior de São Paulo está na rota da nova turnê?

Com certeza. O interior de São Paulo é nossa melhor praça, é onde fazemos 60% dos shows. E o show que montamos nas capitais vai para o interior. Vamos levar o circo todo.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

“Das Kapital”, Capital Inicial (Sony Music)
por Marcelo Costa

A queda do palco sofrida por Dinho em outubro de 2009 quase colocou fim ao grupo, mas o vocalista se recuperou, a banda voltou ao estúdio e saiu de lá com seu 12º álbum. Não espere mudanças, no entanto. “Das Kapital” é aquilo que o Capital vem fazendo desde que Yves Passarell assumiu as palhetas no ótimo “Rosas e Vinho Tinto” (2002): um pop rock de guitarras nervosinhas, a voz de Dinho lá em cima na mixagem, e as boas letras de Alvin L. tentando situar a banda entre os coroas que compraram o disco proibido para menores de 18 anos em 1987, os jovens que descobriram a banda no “Acústico MTV” (2000) e a geração Fresno/NX Zero, que viu nos tiozinhos uma extensão de suas bandas amadas. “Ressurreição”, “Depois da Meia Noite” (duas canções de pegada Killers) e “Melhor” (puro Ramones) são canções grudentas de qualidade, mas o grande acerto é “Vamos Comemorar”, inspirada parceria de Dinho com Pit Passarell (por sua vez, “A Menina Que Não Tem Nada” é a bobagem do disco). Eles seguem firmes rumo aos 30 anos.

Leia também:
– Entrevista 2008: Fê Lemos fala do MTV Especial Aborto Elétrico, por Marcos Paulino (aqui)
– Discografia comentada do Capital Inicial, por Marcelo Costa (aqui)
– “Gigante” mostra que o Capital Inicial vive sua melhor fase (aqui)
– “Multishow ao Vivo” mostra que o Capital é a maior banda do país (aqui)

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Marcelo Costa é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne

6 thoughts on “Entrevista: Fê Lemos, Capital Inicial

  1. Ficou depois que o Loro Jones saiu. Até “Atrás dos olhos” e “Acústico MTV”, a banda era boa. Depois ficou uma merda mesmo.

    Dinho posando de frontmen com pose de boyband chega a ser ridículo.

    No mais, a entrevista tá boa.

  2. Capital é uma banda que teve bons e maus momentos. se fosse uma banda gringa seria considerada muito boa (já que acham isso do killers, dos strokes e do franz ferdinand, por exemplo). Nos dois primeiros discos conseguiu bons resultados, depois se perdeu. Voltou a achar um bom caminho no Eletricidade. e o acústico os reposicionou para uma nova época. merecem respeito por terem sobrevivido a muita coisa.

  3. Na real, o Capital Inicial sempre foi um troço meia boca, forçado. Quase uma caricatura de banda de rock. Tem lá seus bons momentos, mas no geral o fiasco e a mediocridade é que prevalece. O melhor disco é o primeiro, com algumas músicas do espólio do Aborto Elétrico. No mais, a postura “garotão” do Dinho é meio vexatória. Olha essa foto, parece uma “meninha” posando KKKKKKKKKKK.

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