The Weather Man, de Gore Verbinski

por Roberta Ávila

Ganância é bom. Essa é uma fala famosa do personagem Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas no filme “Wall Street”, de Oliver Stone. Pois bem, ganância é um dos ingredientes principais do estilo de vida norte-americano. Mas será que quem vive o sonho americano é feliz? Essa é a questão colocada pelo filme “The Weather Man”, que tem Nicolas Cage como o protagonista David Spritz. Spritz é um cara que seria invejado por muitos. É apresentador da previsão do tempo em uma emissora de TV de Chicago. Trabalha duas horas por dia, tem um salário gordo e faz sucesso. Mas ele paga um preço por isso.

Seu pai, Robert Spritz, interpretado por Michael Cane, é um premiado jornalista e David acredita que ele não respeita seu trabalho. Robert tem seus motivos. Assistiu David se dobrar às regras do jogo, alterando até mesmo seu sobrenome porque o editor do jornal achou que ficaria mais engraçadinho. E não é só isso. Vira e mexe ele está andando pela rua e alguém lhe atira um milk shake,  refrigerante ou qualquer outra porcaria do tipo na cabeça. No começo, David prefere pensar que isso é inveja por causa do seu trabalho ou implicância com o sobrenome engraçadinho ou com os jargões que ele usa para fazer a previsão, tão necessários para fixar a imagem do apresentador na memória da audiência, mas depois ele começa a criar novas possibilidades.

É inverno em Chicago e as pessoas não param de lhe perguntar na rua qual a previsão do tempo para a semana. E David não quer conversar com estranhos. Simplesmente não entende como alguém pode querer saber qual será o dia mais frio da semana em pleno inverno, já que todos os dias serão frios. Ele percebe quão inútil é o seu emprego. Ele nem sequer faz a previsão, ele apenas lê um texto na frente de uma tela verde em que vai ser projetado um mapa que ele não vê. Ele chega à conclusão de que ele é fast food, por isso lhe atiram fast food. E todo o glamour, todo o sucesso que teoricamente ele tem não faz dele uma pessoa menos miserável.

Tudo que ele realmente queria era se reconciliar com sua família. Separado e com um casal de filhos, ele quer voltar para a esposa Noreen, interpretada por Hope Davis, e queria ser um pai mais presente, mais eficiente para resolver as questões complexas pelas quais ele estão passando na adolescência. Ele queria ser capaz de fazer seu pai se orgulhar, mas se sente um fracassado.

A oportunidade de mudar tudo aparece com a chance de trabalhar como apresentador em Nova York, em um programa que é exibido em rede nacional e que tem um salário de mais de um milhão por ano.  David coloca todas as suas fichas nesse emprego, acredita que ele vai mudar tudo e, enquanto isso, descobre que seu pai tem câncer e apenas alguns meses de vida. A pressão dos telespectadores, cobrando que ele seja o homem do tempo em tempo integral, o nervosismo com a chance de mudar de emprego e a difícil situação com a família levam David a fazer tentativas desesperadas de melhorar sua vida.

Boa parte dos filmes passam a imagem de que tudo na vida tem conserto, de que sempre é possível resolver os problemas e de que somos todos pessoas especiais. Se você está procurando um filme assim, que te deixe com uma sensação boa e uma mensagem bonita, não assista “The Weather Man”, que foi lançado em 2005 e infelizmente foi traduzido para o português como “O Sol de Cada Manhã”, quando o título óbvio de “O Homem do Tempo”, além de ser uma tradução literal faz muito mais sentido…

“O Homem do Tempo” é um filme em que as coisas não terminam bem. David tem sucesso, mas tem muitas coisas na vida que ele nunca mais vai ter. E a vida é assim. É ilusão achar que vamos ser plenamente felizes por qualquer motivo, seja um salário milionário ou um relacionamento afetivo ou familiar. E David, no fundo, sabe disso. Quando ainda era casado ele também não era feliz. Era menos infeliz, talvez, mas mais cobrado, se sentia cansado de ter que prestar atenção aos pedidos da família e acredita que talvez tenha destruído tudo um dia em que saiu para comprar molho tártaro e no caminho se destrai com uma bunda bonita e volta para casa sem o molho.

As pequenas coisas são mais importantes que as grandes coisas? Uma conquista, por mais que seja valorizada pela sociedade e faça de uma pessoa o exato perfil do vencedor, não a torna feliz e viver é complicado, difícil e, como diz o pai de David, sempre vai ser assim.

Como deu para perceber, “The Weather Man” tem um roteiro muito original, mérito para Steven Conrad. Não é um daqueles filmes que você já sabe como vai acabar ou consegue prever a resposta de um diálogo. As conversas são densas. Os pensamentos de David são narrados durante algumas partes do filme, e o interessante é ver uma produção alternativa, com um orçamento reduzido para os padrões hollywoodyanos (30 milhões de dólares) contar com gente famosa e competente como Nicolas Cage e Michael Cane, que por sinal está fabuloso e dá um toque de classe a cada cena em que está presente.

O diretor é Gore Verbinski, que tem em seu currículo a trilogia milionária “Piratas no Caribe” e filmes como “O Chamado”, “A Mexicana” e “Um Ratinho Encrenqueiro”. Verbinski, que com certeza é um diretor plural, capaz de ter sucesso em vários gêneros, é mais um motivo para conferir o longa, que infelizmente paga o preço de ser uma produção lado B. Se você fizer uma busca no Google vai encontrar pouca informação, principalmente em português, e vai achar sinopses terríveis, dizendo que “o filme acompanha um homem do tempo divorciado que tenta fazer as pazes com a mulher e os filhos”. Esqueça as simplificações ridiculas e procure “The Weather Man”, um filme inteligente que vale a pena você ver.

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Roberta Ávila é jornalista e assina o blog Ficções da minha vida

3 thoughts on “The Weather Man, de Gore Verbinski

  1. Grande filme, genial mesmo, Michael Caine está ótimo e até o Nicholas Cage se saiu bem. Este filme parou em uma lista de filmes que fiz anos atrás. É um grande filme e pouca gente sabe da beleza que ele tem, muito bom mesmo.

    ótimo texto também.

  2. Não diria “chato pra caralho”, diria interminável e cansativo. Mas tem suas qualidades.

    Não gostei da atuação do Nicolas Cage. Diferentemente de atuações foderosas que o mesmo teve em filmes como Despedida em Las Vegas, Adaptação, O Senhor da Guerra, dessa vez estava monótona(!!!).

    No geral é um filme mediano do tipo sessão da tarde pra ser assistido sem grande atenção; O escritor da resenha acima se empolgou demais com esse filme. Crise de meia idade talvez.

    Fui…

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