“Rebobine, Por Favor”


Por Roberta Avila

Sabe quando acaba a luz e você brinca de projetar sombras nas paredes? A falta de energia acaba mostrando que a presença da televisão ali, ligada na sala o tempo todo, com o jornal do pai, a novela da mãe e sabe-se o quê mais, acaba sendo uma imposição também. O que se perde com isso é muito mais do que o programa favorito, mas o contato humano e o exercício da criatividade. Essa é a teoria de “Rebobine, Por Favor” (Be Kind, Rewind), novo filme do francês Michel Gondry, cujo currículo inclui “The Science of Sleep” (inédito no Brasil) e a dobradinha assinada pelo roteirista Charlie Kaufman, “Natureza Humana” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”.

“Brilho Eterno” conquistou uma legião de fãs – além do Oscar de Melhor Roteiro Original para Kaufman –, mas quem for ao cinema esperando uma reedição da história talvez saia decepcionado. Como explicou em entrevista no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, Gondry não tem a intenção de passar a vida repetindo uma fórmula de sucesso. Ele prefere o desafio de se reinventar a cada novo trabalho, mas a questão que o move é a mesma: que papel a tecnologia tem em nossas vidas?

A partir daí ele ilustra a impossibilidade de mecanizar as relações humanas, de reprimir sonhos e sentimentos e a dificuldade que algumas pessoas têm em se adaptar ao capitalismo selvagem das grandes redes e blockbusters. A premissa é autobiográfica. Gondry se recusa a assistir televisão em casa, sendo sujeito passivo de imagens que não escolheu ver e usa o aparelho apenas para reproduzir filmes. Prefere o papel ao computador. Já disse não a Hollywood porque queriam usar seu nome como um rótulo cool e lhe ofereceram roteiros cheios de clichês estúpidos, como o cara rico fabuloso e o infeliz e risível cara sensível.  

Em “Rebobine, Por Favor”, Jerry (Jack Black) e Mike (Mos Def) são encarnações dessas reflexões. O filme se passa ao lado da estrada de ferro em Passaic, Nova Jérsei, uma cidadezinha pacata e decadente. Jerry é um mecânico que trabalha em um ferro-velho e mora em um trailer ao lado da central elétrica da cidade. Boa parte do tempo ele passa na locadora de fitas VHS que dá nome ao filme incomodando o Sr. Fletcher (Danny Glover), dono do negócio, e arranjando problemas para Mike, único funcionário da loja.

Convencido de que a central elétrica da cidade o vigia e está tentando matá-lo, Jerry aproveita uma viagem do Sr. Fletcher e tenta sabotar o transformador. Acaba tomando um choque imenso numa cena que vai incomodar muita gente por causa do efeito especial tosco. O rapaz acaba magnetizado, e ao entrar na locadora e sair pegando em todas as fitas de vídeo do lugar, faz com que o conteúdo de cada uma seja apagado. O problema é que a Srta. Falewicz (Mia Farrow), uma amiga do Sr. Fletcher e fiel cliente da loja, aparece bem nessa hora e quer alugar os “Caça-Fantasmas”.

Para não contar a ninguém o que tinha acontecido (e escapar do esporro do Sr. Fletcher) Jerry e Mike resolvem juntar um pouco de sucata, silver tape e geleca e gravam a sua própria versão do clássico dos anos 80, levando em conta que só o que a Srta. Falewics saberia sobre o filme é o que estava escrito na capinha da fita. A solução provisória acaba virando uma nova profissão: outras pessoas assistem ao vídeo e os moradores do bairro começam a fazer fila para alugar os “suecados”, nome que eles dão às versões piratas. 

A partir daí se estabelece uma nova dinâmica no bairro, que tem a seriedade de quem leva uma brincadeira a sério. Ninguém questiona o que é um vídeo suecado, nem as regras malucas que eles inventam para as pessoas se associarem à locadora. A comunidade se une em torno disso e a produção dos filmes vai crescendo. Assim como em “Escola do Rock”, Jack Black parece mais uma vez interpretar a si mesmo. É aquele cara que não cresceu, uma criança grande que estava se divertindo por aí, fazendo umas palhaçadas ou inventando uma moda qualquer e foi flagrado por uma câmera.

As interpretações em geral ganham pela sutileza. A naturalidade de Mos Def em cena se aplica também a Melonie Diaz, que se torna a mocinha dos suecados, e a Mia Farrow, cuja delicadeza é um ponto de equilíbrio. Danny Glover é a doçura em forma de um senhor. A mesma doçura do capitão Murtaugh, que conseguia equilibrar o vigor de um Martin Riggs suicida vivido por Mel Gibson (no auge de seus 30 aninhos) em “Máquina Mortífera”.

O processo criativo de Gondry pode ser explicado numa metáfora cômica: o que é que a galinha foi fazer na igreja? Esse princípio clássico de toda a piada joga com um sentimento muito humano: o medo do ridículo. A pessoa tem medo de dar uma resposta errada e quando percebe que a resposta certa é talvez mais boba do que qualquer erro, ri do próprio constrangimento. È mais ou menos esse o objeto de trabalho do diretor. Ele pega uma idéia que poderia ser ridícula ou que poderia acabar se dirigindo a um desdobramento óbvio e se pergunta: como isso pode ser diferente?

A partir daí se estabelece uma coerência interna. As memórias podem ser apagadas se você quiser. Pessoas ficam magnetizadas e apagam fitas de vídeo. E se todos são capazes de aceitar essas premissas como verdadeiras, porque lidar com efeitos especiais que não se aproximam da realidade seria difícil? Gondry confessa que em “Brilho Eterno” queria fazer outros efeitos, mas não teve grana para isso. Então teve que decidir o que era mais importante, o uso da tecnologia ou da criatividade.

Para ele muitos filmes antigos como “Robocop” e os próprios “Caça-Fantasmas” eram muito mais desafiadores do que os que são feitos hoje em Hollywood, em que metade do tempo é preenchido por efeitos especiais absurdos. Como diretor, ele não faz obras herméticas, difíceis de assistir ou de serem assimiladas pelo grande público. Mas não é qualquer um que propõe uma apropriação do fetiche de se ver refletido em uma tela, principalmente na da televisão, e ainda te faz rir com isso.

“Rebobine, Por Favor” começa lento, ilustrando a vidinha besta dos personagens. Os planos parados e os diálogos puxam para o lado do cult e do cinema europeu. Quando a dinâmica da comunidade muda, o ritmo se acelera e as relações pessoais dão um novo sentido à vida no lugar. Nem mesmo o romance é levado a sério ou transformado em clichê por Gondry. Ao invés da cena clássica em que dois dos personagens principais se revelam apaixonados e se beijam, o diretor prefere que as suas estrelas troquem cutucões, brincadeiras ou simplesmente deixa as coisas no ar. Para quê ser mais óbvio do que isso?

Leia também:
– “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, por Marcelo Costa (aqui)

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