Cinema: Homem de Ferro 2

por Márcio Padrão

Antes de assistir a “Homem de Ferro 2″, as primeiras críticas ao filme pareciam divididas. A grosso modo, a polarização era entre a opinião positiva de veículos mais “nerds” e a avaliação mais severa dos “não-nerds”. Isso se mostrava como a reprise de um fenômeno comum no lançamento de continuações de adaptações de HQ: os iniciados gostam do filme em questão porque aprofunda suas relações com o material original, enquanto os críticos sem muito conhecimento de quadrinhos se aborrecem – com um rancor nem sempre justificável – com o aumento de personagens, efeitos, subtramas e easter eggs dessas produções.

E afinal, o fato de “Homem de Ferro 2″ ter sido mais um exemplar de tal fenômeno foi justo? O filme é mais um marco da transição HQ-cinema ou apenas um mero blockbuster com os defeitos de sempre? Terminada a sessão do filme, a resposta aparente era: meio a meio.

Por que é um marco? Porque a equipe e elenco – com evidente destaque para o diretor/ator Jon Favreau e o astro Robert Downey Jr. – conseguem, na maior parte do filme, cumprir as altas expectativas e ocasionalmente até superá-las. E por que é um blockbuster lugar-comum? Porque ao contrário de outros bons “parte 2″ que receberam ocasionais críticas negativas, desta vez a argumentação procede: a falta de uma estrutura narrativa mais amarrada e a má utilização de personagens secundários comprometem – um pouco, mas comprometem – o resultado final.

“HdF 2″ mexe pouco no time que ganhou na temporada passada. Downey Jr. está em ótima sintonia com o herói protagonista, e o restante do elenco do primeiro filme está na mesma toada, alternando muito bem os diálogos crônicos com os momentos de ação. Destaco Gwyneth Paltrow, que está construindo no cinema uma Pepper Potts com a importância e presença de espírito dignas de levar a personagem ao panteão das “namoradas de super-herói”, visto que na HQ ela nunca teve esse peso todo. Parece um objetivo meio fácil e besta, mas se revermos as paupérrimas atuações de Kate Bosworth como Lois Lane ou de Eva Mendes no “Motoqueiro Fantasma”, percebe-se que nem isso elas conseguiram.

Os diálogos mais uma vez são de primeira classe. E são muitos no filme todo, mas raros foram de fato cansativos – os dois ou três entre Justin Hammer e Ivan Vanko talvez não tenham rendido muito. Mas as falas e algumas situações engraçadas formaram a ótima munição cômica do filme, que felizmente não atrapalha o fator aventura em nenhum momento. A trilha rock apostou em hits clássicos, meio batidos até, mas que casaram bem com as cenas – “Robot Rock” do Daft Punk na luta dos “Iron Men” foi hilário. E embora não devam despertar interesse nos não-nerds, as piadas internas e citações ao resto do universo Marvel são a cereja do bolo para quem curte estes personagens há tantos anos.

Já os efeitos continuam ok, tornando aquele universo ultratecnológico bastante crível, e nesse ponto não há como os fãs não se deslumbrarem com a cena da maleta-armadura portátil. Todas as cenas de ação entram e saem no momento certo, com o nível de pancadaria bem equalizado para empolgar o público sem cansar.

Agora, os problemas. O maior deles foi a falta de ritmo da montagem, que se torna ligeiramente enfadonha e se escora nos diálogos pouco depois da metade do filme – com Tony Stark procurando sua cura e os vilões montando suas armaduras – e só retoma a adrenalina na meia hora final. Outra bronca é Scarlett Johansson, cuja Viúva Negra é meio jogada no roteiro de qualquer jeito e só faz algo útil na lutinha capenga contra os seguranças de Hammer. Sobre a Viúva, um detalhe meio trash salta aos olhos, quando a moça ganha um cabelo armado de supermodelo só porque botou a roupa de couro. Ok, é Scarlett Johansson e o público desconta, mas para que isso?

Falando em personagens novos, Justin Hammer também não faz muita coisa por ali. Então sua função na história era simplesmente cair no truque e financiar a vingança de Ivan Vanko? Além disso, seus tiques infantis tornaram um empresário de armas – alguém  supostamente sério, portanto – em uma desnecessária caricatura. Por outro lado, Mickey Rourke entendeu muito bem a dimensão de Vanko, conseguindo trazer uma vilania meio digna de pena e uma inteligência ardilosa que contribuíram bastante para o papel. Sem dúvida, foi a melhor aquisição do elenco de “Homem de Ferro 2″.

No saldo geral, a crítica desta vez teve um pouco de razão: “HdF 2″ é um bom filme com certeza, mas seria ainda melhor se tivesse enxugado esses excessos que não funcionaram. O primeiro filme do Latoso sai ganhando na comparação, mas não porque era uma novidade, como gostam de falar, e sim porque simplesmente era um filme melhor resolvido. Mas a nova película passou raspando no teste, pois permanece intacta a ansiedade pela próxima vez em que os raios repulsores dispararem dos palmos de Tony Stark.

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Márcio Padrão é jornalista e assina o blog Quadrisônico

9 thoughts on “Cinema: Homem de Ferro 2

  1. De qaudrinhos pra cinema é complicado agradar a maioria, como é o caso de Watchmen. Um dos melhores filmes que já vi, mas para os leigos, fica meio estranho algumas coisas, principalmente no que se trata do perfil de cada herói. Não dá pra entender direito por que ele tá ali, como virou um herói e talz.

  2. Realmente, o primeiro filme é mais “bem feito” que o segundo.

    Acho que leva a esses filmes sobre HQs hoje a serem mais aceitos, na minha opinião, tem sido principalmente a “soma” de realizadores fãs ou conhecedores da obra original e a capacidade de transpor para a tela não exatamente diálogos e efeitos especiais, mas as sensações que os personagens vivem nos quadrinhos. Entre outras palavras, atores que realmente incorporem os personagens e façam o cinema uma extensão de uma HQ, como o senhor Robert Downey Jr.

    Pena que ainda não tem quem pense em transpor Hagar, o Horrível, para os cinemas. Minha HQ favorita.

  3. “[…] ao contrário de outros bons “parte 2″ que receberam ocasionais críticas negativas, desta vez a argumentação procede: a falta de uma estrutura narrativa mais amarrada e a má utilização de personagens secundários comprometem – um pouco, mas comprometem – o resultado final.”

    Ao meu ver, isso prejudicou – e muito! – o filme. Sem exagero, por que não sentimos o mesmo na saga X-men? Até o último, história de Wolverine, foi todo bem acabado, na medida exata do que o gênero propõe… Acho que O Homem de Ferro 2 foi muito efeito pra pouco enredo.

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