DVD: Closer, de Mike Nichols

por Marcelo Costa

Texto publicado no Scream & Yell originalmente em 01/02/2005

O amor existe? Você já o viu? Já o tocou? Por favor, nada de metáforas românticas. A pergunta é simples: o amor é real ou é uma mentira que as pessoas contam para serem felizes? É tão fácil assim confundir amor com paixão? Você já amou realmente alguém, com todas as letras? Ok, esqueça tudo isso, por enquanto. E lembre-se que nos tempos de nossos avós as coisas eram bem diferentes. E eram diferentes porque: 1) a sociedade construía fachadas durante o dia para as perversões que aconteciam durante a noite; 2) a religião católica era forte, e o casal era “forçado” a ficar junto, mesmo que já não houvesse mais amor; 3) seguir a tradição era o lema principal do povo, e quem caminhasse em sentido contrário era logo tachado de diferente, o que, naquela época, podia desgraçar a vida de qualquer um.

Cortamos para os anos 2000: 1) Perversões dão lucros, pra que escondê-las? 2) A lei do divórcio entrou em vigor e a religião católica ficou parada no tempo; 3) Ninguém mais segue ninguém, e todo mundo segue todo mundo. Sim, sim, o mundo mudou um bocado nos últimos cinqüenta anos. E o amor? Qual sua relação com tudo isso? Bem, antigamente, nossos tataravôs casavam e ficavam juntos 40, 50, 60, 70 anos. Hoje em dia, uma relação já merece brinde de champagne quando dura mais de uma semana. Isso quer dizer que sobrava amor antigamente e está faltando agora? Hummmm, não.

Ficar junto com alguém não quer dizer, necessariamente, que se ama esse alguém. Há respeito, há admiração, há carinho, há até paixão e um monte de outros sentimentos que podem passar perto do que alguns chamam de amor, mas não são amor. Antigamente, sociedade e igreja mantinham pessoas juntas. Hoje em dia, as pessoas ficam juntas se estiverem a fim (e se Deus quiser, e o Diabo deixar). O mundo dos relacionamentos nos anos 2000 virou de cabeça pra baixo, ainda mais depois da “popularização” da Internet. O amor a um toque do mouse.

Em “Closer – Perto Demais”, o cineasta Mike Nichols filma fragmentos destas relações humanas nos últimos tempos. Além do bom jogo do roteiro, que vai e volta e tem cortes geniais, o espectador é brindado com os melhores diálogos do cinema em 2004 em uma porção de histórias óbvias com personagens extremamente estereotipados. E é da junção da obviedade com o estereótipo que “Closer – Perto Demais” se aproxima da perfeição cinematográfica. É um filme leve e tenso e surpreendente e acachapante. Nada mais impressiona do que tudo aquilo que nós próprios vivemos fazendo.

Primeiro, os estereótipos: o olhar de um sonhador se cruza com o de uma menina inocente logo na primeira cena do filme. Ele é o jornalista Dan (Jude Law) e ela é a stripper Alice (Natalie Portman). A paixão a primeira vista atropela (literalmente) a menina de cabelo rosa e ela acorda nos braços do amado. Corte. Dan precisa ser fotografado para a “orelha” de seu primeiro romance. A fotógrafa é a insegura Anna (Julia Roberts) e Dan acaba fisgado por sua lente, porém, há um problema: Dan é compromissado, e Anna foge. Puto da vida, Dan acaba jogando o médico machão Larry (Clive Owen) nos braços de Anna. Temos, acima, quatro esteriótipos… e um belíssimo filme. Deveria ser tratado como uma comédia, não como um drama.

Segundo, a obviedade: Alice é completamente apaixonada por Dan, que se apaixona por Anna, que ama Dan, mas acaba casando com Larry, que transa com Alice. Alice sabe desde o primeiro momento que Dan está apaixonado por Anna, mas não abre mão de seu amor. Aceita, em silêncio, e espera tudo se resolver com o tempo (quem não fez isso ao menos uma vez na vida?). Dan é feliz com Alice, mas sonha ser mais feliz ainda com Anna, por isso, rompe tudo com a namorada para ficar com a “paixão” da sua vida. As cenas que marcam o fim de relacionamento do casal vão ser boas para rememorar histórias de muitas pessoas (quem não fez aquelas mesmas perguntas? Quem não deu aquelas mesmas respostas?).

Paralelamente, Anna se casa com Larry por acomodação. E Larry se casa com Anna porque ela é muito gostosa (ah, Julia). Anna se separa de Larry para ficar com Dan, que abandonou Alice, mas pequenas coisas vão mudar o rumo da história destes quatro mitos românticos dos tempos modernos. Dos quatro estereótipos, Larry é o que tem a personalidade mais forte. Dan é sonhador, por isso, inseguro. É jogado de lá pra cá como se fosse uma peteca. Anna é insegura e acomodada. Alice é espertamente ingênua. E Larry sabe muito bem que orgulho não é algo para se ficar ostentando como um prêmio. E dá-lhe mentira. E quem nunca mentiu para seu par? E qual a relevância de uma mentira? Quem nunca omitiu uma opinião apenas para manter as coisas como elas estão? Quem disse que o amor era a melhor coisa do mundo – e a mais justa – pregou uma grande peça em todos nós.

“Closer – Perto demais” é uma adaptação de uma peça homônima, escrita pelo inglês Patrick Marber em 1997 e já montada no Brasil por Hector Babenco, em 2000. Mike Nichols tem 73 anos, 40 deles dedicados ao teatro e ao cinema, e só 19 longas assinados, entre eles “Quem tem medo de Virginia Woolf?” (1966) e “A Primeira Noite de Um Homem’ (1967). Sobretudo, Nichols é craque em adaptar o teatro para o cinema (ou a TV, como exemplifica a série “Angels In América”), e vice-versa (no momento, ele trabalha em uma adaptação do clássico “Monty Python e o Cálice Sagrado” para o tablado). Em “Closer – Perto Demais”, porém, Nichols conseguiu algo mais do que adaptar uma peça: ele conseguiu manter o brilho do roteiro intacto, e, com sublime direção, mexer as peças deste tabuleiro romântico com insuspeita visão da realidade.

O diretor exibe as entranhas de seus personagens como se estivesse fazendo uma cirurgia. O coração, mito romântico, quase pára. O homem, traído, precisa saber de todos os detalhes da traição: “Quanto tempo? Vocês transaram em casa? Ele é melhor do que eu?” A mulher, abandonada, foge para se esconder… em uma boate de stripper. Estamos, todos, sempre nos exibindo, e sempre nos escondendo. Em uma das últimas cenas, Dan insiste para que Alice conte-lhe a verdade sobre sua história com Larry. É possível ver, a cada segundo que as imagens projetam o casal na tela, pedacinhos de um romance sendo levados pelo vento. Quando Dan fecha a porta para buscar cigarros, percebe a bobagem que fez. Todos percebemos. E essa história termina para outra começar. Mais uma vez, todos passaram perto demais do amor. E o amor existe? Você já o viu? Já o tocou? Por favor, nada de metáforas românticas. A pergunta é simples: o amor é real ou é uma mentira que as pessoas contam para tentar serem felizes?

Entre o amor, a desilusão e a sobrevivência romântica, “Closer – Perto Demai”s desenha um painel irretocável das relações humanas nos últimos tempos de maneira constrangedora, assustadora e levemente didática. Pena que ninguém nunca aprende… Ou ainda bem?

PS: a música que arrepia em Closer se chama “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Ela abre e fecha o filme. E está liberada para download no site oficial de “Closer”. Ouça a música, veja o filme e tente ser feliz.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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