Entrevista: Autoramas (2010)

por Murilo Basso

Quer saber a real? “Hoje em dia, o mercado independente do jeito que é, grande parcela disso aí é “culpa” do Autoramas”, dispara Gabriel Thomaz, defendendo a parcela de sua banda na batalha pelo desenvolvimento de uma cenário que evoluiu muito nos últimos dez anos, e do qual o Autoramas é referência.

Talvez não só pela música, mas também pelas atitudes: enquanto alguns continuam insistindo em procurar nichos de mercado e correr atrás de tendências o trio segue fazendo rock sem abandonar seus princípios. “Fomos um dos primeiros a tocar em festivais em Cuiabá, em Rio Branco, Porto Velho, Goiânia”, lembra o vocalista, que dá a receita: “Vamos fazendo as coisas do nosso jeito”.

Lançando seu novo trabalho em CD e DVD, “MTV Apresenta: Autoramas Desplugado” (o áudio pode ser baixado gratuitamente no projeto Album Virtual, da Trama) os cariocas abrem novas possibilidades ao seu universo sonoro, mas, ao mesmo tempo, continuam coerentes com o que têm feito durante mais de dez anos. E assim seguem, respeitados, sem parar de fazer shows e conquistando novos fãs por onde passam – sejam eles “tiozinhos”, patricinhas ou indies.

O S&Y conversou com Gabriel Thomaz (voz / violão) e Bacalhau (bateria) em sua última passagem por Curitiba. Na pauta turnês internacionais, influências e todo o processo de concepção do mais novo trabalho do grupo. Confira:

Como foi a escolha do repertório?
Foram as músicas que fomos testando e ficaram boas no formato. Tivemos até o cuidado de não mexer muito nas canções que acreditávamos já ter uma versão definitiva. Em algumas músicas gostaríamos de fazer arranjos mais elaborados, mais bonitos. Então pegamos “Copersucar”, “A História da Vida de Cada Um”, “Hotel Cervantes”… Músicas que achávamos que poderiam ficar melhores. Até na hora de pensar no formato em si, já estávamos pensando em fazer algo diferente, que pudesse acrescentar na história do Autoramas. Pensamos em como poderíamos fazer isso e acabamos chegando nesse repertório.

É perceptível em cada faixa que há um cuidado especial. Dá realmente a sensação de que vocês tentaram adaptar cada uma delas da melhor maneira possível…
Exatamente. Eu até acho as versões de agora melhores que as originais, de certa forma ficaram mais bem acabadas.

Várias bandas já passaram pelo “projeto acústico”, mas no Demosul eu tentei encontrar uma palavra que resumisse bem o acústico de vocês e conclui que ficou bem “Autoramas”. Concorda?
Não queríamos perder a essência. O padrão para fazer um acústico é pegar alguns sucessos, fazer uma versão “violozãozinho”, uma bossinha e não era isso que queríamos. A gente queria fazer um novo trabalho baseado nesse formato. Não era simplesmente “vamos tocar sentadinhos”. O trabalho até não se chama “Acústico” porque falamos para várias pessoas que iríamos fazer um acústico e nos disseram “pô, mas sentadinhos” (risos). A pessoa já pensa na palavra “acústico” e logo vem a idéia “vai estar sentadinho, vai ter uma orquestra”, algo pré-concebido, que se formos mexer nisso vamos ter que ficar explicando tudo e vai ser um saco (risos)… Então, resumindo: “Autoramas Desplugado” é uma outra parada; o nosso jeito de fazer.

E a construção de todo o clima para o Acústico? Vocês gravaram com platéia, mas num local pequeno. A proposta era mesmo por algo mais intimista?

Poderíamos escolher fazer sem platéia e até pensamos nisso, mas é legal estar ali com a galera. Sempre ouvimos falar, as pessoas comentavam conosco que o forte do Autoramas era ao vivo. Então pensamos nisso como mais um ponto a nosso favor. Vamos fazer, vamos botar uma galera ali curtindo, cantando junto conosco porque é um outro astral. Com a galera interagindo é diferente.

E o resultado final, vocês gostaram? Soa exatamente como vocês queriam?

Maravilhoso, cara, muito bom (risos). O trabalho do Fernado Fischergold (gravação, mixagem) me impressionou. E ele fez exatamente da forma que queríamos.

Tem algumas músicas que saem somente no Álbum Virtual, outras somente no CD. Quais os motivos?
Só o “Samba Rock do Bacalhau”. Cara foi muito louco, estávamos tocando essa música meio que de brincadeira e então gravamos só o áudio, ela não foi filmada. Era um intervalo, o Fernando gravou, nós gostamos e por isso usamos depois. Não estava repertório, entrou assim aos “40 e 10” do segundo tempo (risos).

E como surgiu “Samba Rock do Bacalhau”?
Pô, demorou para o Bacalhau ganhar uma homenagem. E a letra fala exatamente das qualidades do Bacalhau. É só ouvir. (risos)

E a idéia de lançar primeiro virtualmente, tem algum motivo?
Tem um único motivo: a fábrica atrasou a entrega dos CD’s e DVD’s. (risos) Tinham várias coisas com data marcada: a estréia do especial na MTV, o lançamento do álbum virtual e tinha a data do lançamento do CD e DVD. Então acabamos cumprindo o que era possível.

E para você, como foi cantar pela primeira vez “I Saw You Saying”? Por que você demorou tanto para fazer isso?
Gabriel: É engraçado, o “Desplugado” foi a situação perfeita para fazermos a nossa versão.

Bacalhau: Acho que não só para “I Saw You Saying”, como também para várias outras músicas do Autoramas que não vinham tendo tanta visibilidade. Com o “Desplugado” conseguimos dar luz a elas. “Sonhador”, “Copersucar”, “Música de Amor”…

Gabriel: “Música de Amor” e “Copersucar” já não estavam mais no show. Estavam meio “esquecidas”, destoando do repertório. E são músicas que nunca deixamos de gostar e com o “Desplugado” conseguimos trazer novamente. “I Saw You Saying” eu sempre quis tocar, mas ficava preocupado em tocarmos ela e parecer cover, entende? Isso me incomodava, era algo que eu não queria. Muitas pessoas até falavam: “Coloca a música! Qual é o problema?” e eu não me sentia a vontade. Agora rolou. Um dia ensaiamos e ficou legal. É esse o lance: ficar a vontade. Porque ficar fazendo algo que você não gosta, ter uma banda para fazer algo que você acha palha, não rola não é? Se achávamos ruim, não tinha motivo para fazer. Mas agora ficou legal e a música entrou no nosso repertório.  É até engraçado, tem uma molecada que não sabia que a música era minha e agora ficou sabendo. Pô, bicho, olhando agora esse foi o momento certo. Imagina se gravamos no “Teletransporte”? Meu, nada a ver né? (risos)

Fiquei sabendo que certa vez você comentou: “Essa (música) do Walverdes (“Eu Vou Vivendo”)… eu gosto tanto e acho tanto a nossa cara que considero nossa”…
Gabriel: Acho essa música, principalmente a letra, genial.

Bacalhau: O Mini nos entende. (risos)

Gabriel: Ele até já tinha feito outras coisas conosco. “Identificação”, que entrou no “Teletransporte”, a letra é dele. Além de um grande amigo nosso, eu o considero uma das figuras mais talentosas do rock nacional.

Bacalhau: É engraçado que o conteúdo da letra é uma coisa que é bem Autoramas.

Gabriel: A primeira vez que eu ouvi essa música, ela é bem escondida, é a penúltima música do “Anticontrole”, eu ouvi e me emocionei (risos). Pensei “isso tem muito a ver comigo, cara”. Eu gostaria de ter escrito essa letra se tivesse a genialidade do Mini. Cheguei a comentar com ele: “Cara, tem uma música do Walverdes que eu acho um clássico”. Ele perguntou: “Qual? ‘Novos Adultos’?”. E eu: “Não cara! ‘Eu Vou Vivendo’. Essa letra é foda!”. E o arranjo deles é uma coisa meio grunge sabe? Que é uma coisa que eu vivi muito quando era moleque, é algo muito natural.

Tem outras canções que você sente a mesma coisa?
Gabriel: Pô, tem uma porrada de coisas que eu curto pra caramba. No segundo disco gravamos “Rio São Paulo”.

Bacalhau: “Bom Veneno”, que é do Renatinho (Canastra)…

Já no começo do ano vocês têm mais uma turnê pela Europa. Como você acha que o público de lá irá reagir ao novo formato?
Para falar a verdade, ainda estamos decidindo se vamos fazer o elétrico ou o acústico. Acho até que vamos acabar fazendo os dois. Bicho, pra mim, continua sendo Autoramas. A diferença é técnica. É outro jeito de tocar, outro jeito de cantar, mas o astral é o mesmo. Dias atrás eu entrei na comunidade do Autoramas no Orkut e tinha um cara falando “Desplugado o caralho, eu quero é rock!”. Mas pô meu, é rock! (risos). O cara tá com preconceito (risos).

Dá para dizer que o público do Autoramas mudou desde “Stress, Depressão e Síndrome do Pânico”?
Mudou sim. Tem muita molecada nova, cada vez que fazemos algo novo eles aderem. E isso é muito legal, não temos aquele público, aquela galera de dez anos atrás, renova sempre. Agora, na Europa é engraçado, vai moleque e vai neguinho bem mais velho!

Bacalhau: Tem um senhor na Bélgica que sempre vai ao nosso show. Sempre. Ele gosta de tirar fotos e vem falar com a gente sempre! A galera bêbada e ele lá, ligadão com a câmera dele! (risos)

Como foi chegar até aqui, no acústico?
O Autoramas é nossa profissão, então sempre buscamos fazer o trabalho bem feito para que a tenhamos convites para fazer shows, para ganhar nosso cachê, enfim, para tornar tudo viável. E tem muita coisa legal que a gente já plantou e colheu. Chegar lá fora e os gringos falarem que o nosso som é original é algo que aumenta muito nossa auto-estima musical – aqui sempre nos colocavam no “ah, é surf music” ou “ah, é rockabilly”. E meu, o público de rockabilly não vai ao show do Autoramas (risos).

E hoje em dia, o mercado independente do jeito que é, grande parcela disso aí é “culpa” do Autoramas. Nós fomos uma das primeiras bandas a tocar em festivais em Cuiabá, em Rio Branco, Porto Velho, Goiânia… Somos a banda que mais vendeu discos na Monstro, que hoje é referência quando se fala em independente. E somos independentes mesmo. Tem neguinho meio desinformado que relaciona banda independente com banda iniciante e, cara, não é o nosso caso (risos). Então vamos fazendo as coisas do nosso jeito, na base do “faça você mesmo e vamos embora!”.

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MTV Apresenta Autoramas Desplugado, Autoramas (CD Promo)
por Marcelo Costa

Quinto álbum de uma discografia de respeito, “Autoramas Desplugado” não segue o modelo exagerado que costuma marcar grande parte das produções do gênero. Gabriel (violão), Bacalhau (bateria) e Flavia (que estreia em álbum no baixolão após mais de 20 meses de estrada com a banda) partem para o abraço sem frescuras em um disco que tem clima de festa rocker.

O repertório recupera ótimas baladas rock como “Copersucar”, “Música de Amor” (com participação de Erika Martins) e “Sonhador” (com Frejat cantando e tocando guitarra) e as coloca ao lado da já clássica “A 300 Km/h” (com Big Gilson dando um show na slide guitar) e resgata “Galera do Fundão” do repertório do Little Quail (ex-banda de Gabriel) e “I Saw You Saying”, dos Raimundos (parceria de Gabriel com Rodolfo).

O rrrrrrrrrrrrock ferve com a empolgação da genial “Rei da Implicância” e das incendiarias “Hotel Cervantes“ (com direito a castanholas de Jane DeLuc) e “Jogos Olímpicos”. Sem contar a grande versão de “Vou Vivendo”, original do Walverdes, retirada do brilhante “Anticontrole”. Ficou tão Autoramas que parece que Mini compôs a canção a pedido de Gabriel.

“Stress, Depressão e Sindrome de Pânico” (2000) cedeu apenas uma música para o projeto. O subestimado “Vida Real” (2001) comparece com três músicas enquanto duas de “Nada Pode Parar os Autoramas” (2003) e três de “Telestransporte” (2007) marcam presença. Duas músicas inéditas marcam o lançamento: “Gente Boa” e “Samba Rock do Bacalhau”, esta última exclusiva do projeto Álbum Virtual.

“Autoramas Desplugado” também ganha versão em CD (sem “Samba Rock do Bacalhau”, mas com “No Claro e No Escuro”, de Reginaldo Rossi) e DVD, (com quatro músicas a mais fora os extras, que trazem ensaios do projeto), que surge recheado de curiosidades como versões para “Love Me”, de Elvis Presley, “Let Me Sing, Let Me Sing”, de Raul Seixas, “Superstar”, de Erasmo Carlos e “Blue Monday”, do New Order.

Para a mítica gravadora britânica Rough Trade, o Autoramas é “a mais importante banda independente do Brasil”. Eles estão certos, e este acústico é uma prova concreta do poder de fogo do trio.

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Leia também
– Ao vivo: as duas faces do Autoramas, por Marcelo Costa (aqui)
– “Teletransporte”, Autoramas, por Marcelo Costa (aqui)

5 thoughts on “Entrevista: Autoramas (2010)

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