Sherlock Holmes, de Guy Ritchie

por Roberta Ávila

Algumas poucas coisas no mundo são exatamente o que deveriam ser. Pudim de mãe, pizza em São Paulo, carne na Argentina, vinho na França. São coisas até simples, mas se você tentar incrementar estraga. Não adianta colocar chantilly no pudim. Não faça sangria com vinho francês. Para quê fazer strogonoff com um belo corte de carne Argentina? É errado. É essa mesma sensação que o “Sherlock Holmes” de Guy Ritchie passa. É incrementado, cheio de efeitos especiais e de releituras sobre traços do caráter do Sherlock e do Watson e até sobre o rumo da vida deles, mas é errado.

Se Guy Ritchie queria fazer um filme sobre um grande detetive que tem um grande companheiro, ajudante ou sei lá qual a definição que o Watson teria, por que diabos ele não fez o filme como ele queria? Por que desfigurar Sherlock Holmes, atribuindo a ele e ao Watson novas personalidades? Um diretor com a carreira de Guy Ritchie – que ainda por cima é ex da Madonna – teria toda a publicidade mesmo que fizesse um filme sobre o irmão do soldado desconhecido. Alguém devia ter sido sensato o suficiente para dizer a ele que com personagens consagrados, como Sherlock, não se brinca.

Sherlock Holmes simplesmente não é o que Guy Ritchie fez dele: uma mistura de Professor Bugiganga (com direito a um ridículo cinto de utilidades) e Professor Pardal (que está quase sempre destruindo o apartamento com experiências absurdas). Um cara que está muito mais para irlandês do que para inglês (assim como a trilha sonora do filme), muito mais para beberrão imundo do que para um gentleman, um homem sarcástico ao invés de irônico, uma pessoa ousada, destemida e violenta, ao invés de sensata e introspectiva.

Nem tampouco Watson é o que devia ser. Ele assume o papel de homem responsável na dupla, e é mais sério do que Sherlock. Pelo menos não se atreveram a mudar o grande laço afetivo que existe entre os dois, que permanece intacto, mas está sendo colocado em prova pelo fato de que Wilson está noivo e vai se mudar do apartamento que divide com Holmes. Questão interessante. De fato poderia ter acontecido algo similar em alguma das histórias de Conan Doyle, mas aí uma das grandes dúvidas desse relacionamento deixa de existir: qual era a extensão da relação entre Sherlock e Watson?  Até engraçado que seja assim porque declarações do elenco antes do lançamento do filme deixaram a entender que havia espaço para homossexualismo no enredo. Conservadores reagiram ferozmente…

Mas nem tudo são problemas no filme de Guy Ritchie. Sherlock continua usando sua lógica implacável para desmistificar a magia e nesse ponto há que se fazer uma concessão. Para explicar em detalhes o funcionamento da mente de Sherlock, o filme usa o recurso de passar duas vezes uma mesma cena, uma vez com narração de Sherlock, em câmera lenta, e depois na velocidade normal, que é aceleradíssima, bem à la Hollywood (e ao Guy Ritchie de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes) e nada a ver com um herói do século 19.

Jude Law está incrível como Dr. Watson. A sua noiva, interpretada por Kelly Reilly (a ruivinha da dobradinha “Albergue Espanhol”/”Bonecas Russas”), esbanja suavidade e dá um toque de delicadeza ao mundo de homens que fazem parte da história. A golpista Irene Adler, apresentada no filme como um amor mal resolvido de Sherlock, é interpretada por Rachel McAdams, que também está excelente em seu papel. Até o terrível Lorde Blackwood, vilão do filme, interpretado por Mark Strong, acertou em cheio no tom que deu ao personagem. Só quem deixa a desejar é Robert Downey Jr (prestaram atenção, votantes do Globo de Ouro).

Falta brilho à atuação deste novo Sherlock. Com os cabelos desgrenhados e uma maneira inconstante e enérgica de viver, ele foge do clichê da capa, chapéu xadrez, e cachimbo curvo. Não fala “elementar, meu caro Watson”, afinal essa frase jamais foi escrita por Conan Doyle (a base do roteiro é uma adaptação das HQs escritas por Lionel Wigram). Talvez Robert tenha ficado perdido, sem saber dosar o grau de loucura que devia colocar em seu detetive. Quanto seria aceitável? Quanto do Sherlock tradicional pode ser subvertido sem que a perda seja irreparável? Dúvida complexa.

Londres como cenário foi muito bem utilizada. Ver a London Bridge em construção, como local do duelo final é muito legal. Ver Sherlock pulando de uma janela do Parlamento, mesmo sem merchandising da Mastercard, não tem preço. Agora, a Londres do filme tem uma intensidade, uma quantidade de gente na rua, fazendo barulho e criando confusão que parece exagerada.

Há uma cena da explosão magnífica. Uma obra de arte. Incrível o trabalho de expressão corporal dos atores e a forma como a explosão foi sequenciada. Essa cena, junto com as cenas de luta que são mostradas em câmera lenta, deixa uma dúvida. Por que Guy Ritchie opta por uma edição tão acelerada, que lembra “Snatch – Porcos e Diamantes”, e para os momentos mais preciosos ele prefere a desaceleração? O ritmo acelerado dos filmes pode ser uma forma de mostrar o ritmo frenético da vida contemporânea, mas com certeza também é um recurso desesperado para prender a atenção do telespectador, que não tem tempo de refletir sobre nada sem deixar de acompanhar um diálogo ou de perder uma sequência de golpes. Recurso que pode fazer um Blockbuster, mas não faz um grande filme. Outros iguais sempre virão.

O final do filme adianta que uma continuação vem por aí. O que esperar? A premiação de Robert Downey Jr no Globo de Ouro (ele foi ignorado no Oscar) talvez faça com que o ator afunde-se mais ainda neste Sherlock Holmes sarcástico e violento. Do jeito que a coisa vai é capaz de Watson se unir a Sancho Pança e sair pelo mundo desafiando moinhos de vento enquanto Dom Quixote tenta lhes fazer ter algum bom senso e Sherlock vive um romance com Dulcineia…

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Roberta Ávila é jornalista e assina o blog Ficções da minha vida

9 thoughts on “Sherlock Holmes, de Guy Ritchie

  1. Antes de colocar os pés no cinema eu já esperava uma descaracterização do clássico Sherlock Holmes, por conta das declarações de Guy Ritchie que ainda na produção deixou bem clara a sua intenção de rever a história e adicionar velocidade e elementos marginais.
    Dessa forma, a opção de manter poucos laços com o passado apenas despertou a minha curiosidade quanto ao enredo e a atuação de Robert Downey Jr e Jude Law, sem instigar qualquer sentimento repulsivo ou pré-conceitos de resistência a mudanças drásticas na concepção clássica do detetive inglês.
    O detetive inglês e seu parceiro fiel serviram de inspiração para dezenas de variáveis, entre os quais se destaca o super herói Batman, que transformou o kit de investigação do clássico Sherlock em um cinto de utilidades, o que na nova versão tornou-se uma referencia da referencia, por meio da bem humorada interação em ciclo entre os personagens. O novo Sherlock é um ácido crítico observador, armado com comentários ferozes em ótima condição física. Uma mistura de médico e monstro, atormentado por problemas pessoais que servem apenas de aproximação do personagem a uma condição mais humana e menos racional e robótica. O vício do personagem ilustre de Conan Doyle foi substituído pelo alcoolismo, mas o humor negro aplicado transforma a cena dramática em um ensaio provocativo digno de um Bukowski, assim como a ação constante na trama e a violência típica de Guy Ritchie aproxima Holmes de uma versão ancestral de Tyler Durden.
    Para quem gosta de fotografia o filme não desanima no visual e surpreende pela riqueza de detalhes sem mergulhar em excessos e falta de bom gosto. Aos amantes de aventuras o ritmo do filme é crescente e empolgante e a dosagem de bom humor torna o filme obrigatório. Se Avatar é tido como o próximo Star Wars talvez o novo Sherlock Holmes seja a atualização de Indiana Jones. E que venha o próximo filme!

  2. Pois é, concordo completamente q o Guy Ritcher poderia ter colocado um outro nome no filme, mudado os nomes dos personagens… não tem a ver com o holmes dos livros, mas mesmo assim é um bom filme! divertido!! e pelo menos agora Ritcher não fez mais uma copia de Jogos trapaças e dois canos fulmegantes como ele vinha fazendo com todos os seus filmes… mas po, muito conservadorismo irrita!! isso de é ou não é assim… RELAXEM

  3. Roberta, fui ate olhar uma receita de sangria que o Mac publicou no blog dele e que eu ainda não fiz mas vou fazer, e ele diz algo assim la: vinho ruim, sangria ruim. vinho bom, sangria boa. Alguem vai me bater se eu fizer sangria com vinho frances? Isso eh soh pra dizer que adorei o filme e gostei do Downey ter ganhado o Globo de Ouro por sua grande atuacao. Abs

  4. Na verdade só tem dois “é errado”. A Roberta é bem crítica, concordo. Mas a moça tem bons argumentos. Críticos geralmente são assim mesmo – adoram falar mal do que a maioria gosta. Na minha opinião é só um sinal de inconformismo com o mundo. Nada contra este ou aquele artista. Eu curto o Sherlock irlandês, gosto do texto da Roberta e vejo críticas como algo engraçado. Geralmente me fazem gostar ainda mais das obras mal faladas… abs a todos!

  5. Primeiro você diz que é errado, depois alega que Ritchie não fez o filme como gostaria, de cima do seu ego fala em desfiguração, porque, me desculpa, mas isso me soa como uma reclamação da menina mimada que não viu um charmoso galã. Daí você enaltece um ponto pra terminar involuntariamente, ou de caso pensado, que seja, soltando um ‘nada a ver com o herói do século 19’. Decida-se! Ou você entendeu que o recurso usado foi pra demonstrar a rapidez com que Holmes pensa ou então você vai mesmo se apegar ao fato de termos uma segunda cena à la Hollywood. No mais, acho que com a revolução vivida pelo cinema você não pode esperar que os clássicos permaneçam iguais. Ou você vai me dizer que o maior defeito de algum filme é o som se propagando no vácuo?

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