Jorge Ben Jor comanda micareta em SP

por Tiago Agostini

Jorge Ben Jor é um dos três grandes gênios da música brasileira – coloque na conta Chico Buarque e Caetano Veloso. Isso é fato. Com o lançamento, no final de 2009, da caixa Salve Jorge, com seus discos lançados entre 1963 e 1976 na Philips (hoje Universal), ele vive agora mais um de seus momentos de prestígio e boa exposição. Tem sido assim mais ou menos durante toda a carreira, momentos de esquecimento intercalados com o sucesso, até porque Jorge é um artista muito mais discreto do que boa parte dos seus companheiros de geração. Mas, como tem a mão perfeita para refrões balançantes e simples, volta e meia crava um sucesso desses que você decora a letra sem nem perceber.

É desses hits fáceis que o repertório de duas horas de show no Credicard Hall foi feito. Logo de cara, Jorge já lança mão de “Mas Que Nada” e “Chove Chuva”, em um dos muitos pout-pourris que marcam o show, sem medo de ser feliz. Com o público ganho e na mão – como se isso já não estivesse claro nos corredores antes do primeiro acorde soar – ele vai desfilando clássicos como “A Banda do Zé Pretinho”, “Os Alquimistas Estão Chegando”, “W/Brasil”, “País Tropical”, “Por Causa de Você Menina”, “Zumbi” e tantos outros. A plateia lotada pula, samba, agita, maravilhada com a apresentação da mão direita mais abençoada da música brasileira. É festa fácil. Mas parece que falta alguma coisa.

A primeira sensação que se tem no show do mestre é que Jorge merecia uma banda melhor para lhe acompanhar. A cozinha da Banda do Zé Pretinho não passa nem perto de ter o “punch” necessário e o teclado é repetitivo e sem inspiração – um midi no lugar não faria feio. Talvez se Jorge fizesse como Caetano e recrutasse jovens talentos da nova geração a apresentação ficasse mais vibrante – apesar que o homem da gravata florida não precisa se renovar ou reinventar sua carreira, como fez Caetano ao recrutar a Banda Cê. É só uma questão de sonoridade, mesmo. O balanço e o suingue de Jorge nunca saem de moda.

O segundo grande problema do show: a obsessão de Jorge por pout-pourris. Ok, o repertório é enorme, poderia render um show de três horas fácil, todo mundo quer ouvir suas músicas favoritas e fazendo a união de duas ou mais músicas você acaba agradando mais gente. Contudo, enfileirando estrofes diferentes a cada minuto, Jorge acaba tirando as particularidades de cada música, igualando todas ao mesmo patamar e arranjo, transformando o show meio que em um lugar comum. De repente, você sente que há 20 minutos está ouvindo a mesma coisa, a mesma canção, e ir até o bar pegar uma cerveja não parece algo tão ruim – afinal, o que de tão diferente você pode perder?

Então, ao final do show, Jorge liga a distorção e toca uma versão envenenada e chapante de “Umbabarauma”, emendada com “Fio Maravilha”. E, como se estivesse em um estádio lotado driblando zagueiros cheio de humildade, você sai rodopiando, abraçando as pessoas ao seu lado, o sorriso brota sorrateiro e toda a frieza da análise crítica vai por água abaixo. Se o show parece uma micareta sofisticada, qual o problema de pular e ser feliz?

Após um longo intervalo para a volta ao bis – e um longo e enfadonho solo de teclado, sempre ele -, uma versão pungente de “Jorge da Capadócia” e nosso mestre resolve chamar “todos os emos para perto do palco”. Sorriso de orelha a orelha, Ben Jor traz umas 20 meninas lindas ao palco para cantar e dançar com ele “Gostosa”, ensinando a esses meninos chorões o que importa mesmo na vida. Clima de festa no palco, é hora de emendar “Taj Mahal” com “A Banda do Zé Pretinho” numa versão quilométrica e ver, mesmo com as luzes acesas, ninguém arredar pé do salão. O baile está a toda. O homem sabe das coisas.

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Tiago Agostini é jornalista e assina o blog A Day in The Life

This entry was posted on Segunda-feira, Março 1st, 2010 and is filed under Música. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

One Response to “Jorge Ben Jor comanda micareta em SP”

  1. Adriano Mello Costa

    Fui para um show do Benjor no RJ agora em janeiro.O negócio é punk..eheheh…Diversão pura.

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