“Momofuku”, Elvis Costello & The Imposters

por Marcelo Costa

Wendy James era vocalista do Transvision Vamp, uma bandinha indie que parecia que iria virar algo no final dos anos 80, mas não deu em nada. A banda acabou em 1991, e Wendy, sozinha e abandonada, escreveu uma carta para Elvis Costello, pedindo lhe uma canção. Costello não lhe deu só uma canção, mas sim um álbum inteiro, o bom “Now Ain’t The Time For Your Tears”, e ainda emprestou o baterista Pete Thomas para a donzela em apuros.

Esta pequena introdução resgatada do fundo do baú procura mostrar a prolificidade deste britânico que volta a exibir seu dote em “Momofuku”, trigésimo sei lá quanto álbum de uma carreira insuspeita. A história de “Momofuku” lembra um pouquinho a da introdução. A cantora Jenny Lewis convidou Elvis Costello para cantar em seu novo álbum. Costello foi, se inspirou, saiu do estúdio e, em uma semana, tinha oito canções novas prontas, assim, do nada. Decidiu gravar rapidamente e, quando viu, tinha um novo disco.

A rapidez da gravação – em clima ao vivo no estúdio – rendeu a brincadeira com o titulo do disco: “Momofuku” refere-se ao o criador do macarrão instantâneo Cup Noodle, Momofuku Ando. Segundo o compositor, o disco foi feito tão rápido e de forma tão espontânea que, palavras dele, só bastou adicionar água (no caso, além dos Imposters, foram “adicionados” Jenny Lewis nos backings, seu namorado Johnathan Rice na guitarra e o Beachwood Sparks Dave Scher na guitarra stell).

“Momofuku” soa urgente como soavam os discos de Elvis Costello no começo da carreira, o que até permite um paralelo com o relançamento – em edição dupla luxuosa recheada de bônus tracks e com um show completo no segundo CD – de “This Years Model” (seu segundo álbum, de 1978): é só ouvir o órgão envenenado de Steve Nieve em “American Gangster Time” para fazer a conexão, e perceber que se o tempo passou, Elvis Costello e os Imposters, versão atualizada dos Attractions, continuam inspirados.

“No Hiding Place” é um rock de batida marcante – com boas intervenções de Steve Nieve no piano – que abre o disco de forma arrebatadora com Costello prevendo que, num futuro não muito distante, não vão existir segredos e nem lugares para se esconder. No mesmo embalo ainda estão “American Gangster Time”, que destaca o inconfundível órgão de Steve Nieve, “Turpuntine”, com refrão sixtie e a filha de Pete Thomas – Tenessee – ajudando o pai na percussão, e “Stella Hurt” (outro show particular de Nieve) e “Go Away”, com os tambores à frente.

Um segundo bloco de canções revisita a sonoridade do álbum “Almost Blue” (1981) como a doo-wop “Flutter And Wow”, o jazzinho “Mr. Feathers”, a balada sixtie “My Three Sons” e a parceria com Loretta Lynn, “Pardon Me Madam, My Name Is Eve”. “Harry Worth”, uma das melhores do disco, tem clima bossa jazz, e faz lembrar o repertório dos ótimos “Spike” (1989) e “When I Was Cruel” (2002). “Song With Rose”, por sua vez, tem guitarra western e clima country assim como “Drum And Bone”, que começa com uma guitarra limpinha em clima de boteco.

Impressiona a facilidade com que, aos 53 anos, o músico produz boas canções ao ponto delas parecerem do tempo em que ele tinha 23. “Momofuku”, que sucede a parceria de Costello com o mestre do r&b Allen Toussaint (o excelente “The River in Reverse”) e “My Flame Burns Blue” (registro que flagra Costello e Nieve tocando clássicos como “Watching the Detectives” e “Clubland” em versões jazz acompanhados da Metropole Orchestra), é um grande disco que transpira simplicidade, espontaneidade e despretensão, artigos em falta no showbusiness, mas que Elvis Costello parece ter de sobra em seu estoque, e sabe usar na hora certa. Como agora.

“Momofuku”, Elvis Costello (Universal)
Lançamento nacional: R$29 (em média)
Nota: 8,5

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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