A linha fina em que Otto caminha

por Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari

Quinta-feira em São Paulo, e o tempo mudou de novo. O calor do começo da semana se transformou em um friozinho irritante, que traz consigo uma garoazinha imperceptível que adora deixar o povão gripado. Otto faz mais um show na cidade, e novamente os ingressos estão esgotados. O teatro do Sesc Pinheiros está tomado por fãs (no meio do show ele iria confessar que não sabia que tinha fãs), e a noite promete.

O pano sobe com mais de meia hora de atraso, fato raro em se tratando de Sesc, e o público ovaciona o cantor pernambucano, que chega acompanhado de uma super banda: Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Junio Boca nas guitarras, Bactéria (Mundo Livre S/A) nos teclados e Pupillo (Nação Zumbi) na bateria, mais os percussionistas Malê e Axé.

O foco da noite é o repertório do incensado “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos”, álbum que Otto quase não lançou, mas que assim que ganhou a rua recebeu elogio atrás de elogio. “Filha” e “Janaina” abriram o show, e boa parte do público deixou suas cadeiras indo para as fileiras laterais sacolejar enquanto Otto corria de lá pra cá exibindo feliz um sorriso enorme de canto a canto da boca.

No palco (ou fora dele, já que o cantor arriscou diversas vezes caminhadas por entre o público), Otto é um interprete desajeitado que dança como se não soubesse dançar, exprime frases e ideias ininteligíveis entre as canções e quase fica nu, com a calça caindo, ao rebolar insistentemente no meio de uma batucada, mas assim que solta a voz toma total controle da apresentação.

Ele está ali, na sua frente, caminhando na linha fina que delimita o infantil do suicida, o idiota do malandro, e faz isso de coração aberto, entregue, num jogo que conquista os presentes os fazendo sublimar as frases não terminadas e o “cofrinho” que insiste em aparecer. Parece que ele está dizendo algo do tipo: “Estou lhes entregando meu coração nesta música, neste show. Não pense nas migalhas”. Funciona e é bonito de se ver.

Otto ainda reluta em assumir que “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos” seja um disco inspirado em sua separação da atriz Alessandra Negrini, mas quando, na estupenda “Seis Minutos” (em versão de chorar, chorar e chorar), ele dá nome à criança da letra (o nome de sua filha com Alessandra), a coisa toda fica clara. Ele canta: “E você me falou de uma casa pequena, com uma varanda, chamando a Betina pra jantar”.

O show é um êxtase. Canções de todos os discos entram no repertório, e por não deixar a peteca cair, Otto esfrega na cara do público (e da crítica, por que não?) que tem uma carreira, embora muitos se esqueçam disso. “Ciranda de Maluco”, “O Celular de Naná”, “Dias de Janeiro”, “Pra Ser Só Minha Mulher”, “Renaut / Peugeot” fazem a festa e a batucada ecoa no teatro.

A noite termina com a dobradinha “Naquela Mesa” e “Agora Sim”. Sem camisa, Otto não se cansa de agradecer ao público, à sua grande banda e ao mundo por deixá-lo existir (ou, não desistir – talvez seja mais apropriado).  Fora do teatro, São Paulo continua fria, chuvosa e irritante, mas a felicidade do show parece ter contagiado as estrelas, que brilham mais do que o normal. Quem dera todas as noites tivessem shows assim, quem dera.

Leia também:
– Otto, alegria e redenção no Ibirapuera, por Marco Tomazzoni (aqui)
– “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”, de Otto, por Marcelo Costa (aqui)
– Entrevista com Otto em 2005, por Marcelo Costa (aqui)

11 thoughts on “A linha fina em que Otto caminha

  1. Esse cara é genial. Além do próprio título kafkiano do álbum, que expressa bem sua angústia existencial, a música “Crua” faz remissão clara à Kundera (Insustentável Leveza do Ser) logo no primeiro verso (Há sempre um lado que pese / e um outro lado que flutua).

    Isso ao vivo deve ser lindo.

    Esperamos Otto no Paraná.

  2. Ele não fala da Alessandra,Mac,mas naquela entrevista pro IG que você deixou o link,fala muito até.Mais do que as outras entrevistas.Dica:Se fizer uma entrevista pro Entrevistão de algum mês,carrega na cerveja que ele fala umas seis horas,hehe.

  3. Ele tocou sexta em Sorocaba, de graça, 8 da noite, e tinha só umas 300 pessoas vendo. Foi pelo SESC, divulgado em jornal, cartaz na cidade e foram 300 pessoas num parque que cabe fácil umas 5mil pessoas. Depois a gente fica discutindo se existe cena, o que um artista faz ou deixa de fazer. Não adianta o público não quer ver, não quer ouvir.

  4. Thiago,
    Eu estive no show em Sorocaba com a produção do SESC e o número de pessoas lá passou dos 400. Mas, claro, ainda é pouco perto do que ele merecia ter ali. Mas de qq forma, foi um show lindo, o público se divertiu e até dançou ciranda não foi? A quantidade hoje em dia não diz muita coisa. O lance é multiplicar as coisas boas que a gente ‘descobre’, espalhar a boa cultura.
    O Otto está na melhor fase de sua carreira, todos sabemos… e desejo que isso só venha a crescer.

    Ah, parabéns (mesmo) Marcelo pela matéria… 😉

  5. mac, vi o otto no comitê club e a sensação que tive foi muito parecida com a que vc descreveu. show bonito de ver. artista realmente presente e não apenas seguindo protocolo. e o melhor de tudo é que finalmente o otto vai apresentar o novo disco em belém. sorte nossa. 🙂

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