Entrevista: Digão, do Raimundos

por Marcos Paulino

“Tudo que diz respeito ao Raimundos agora passa por mim. Cansei de ficar na mão de agente, fazendo um show a cada três meses”. É assim que Rodrigo Campos, ou melhor, Digão, descreve a nova fase de sua banda, que conhece como poucas os altos e baixos do mundo artístico. O grupo de Brasília, então com Rodolfo à frente, foi sensação nos anos 90, ganhou disco de ouro, gravou nos Estados Unidos e era figura fácil nos principais programas de TV.

Tudo mudou em 2001, quando Rodolfo, que fundou a banda com Digão, resolveu alçar outros voos. Um ano depois, seria a vez de Canisso, outro membro desde a origem, resolver sair também. O Raimundos continuaria na ativa, mas nem de longe tinha a repercussão de outros tempos. Até que o vocalista e guitarrista Digão teve um estalo.

Ele mesmo decidiu assumir “as rédeas” de tudo, como conta. Chamou o baixista Canisso de volta: “Vamos pra estrada”, disse. O amigo topou. “A coisa andou, estamos de volta. Tudo aconteceu como previ”, comemora Digão, satisfeito com as recentes participações em programas como o “Rock na Estrada”, do Multishow, e o “BBB 10”, da Globo.

Completam a formação atual o guitarrista Marquim e o baterista Caio. E o vocalista do Detonautas Roque Clube, Tico Santa Cruz, tem feito alguns shows com os brasilienses. Nesta entrevista exclusiva ao Plug,  parceiro do Scream & Yell, Digão fala sobre o momento da banda.

O Raimundos está ressurgindo de um período em que ficou sumido, muitos acreditavam que a banda tinha acabado. Como está esta fase?

Passamos por um momento muito difícil, de muita confusão. Precisamos passar esses anos todos comendo poeira pra realmente pegar a mão da coisa. O que fez a banda ficar legal de novo foi o Canisso ter voltado. Ele me fez uma falta muito grande, ele é muito a cara do Raimundos. Com a dele, resolvemos fazer o que deveria ter sido feito lá atrás: enxugar a máquina. A gente gosta de tocar e se divertir, então resolvemos ir pra estrada fazer isso. Devagarzinho, os shows foram ficando melhores, todo mundo unido, feliz.

Vocês fizeram até um concurso pra criar um novo logotipo pra banda. A ideia era justamente marcar essa nova fase?

Exatamente. Sempre gostamos muito da participação dos fãs. Esse concurso não foi pra dar prêmio, mas voltado pra quem é desprendido e gosta da banda. O primeiro logo também foi assim, inesperado. Fizemos um show em Itaboraí e o cartaz tinha um logo do Raimundo que um cara tinha feito. Gostamos e adotamos.

Recentemente o Multishow mostrou os bastidores das suas viagens…
(Interrompendo) Demos muita sorte, porque foram filmar justamente o show mais bombado que fizemos (Risos).

Aí veio a participação de vocês no “Big Brother”. Pensei: “Estão ficando famosões de novo, vai ser difícil rolar uma entrevista”.

(Risos) Que nada. Tenho o pé no chão, sempre tratei todo mundo igual.

Mas como você vê essa reaparição do Raimundos na grande mídia?

Foram coisas inesperadas. No Multishow, foi um amigo meu que faz o programa que nos convidou e foi ótimo. No “Big Brother”, eu tinha uma relação pessoal com o Boninho (diretor do programa), gosto muito dele. O Tico também colocou uma pilha no Twitter e aí pintou. A vibe da banda atraiu a coisa. Não foi pensado, pago, de forma alguma.

A galera que aparece cantando todas as letras no show do Multishow é um público talvez diferente do que vê o “Big Brother”. Quem são os fãs do Raimundos hoje?
Passou uma geração, que gostava do Raimundos como era antigamente. Agora tem uma nova molecada. Mas é difícil dizer quem são nossos fãs. Muitos dos antigos voltaram, reconquistamos nosso posto de banda de hardcore. E o hardcore será sempre underground. Nosso show é pauleira comendo solta. A molecada que está aprendendo o que é rock agora ouve falar do Raimundos, vai na internet, acha a gente e começa a curtir. Tem muito moleque novinho no nosso show, amarradão.

O Raimundos surgiu misturando elementos do forró ao hardcore, com letras sacanas. A ideia é continuar nessa linha?
A gente canta as coisas que acontecem. Tem uma música nova que fiz pro filho de um amigo que é hiperativo. Continuamos com esse jeito simples de falar das coisas que a gente vive. Temos um jeito de tocar e cantar que é muito particular, e acho que seguiremos essa linha sempre.

Falando em música nova, vocês estão pensando num disco de inéditas?
Só vejo um disco de inéditas no ano que vem. Minha meta é neste ano fazer um DVD ao vivo, com no máximo duas músicas inéditas. Acho que tem muita gente que ainda não viu que o Raimundos é legal.

Como tem sido a participação do Tico em alguns shows?
O Tico agregou muita coisa. Ele veio num momento bom pra darmos as mãos e mostrarmos o valor do rock. Precisamos mostrar pra essa molecada o que é rock´n´roll de verdade, visceral, sem fru-fru. O Tico também ajudou bastante com uma parte que não tínhamos, de internet. E o show com ele ficou muito legal, ensaiamos muito, ele veio para Brasília para entender as letras, saber como e por que foram feitas. Estou achando muito bacana.

Como está sendo conciliar a vida pessoal com a agenda de shows?
Está difícil, porque hoje o músico depende exclusivamente do show. Todo final de semana estou viajando. Tento compensar o convívio com meus filhos durante a semana. Mas no final de semana não tenho mais vida social, é só trabalho.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

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