Entrevista: Leandra

Por Danilo Corci

Alguns gêneros musicais tendem a se tornar referência durante uma época e depois se encolhem confortavelmente num nicho que garante sua sobrevivência. É assim com o heavy metal, que tem no Brasil um de seus maiores consumidores enquanto no resto do mundo é praticamente irrelevante. Também é assim com o gótico, de parca repercussão, mas com um séquito grande na Alemanha e leste europeu.

Então quando você pensa numa cantora que nasceu na Bielorrússia, fugiu ainda menina de seu país em pleno colapso da União Soviética para se refugiar na Alemanha, então, com certeza, você está pensando no cerne deste nicho.

Obviamente, o gótico é um estilo caracterizado por excessos, dramas e muita maquiagem. Então Leandra pode ser descrita como um exemplar típico da linhagem. A cantora, que esconde seu verdadeiro nome – faz poesia como Unza Glums e atende por Ophelia Dax quando toca com a banda Jesus on Extasy -, lançou “Metamorphine”, seu álbum de estreia em 2008, onde onze canções resgatam um jeito de fazer música que andava com crise de criatividade. Não que isso seja algo problemático, afinal ser criativo nunca foi um mérito específico do gótico. Mas Leandra, que lê Carlos Castañeda e Douglas Adams e é professora de piano, além de bem-humorada, conseguiu dar vida ao soturno gênero.

Mas de Leandra não espere a farofa do Evanescence, nem Marilyn Manson. Seu jeito de ver o gótico – rótulo que recusa, aliás -, está mais para o Switchblade Symphony do que qualquer outra coisa. Isto é um alento e tanto. Entusiasmado com o disco, aproveitei para fazer uma entrevista, via email. O resultado você confere abaixo.

Leandra e Ophelia Dax. Qual é a sua verdadeira história?
Minhas aparições públicas consistem nas duas (claro que minha vida privada tem muito mais personagens). Leandra é minha parte introvertida que absorve cada coisinha do mundo. A natureza é sua mais intensa inspiração. Ophelia Dax é minha extrovertida, meu rock n’ roll. Ela é vulgar e adora dançar em mesas em todas as festas. Mas a única coisa que elas tem em comum é viver como se não houvesse amanhã.

Lendo um pouco sobre você na internet, descobri que você teve uma formação clássica bem sólida em sua infância na Bielorrússia. Como foi isso?
Não olho para isso como uma “experiência”. Foi o que vivi. Mas devo dizer que a educação em toda União Soviética foi muito mais restrita e havia muita competição. Você era treinado para ter apenas um objetivo: sucesso e carreira. Não havia festas ou bebedeiras ou coisas do gênero até a formatura! Então os jovens não perdiam o foco e podiam se concentrar para atingir os objetivos. Na Alemanha não é tão restrito e tenho de me segurar durante as aulas. E alguns de meus estudantes realmente precisam ser tratados com muitas regras (risos).

Outra coisa sobre sua vida. Você era criança num período turbulento, a queda da URSS. Isto, de algum jeito, influenciou o seu jeito de fazer música?
Uma pergunta bem difícil e interessante. Sim, me influenciou e influenciou o meu jeito de fazer música. Trabalhar com músicos da antiga Alemanha Oriental me fez sentir em casa. Todos pareciam ser os únicos e a única geração que experimentou a queda do socialismo. E o sistema nos ensinou a ser social e dividir nossas vidas ao invés de ficar sentado na frente de um videogame. Então eu me comporto neste “novo mundo” sabendo que existe um outro mundo que moldou meu caráter, de certa maneira.

Li em alguns sites a comparação de Leandra com Björk e Tori Amos. Desconsiderando os estilos musicais, a relação me parece bem distante. Concorda?
Também li. É uma honra ser comparada à Tori Amos e Björk, mas não as escuto tanto como, por exemplo, eu escuto Dimmu Borgir e Shakira.

Você tem uma voz linda. Você teve aulas de canto?
Eu nunca aprendi a cantar. No coral da escolha na URSS, a professora me disse que minha voz poderia fazer quebrar um copo, então ela não me levava para os concertos. Alguns depois disso, já vivendo na Alemanha, eu preparei uma serenata para o cinquentenário de meu professor de psicologia. Sua filha tinha de cantar, mas ela tinha tempo para ensaiar então eu tive de tocar e cantar! Depois de uma hora de cantoria, senti como se uma membrana tivesse estourado em minha garganta. Do nada, meu pai apareceu na sala de música e disse: “Uau, não sabia que tinha voz!”. Dali em diante eu apenas comecei a cantar.

Quais são suas principais influências?
Olhar para o mundo com olhos de criança. Natureza, experiências pessoais dramáticas e cada detalhe de minha vida cotidiana. Não sei se você conhece uma banda alemã chamada Reamonn, mas meses atrás eles resumiram minhas influências em apenas uma música: “Por que fazemos tudo tão difícil, essa vida é tão complicada até vermos através dos olhos de uma criança”. Estava tomando um banho, ouvi no rádio e pensei “Uau, sou eu!”.

Foi muito difícil gravar seu primeiro disco?
Foi difícil gravar coisas que estava ouvindo e compondo por anos. As pré-gravações do disco duraram três anos e a gravação final tinha de durar dois meses. Não é fácil produzir e gravar um disco sozinha. A parte principal do trabalho eu fiz no meu próprio estúdio, mas às vezes é fácil perder o foco ao trabalhar tanto tempo no mesmo material. Então gravei minha voz no estúdio de Chai Deveraux, do Jesus on Extasy, e mixei o disco com a ajuda do ouvido de Oli, do Letzte Instanz. Tinha de ser assim, senão meu senso de audição, que já estava estragado, não me permitiria produzir o disco por minha conta.

Se você tivesse de escolher uma música de “Metamorphine” para mostrar para o público brasileiro, qual seria?
Sei que a música brasileira é muito mais alegre do que qualquer uma de minhas músicas. Mas seu tivesse de escolher uma seria “Angeldaemon”, a música de piano sentimental que representa o disco de uma maneira especial.

Em vários lugares, e até para mim, você é tida como gótica. O rótulo de incomoda?
Você está certo. Apesar de eu saber que a cena gótica é uma das mais intelectualizadas, quero ser ouvida por muito mais gente. Minha música é apenas triste, não gótica.

Suas canções usam uma forte base eletrônica e muito piano, que criam uma textura única e diferente. Como é o seu processo de composição? Letras primeiro, música depois?
Tudo vem junto como um todo. Quando algo me atinge, ouço uma trilha sonora em minha cabeça. É totalmente instrumentalizada, então tenho de gravar. Meu maior medo é esquecer algumas partes do arranjo durante o tempo do processo de gravação. A letra vem com a trilha também, mas de um jeito diferente da música. Ouço sílabas e depois construo a letra. Surpreendentemente, as letras fazem sentido no final (risos).

Suas músicas tem uma sequência incrível de momentos tristes. A tristeza é bela pra você?
Não sou uma pessoa feliz, então se não usasse a música como uma válvula de escape para minha tristeza, então eu ficaria louca ou cometeria suicídio. Eu criei uma estabilidade que me deixa feliz no final.

Seus sonhos não são coloridos?
Você está falando de minha música “Coloured”. A música não é sobre mim. É sobre uma jornada onírica para um amigo meu que estava sonhando em preto-e-branco. Realmente isso me chocou muito e escrevi a canção para ele depois de acordar. Agora os sonhos dele são coloridos, espero.

“Son of Venus” é uma música linda. Pode me contar a história dela?
“Son of Venus” é a música que sem ela, “Metamorphine” não poderia existir. É a primeira música que escrevi para o disco. Naquele momento eu não sabia que ela estaria em um álbum. Eu havia perdido Danny, minha alma gêmea, meu melhor amigo e meu “muso”. “Son of Venus” era a trilha sonora que ouvia em minha cabeça enquanto olhava para o túmulo de Danny. Filho de Vênus era como eu o chamava. A música é uma espécie de despedida. Depois disso, eu escrevi músicas diferentes sobre ele e dai pensei em criar uma álbum completo.

E a história de “Tyberi Folla”? A língua não existe? O que é afinal?
“Tyberi Folla” eu escrevei quando pegava carona através da Irlanda para tentar encontrar paz interior depois de perder o Danny. Enquanto eu andava pelas montanhas de Kerry, olhei para aquela gigantesca e poderosa paisagem e, instantaneamente, apareceu uma imagem em frente aos meus olhos: dois seres astrais zumbindo pelo límpido e claro ar da montanha: um estudante e um professor. Eu escutava o que eles cantavam, mas não haviam palavras para descrevê-las, então apenas anotei as sílabas que ouvi na “trilha sonora”.

Suas canções tem elementos sexuais muito fortes. Concorda?
Sem dúvida. “Naked eyes”, por exemplo, escrevi para um homem que me dava um tesão enorme. Estava possuída. Uma noite não consegui dormi porque estava pensando nele, então tive de escrever a “trilha sonora”.

O que você tem ouvido?
Não gosto muito de ouvir música, isso me mantem livre das influências. Mas meu gosto musical é bem diferente das músicas que faço. Ouço Shakira e Justin Timberlake. E algumas vezes Cannibal Corpse e Mayhem.

Você poderia me indicar uma banda de sua terra natal a qual eu devo prestar atenção?
Arkona, a descoberta recente de minha gravadora, a Drakkar. É metal pagão russo, mas não só isso, eles misturam elementos do folk russo com os riffs virtuosos do metal e mudanças de ritmos progressivas. Sensacional, pra explodir a cabeça.

E como você consegue dividir seu tempo com a carreira solo e com o Jesus on Extasy?
Dividir meu tempo não é um problema. O problema é como dividir meu tempo entre os dois, estudar na faculdade e dar aulas de piano. Se eu pudesse responder esta pergunta, juro que responderia. (risos).

Futuro? O que podemos esperar? Um novo disco?
Escrevo novas música todos os dias e todas as noites. Mas vai levar um tempo até eu escolher as melhores para um disco novo. Na verdade, no momento, estou desesperada para terminar e passar nos meus exames na faculdade, comprar uma casa grande com meus amigos músicos e comer panquecas com eles.

http://www.myspace.com/leandrasphere

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Danilo Corci é jornalista e editor dos sites Speculum e Mojo Books

10 thoughts on “Entrevista: Leandra

  1. o heavy metal irrelevante no resto do mundo? o que diriam os fãs do gênero no Japão e nos países nórdicos, onde os shows sempre estão lotados? melhor tomar cuidado pra não enganar o leitor

  2. O Heavy Metal no mundo é irrelevante… Cuma, cara? Eu li isso? Ah, vá… Então, quer dizer que o mundo inteiro é a privada onde você escreveu esse texto? Já ouviu falar do Wacken Open Air, na Alemanha, campeão? Sei lá, uma platéia de setenta mil pessoas assistindo mais de uma centena de bandas em três palcos diferentes durante um fim de semana. Bloodstock Open Air?? Gods of Metal??? Holy in the Sky?? Festivais importantíssimos e sempre lotados. Joga no Google. Existem provavelmente uma centena de grandes festivais por aí. As bandas constroem sólidas carreiras, não duram um peido como as bandas de indie britânicas, cara. E, cá entre nós, é ótimo que o metal não sofra desse mal “ai, que super, uau, yuppie” que acomete os “jornalistas” que pagam de cult mas comem calango, comem merda. Um toque: Você quer ver o quão relevante é esse gênero? Vai no Metal-Archives. Uma enciclopédia virtual com uma database quase 100 mil bandas cadastradas, em todo o mundo. É interessante notar o desprezo com o qual o heavy metal, seus subgêneros e seus fãs são tratados pela “imprensa cultural” no Brasil. Eu vou martelar nessa tecla sempre. Até o New Yor Times já publicou matérias elogiosas a bandas de Heavy Metal, e aqui no Brasil, esse menosprezo todo, como se isso fosse música pra ralé burra, ignorante, sem cultura e analfabeta. Ah, vá… Vai ler um pouquinho mais, cara. Para com essa preguiça, não pensa que já sabe de tudo não. Claro, é um direito seu odiar Heavy Metal. Mas toma cuidado com o que escreve.

  3. Pois é Ricardo, continuo com a mesma opinião. Encher estádio até sertanejo enche em todos os estados brasileiros. Heavy metal, e sem julgamento de valor, se é bom ou não, é cultura de nicho, assim com o gótico, com apelo apenas em determinados países e só. É só ler no texto, mas pelo visto a paixão pelo metal não te faz ler corretamente 🙂

  4. Metal irrelevante? Eu só poderia ler isso no SY mesmo… rs.

    O Iron vem ao Brasil e toca em estádios. O R.E.M. vem ao Brasil e toca no Via Funchal. Claro: estamos falando de Brasil. Claro: são só dois exemplos, mas exemplos de duas bandas consagradas pelo tempo. E claro: não vou me estender nisso.

    Só mais um exemplo: você vê nas ruas mais gente com camisetas de bandas de metal ou de bandas ditas alternativas? Isso vale aqui e lá fora.

    Enfim, para variar, falta base, conhecimento…

  5. “É assim com o heavy metal, que tem no Brasil um de seus maiores consumidores enquanto no resto do mundo é praticamente irrelevante”

    O Danilo NÃO disse que é irrelevante e sim que praticamente e isso lá fora.

    Lá fora é tão pop (no sentido chulo) quanto quanto outro movimento e aqui é cultuado como “underground”. rsrsrs

    Síndrome Underground do “rockeiros” do Brasil bate forte.

  6. Mesmo não sendo muito afeito a metal, embora considere o AC/DC uma das dez maiores bandas de todos os tempos, nao acredito que o heavy metal seja praticamente irrelevante no mundo inteiro. acho que foi uma frase feita pra chamar a atenção e provocar esse debate. frase típica de jornalista paulistano…

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