Cinema: Julie e Julia

por Marcelo Costa

Em certo momento da comédia gastronômica “Julie & Julia”, o personagem de Meryl Streep comenta em uma mesa de restaurante em Paris: “Você consegue imaginar que os franceses comem comida francesa todos os dias?”. Para uma norte-americana, cujo país era (e ainda é) famoso pelo desleixo na cozinha, saborear os pratos divinos da culinária francesa era um deleite, e transformou-se em uma obrigação: compartilhar com as donas de casa dos Estados Unidos as famosas receitas francesas em um livro.

Julia Child revolucionou a culinária norte-americana quando lançou, em 1961, o livro “Mastering the Art of French Cooking” (co-escrito por Louise Bertholle e Simone Beck), em que reunia 524 receitas francesas. Cinqüenta anos depois, Julie Powell, uma mulher à beira de completar 30 anos, e em crise profissional e pessoal, decide dar uma sacudida em sua vida desafiando-se: Julie planeja fazer as 524 receitas do livro de Julia em 365 dias, e – tempos modernos – decide registrar sua saga culinária em um blog.

Nora Ephron – que já foi indicada ao Oscar pelos roteiros de “Harry & Sally” e “Sintonia de Amor” assim como ao Framboesa de Ouro por “A Feiticeira” – teve uma sacada excelente ao juntar em um mesmo filme as histórias tremendamente particulares destas duas mulheres. Baseado no livro “Julie & Julia”, de Julie Powell, e “My Life in France”, de Julia Child e Alex Prud’homme, “Julie & Julia” encanta ao mesmo tempo em que deixa o espectador com água na boca.

Há traços de comédia de costumes, principalmente nos trechos em que Julia Child desafia o mau-humor parisiense com seu melhor sorriso, enquanto Julie Powell desenha uma sociedade (atual) umbiguista e entregue ao consumismo e ao dinheiro – vide suas “melhores amigas”. Por mais piegas que a frase possa soar (e o filme consegue distanciar-se bem da pieguice), tanto Julia quanto Julie foram salvas pela comida, e o filme transpira suavemente as escolhas destas duas mulheres modernas.

Julia enfrentou a masculinidade da lendária academia de gastronomia Le Cordon Bleu, em Paris, e a ira de sua diretora, que em certo momento alfineta: “Você nunca será uma boa cozinheira, mas tudo bem, os norte-americanos nunca vão perceber”. Julie se dedica tão intensamente ao seu projeto pessoal que vê seu casamento desmoronar sem que ela possa fazer muita coisa além de assassinar lagostas e aprender a fazer um dos principais pratos do livro, o beef bourguignon.

“Julie & Julia” é daqueles filmes cuja história, tradicionalmente hollywoodiana, apresenta uma protagonista que sofre horrores para alcançar seu objetivo. Amy Adams (Julie) perde em comparação para Meryl Streep (Julia) não apenas porque a segunda é uma colecionadora de indicações ao Oscar (são 15 até este ano com duas estatuetas em casa), mas também porque o roteiro favorece Streep, cujo personagem cheio de maneirismos deliciosos enfrenta o mundo, enquanto o problema de Julie é ela mesma.

No entanto, a grande sacada do filme é a mensagem deliciosamente positiva de Julia Child sobre a leveza da vida e da cozinha. Julia se dá ao direito de errar, e brincar com isso. Ela se diverte, assim como diverte o espectador. Em uma das cenas clássicas do programa que Julia apresentava em uma rede de televisão nos Estados Unidos, ela tenta virar uma omelete na frigideira, e boa parte cai fora. Ela junta o que caiu de volta a frigideira e comenta: “Se você está sozinho na cozinha, não tem problema”.

Julia Child fez tanto sucesso com seu livro e seu programa de TV que sua cozinha virou patrimônio cultural dos Estados Unidos, e está exposta no Instituto Smithson, em Washington. Julie Powell, por sua vez, recebeu diversos convites para transformar seu blog (http://blogs.salon.com/0001399/) em livro, aceitou, e fez um sucesso enorme. Ambas entregaram-se a uma paixão que mudou suas vidas. “Julie & Julia” ilumina a trajetória especial destas duas mulheres em um retrato delicado e sonhador. Veja o filme já pensando em qual restaurante ir após a sessão.

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Marcelo Costa é jornalista e editor do Scream & Yell

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Leia também:
- “A Feiticeira”, de Nora Ephron, por Marcelo Costa (aqui)

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