Entrevista: Terminal Guadalupe

Por Murilo Basso

Era outubro de 2002 e o Terminal Guadalupe começava como um projeto, da maneira mais simples possível. Dary Jr. havia co-escrito o roteiro de um curta-metragem e, no meio do caminho, decidiu compor a trilha sonora. Quase sete anos, três álbuns de estúdio (destaque para “A Marcha dos Invisíveis”, de 2007, que esteve presente entre os melhores do ano em diversas listas, sites e revistas), um ao vivo e dois EPs depois a última formação anunciou a “separação”. Três meses se passaram e, ainda em meio ao turbilhão, o vocalista anunciou que seguiria com novos músicos.

Poucas reformulações deram certo, afinal, reinventar-se é para poucos. Na verdade podemos dizer que o número de artistas que conseguiram tal feito é mínimo. Sendo o mais preciso possível: “reinventar-se” é apenas para aqueles que de fato possuem algo a dizer. Funciona em alguns casos como, por exemplo, quando o que realmente importa após crescer e envelhecer em uma banda de rock é continuar fazendo o que lhe der na telha. Mas é preciso crescer conciliando liberdade criativa e maturidade. Maturidade musical que com o Terminal sempre impressionou pela entrega e pela maneira como sentimentos, desejos e sonhos eram abordados, sem soar clichê ou apelativo. Afinal de que adianta um discurso que não te emociona? É preciso, antes de tudo que a música funcione. E com o TG sempre funcionou.

Segundo Dary, a volta aconteceu devido a pedido de amigos e fãs, mas o vocalista revela que o ritmo será menos intenso. Paralelo a isso, todo o material gravado com as formações anteriores foi disponibilizado para download na página da banda na Trama Virtual. Agora, nesta nova fase, a idéia é “buscar pontos de intersecção das nossas raízes, mas sem diluir regionalismo e fazer macumba para turista” diz Dary. No final das contas, espere qualquer coisa, menos “cururu elétrico ou siriri – core”. O recado está dado.

O que ocasionou a “separação” da antiga formação?
Se a banda era um quarteto e três saíram, não houve separação, mas abandono… (risos) O que tentei foi compreender a impaciência dos ex-integrantes. Aos fatos: estava sem tempo para me dedicar ao Terminal Guadalupe como antes, afinal, a vida real me obriga a pagar as contas e a cuidar do meu filho recém-nascido; além disso, a gravação com Roy Cicala e Apollo 9 ficou muito, muito aquém das nossas expectativas e das próprias canções. Desanimamos. Há, ainda, o desgaste natural da relação, o que ensejou mudanças. O Allan queria cantar mais, escrever suas próprias letras, enfim, nas palavras dele, “se livrar da dependência” – me senti uma droga (risos). Achei normal que os outros dois (Luciano Aires, o Marano, e Fabiano Ferronato) o seguissem. Como são bons músicos, o som desse novo grupo será dos melhores. Minha curiosidade se restringe apenas ao discurso que virá do trio. Particularmente, torço muito pelo Allan. Convivemos quase diariamente por seis anos. Foi o irmão mais novo que nunca tive; aquele a quem pude apresentar discos, livros, filmes, bares, mulheres (risos)… Tenho um carinho enorme por ele e sua família, que também me acolheu. Espero que o Japa faça boas escolhas e toque com quem realmente estiver à altura de seu talento. Se for com Marano e Fabiano, estarei tranqüilo. Marano é um excelente músico, dá credibilidade a qualquer banda. E Fabiano, sem dúvida, é um dos três melhores bateristas do rock nacional. Poucos tiveram o privilégio de tocar com alguém assim. Acho que todos eles também se orgulham de terem passado pelo Terminal Guadalupe. Ser “ex-TG” é uma grife (risos).

Já são seis anos de carreira. O que mudou no Terminal Guadalupe? De que forma toda a história da banda vai influenciar nesta retomada?

Entre gravações oficiais, ao vivo e demos, as formações anteriores deixaram 41 canções. Não é pouco. Fica a obrigação de manter o padrão de qualidade que o Terminal Guadalupe atingiu a cada novo trabalho. A evolução foi constante. E é evidente que essa trajetória, vitoriosa até certo ponto, vai influenciar nos trabalhos seguintes. Eu estou comprometido até os ossos com o novo disco. Os esboços são animadores.

Como foi feita a seleção dos músicos?
O mais importante era encontrar quem compreendesse a minha realidade de pai de família assalariado e com pouquíssimo tempo livre. Consegui. A formação que eu sonhara até chegou a ensaiar, mas as nossas agendas pessoais se revelaram incompatíveis. Uma pena. Só voltei efetivamente a tocar depois de reencontrar um músico com o qual não tinha contato havia 11 anos – Cláudio Farinhaque, guitarrista. Ele não só se tornou um grande instrumentista como chegou com banda pronta ao lado do Phill (baterista) e do Diogo Roesler (baixista), também ótimos músicos. Restava encontrar um cara mais chato do que eu para garantir entrevistas polêmicas. E, ato contínuo, o Luiz Alberto Moura (guitarra) entrou no Terminal Guadalupe… (risos) Brincadeira, o Luiz canta muito, toca bem e está à frente do Lumière, um dos novos grupos mais instigantes do rock nacional. Estou muito feliz e relaxado na companhia deles. Fazia tempo que isso não acontecia.

O que será feito com o antigo repertório? Ele realmente não será mais tocado?
“Burocracia Romântica” foi eleita uma das 10 músicas mais importantes da década para o rock curitibano. “Lorena foi embora” está na recém-lançada coletânea digital “Sacolão”, da gravadora Deckdisc. Por serem canções de assinatura, sempre estarão no repertório. As outras ainda serão tocadas neste ano. Devemos incluir duas ou três músicas novas no show que faremos no Teatro Guairinha depois do inverno, assim que a paranóia da nova gripe terminar. Essa apresentação vai virar especial de TV e, provavelmente, DVD, o primeiro da banda. Então encerraremos essa fase de transição e naturalmente o que vai prevalecer é o novo material.

Com um novo repertório e uma nova formação pode se esperar algo como um novo começo?
Certamente. São os músicos mais jovens da história da banda, todos multinstrumentistas, com tendências que vão do pop ao experimental, do rock clássico ao alternativo. Temos pouco tempo, é verdade, mas vamos nos concentrar em quebrar nossos próprios paradigmas e ousar bastante.

Buscando referências no rock nacional dos anos 80 e na ‘barulheira’ que foram os anos 90, os temas presentes na música do TG sempre se dividiram bem entre relacionamentos e política, por exemplo. Agora, o que pode mudar?

Rapaz é como o cinema de Ken Loach: até em filme de amor se observa o mundo. Lou Reed também fala por intermédio de suas canções, embora eu esteja mais para Billy Bragg. Não consigo agir de outra forma. Nunca me imaginei compositor de músicas sobre festas, orgias, carrões, de apologia às drogas ou ao álcool. Nunca. Saí do fim do mundo, passei fome, paguei meus estudos, exagerei na autoconfiança, quebrei a cara, casei várias vezes e me tornei pai de família com orgulho. Até poderia, mas não me dou o direito de falar bobagem. Sobre a sonoridade, vamos buscar pontos de intersecção das nossas raízes, mas sem diluir regionalismo e fazer macumba para turista. Sempre tive a felicidade de tocar ao lado de músicos tecnicamente respeitados e esteticamente ousados, mas com bom senso. Não espere cururu elétrico ou siriri-core.

E o que podemos esperar do TG já para os próximos meses?
Além do DVD, vamos abrir para o Pouca Vogal (nova banda de Humberto Gessinger) em Curitiba. Depois, estão previstos shows no interior do Paraná e de Santa Catarina, mais uma esticada a Salvador no Natal. A gente deve gravar o novo álbum no começo de 2010. Outro projeto é a apresentação baseada nos dois últimos discos da Legião Urbana, jamais tocados ao vivo, numa homenagem aos 50 anos de Renato Russo.

Desde a estréia em 2003, com Burocracia Romântica, até agora, o que mudou em Curitiba – musicalmente falando?
No recorte pop-rock da cena, se pensarmos em carreira e viabilidade comercial, é possível dizer que as bandas realmente promissoras cometeram erros estratégicos ou calcularam mal seus passos. A Poléxia, por exemplo, deveria ter ido embora para São Paulo em 2005. Os meninos estavam no gás, abriam para grupos grandes e tinham um baita disco de estréia, “O Avesso”. Me aponte uma banda que tenha um letrista como o Dudu e um vocalista como o Rodrigo. Difícil, hein? Apesar disso, ficaram em Curitiba e agora, infelizmente, decretaram o fim do grupo. Nós também erramos. 2007 era o nosso ano e, por arrogância, ficamos por aqui, como se alguém iluminado viesse nos buscar.

Com exceção de Mordida e Criaturas, que evoluíram bastante, as melhores ou mais conhecidas formações não trouxeram novidades. É um hype aqui, um burburinho ali, mas música, que é bom, nada. Tivemos factóides, mas não trabalhos consistentes. Diedrich & Os Marlenes, ótima banda, é outra exceção que confirma a regra. Destaco ainda Supertônica, Trivolve e Bardot em Coma, o mais interessante da safra atual. Vadeco & Os Astronautas e Nuvens arriscam outra linguagem e correm por fora, mas sabem dialogar com o mercado, o que se percebe nos shows bem produzidos. Minha esperança de arrebatar o grande público está na Anacrônica. O álbum de estréia é o melhor já feito no pop-rock curitibano. Sabonetes também tem boas chances de emplacar. Porém, hoje posso afirmar, sem erro, que duas das principais bandas paranaenses estão no interior: Nevilton e A Inimitável Fábrica de Jipes. Com orgulho, sou “padrinho” de ambas há alguns anos.

Finalizando, bons meninos continuam indo para o inferno?
Os bons meninos crescem fortes, bonitos e saudáveis. Os maus meninos, errados, mimados, viram plagiadores eunucos que pregam no limbo virtual para meia dúzia de ressentidos (risos). Eles já vivem no inferno: a irrelevância.

Foto: Liliane Callegari / Scream & Yell

Leia também:

– Raridades do Terminal Guadalupe para download gratuito, por Marcelo Costa (aqui)

6 thoughts on “Entrevista: Terminal Guadalupe

  1. Assisti o show do TG aqui em BH em 2007, no Garimpo, e é como Dary diz: Fabiano é puta baterista, a dupla das guitarras. Alan e Lucas, arregaçam, e o baixo do Ruben é galopante.

    Tenho o disco Marcha dos Invisiveis (que aliás ouço agora). Bandaça. Pelo que parece separação que vai gerar bons frutos, afinal duas boas boas bandas melhor que uma.

    Arrebentem e passem por BH quando puder.

  2. Ótima entrevista!
    Dary sempre falando o que dá na telha e dando a cara à tapa. O cara é mesmo polêmico.. ainda bem. hahha..
    Bardot em coma o mais interessante da safra atual?? Espalhe isso, por favor! hahaa..

    Vida longa ao TG!!!

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