Uma das lojas tradicionais de CDs em SP baixa as portas

A Nuvem Nove, uma das lojas de CDs tradicionais de São Paulo, fechará as portas no dia 26 de abril após dezessete anos. As baixas vendas de CDs e a popularização do MP3 (apontado como um dos causadores da queda das vendas) está vitimando uma das lojas mais bacanas cidade, assim como vem fazendo em várias capitais brasileiras. Como em Brasília: “A última foi a Discoteca 2001, uma rede de cerca de 10 lojas, que recentemente fechou nove delas, permanecendo apenas a matriz aberta”, conta o leitor Victor Rocha. “Foram nessas lojas que comprei cerca de 30% de meus dois mil e poucos discos”, explica.

A primeira vez que fui à Nuvem Nove foi em 2000. Recém mudado para São Paulo, e trabalhando no iG (na primeira das minhas três passagens pelo portal), fui convidado a conhecer o local por dois Fábios, Sooner e Bianchini, com mais alguns outros amigos. Tratava-se da Confraria da Sacola Azul (a embalagem tradicional da loja), uma turma de jornalistas que baixava na loja todo dia 15 e 30 (vale e pagamento) para se abastecer dos bons itens que a loja oferecia. A Confraria não durou muito tempo, mas a loja permaneceu firme até o mês passado, quando o Zé, dono da loja, anunciou o fechamento.

Passei por lá hoje, e as prateleiras já estão bem vazias devido a promoção de fechamento que prevê 50% de desconto em qualquer CD ou DVD, mas há ainda como encontrar boas coisas por bons preços. Entre o sorriso no rosto de cada cliente que está adquirindo um item com desconto fica também o lamento pelo fechamento da loja. “Vocês vão reabrir em outro lugar”, pergunta um senhor – que entre os vários CDs em suas mãos destaca-se um tributo gótico ao Smashing Pumpkins. “Pode ser que a loja reabra no ano que vem sim, em outro lugar. Deixe o seu nome que a gente entra em contato”, informa o vendedor.

O dono José Carlos Damiani, que os clientes chamavam de Zé, abriu a loja em 1991, e mesmo agora, nas últimas semanas, se anima indicando e encontrando itens para clientes. “Que legal, você vai levar esse da Françoise Hardy! Havia dois, mas levaram o outro ontem. Um amigo não acreditou que a loja inteira estava indo, e esse da Françoise ainda estava na prateleira”, comenta com um comprador. “Boa escolha”, garante. As conversas continuam no interior do estabelecimento, mostrando o quanto uma loja interessante quanto a Nuvem Nove pode fazer parte da vida afetiva de qualquer pessoa.

Boas lojas de CDs, sebos, livrarias, cinemas e shows são lugares ótimos para se encontrar pessoas legais. Na Nuvem Nove (assim como na Sensorial e na Velvet CDs, estas duas ainda ativas na Galeria Presidente, no centro de São Paulo), porém, o interessante não era só comprar música, mas conversar sobre ela. Com o fechamento das portas da Nuvem Nove, São Paulo não perde apenas mais uma loja de CDs, mas perde sim um ponto de encontro de pessoas apaixonadas por boa música, algo que pode soar tolamente romântico, mas é a mais pura verdade. Uma grande perda, sem dúvida.

A loja permanece aberta até o próxima dia 26 de maio, sábado.

Nuvem Nove
Rua Clodomiro Amazonas, 128, Itaim Bibi, São Paulo
Telefone: (11) 3078.7051
Site: http://www.nuvemnove.com.br/

8 thoughts on “Uma das lojas tradicionais de CDs em SP baixa as portas

  1. Num país aonde 4 meses de trabalho é só imposto, num rola comprar cd original. MP3 tem qualidade idêntica, e com todo medo que tentam colocar, é free. Toda matéria a respeito vai dizer a mesma coisa, é uma guerra perdida. Os p2p não possuem mais servidores. Gave Over

  2. É incrivel como certas coisas nos deixa triste, mesmo que seja um ponto comercial, até hoje ainda sinto saudade das lojas “Breno Rossi e a Bruno Blois” onde comprei meus primeiros LPs vinil e depois DVDs e CDs…

  3. A culpa do fechamento das lojas não é do MP3… O preço dos CDs originais são de matar. Tem CD que chega a custar 40 reais… A indústria tem que correr atrás e bx os preços – mas continuam subindo. Os CDs estão mais caros que os DVDs. Incrível !

  4. O ano era 1997 e eu tinha 15 anos. Tinha ouvido falar de um tal “Pet Sounds” dos Beach Boys, disco que não achava em lugar nenhum. Fiquei sabendo da Nuvem Nove e fui pra lá, arrastando junto meu irmão mais novo. Depois da perambulação de ônibus, achamos a loja e o tal Pet Sounds, por R$ 15. Resolvi ouvir também “Mr. Tambourine Man” dos Byrds (edição japonesa). Adorei. Choramos junto ao vendedor, que fez os dois discos por R$ 27,00. Sem dinheiro para o ônibus da volta, voltamos empolgadíssimos a pé até a casa de nossa mãe, próxima à estação Santa Cruz. Mais de dez anos depois, os dois cds estão entre os meus favoritos de todos os tempos, sendo que a cópia do Pet Sounds está autografada por Mr. Brian Wilson himself. E essa jornada permanece como uma das memórias musicais mais bacanas da minha vida. Obrigado por resgatá-la involuntariamente, Marcelo. Assim que terminar de escrever, vou pra Nuvem Nove ver se ainda acho alguma coisa interessante. Um abraço.

  5. Hey Marcelo!
    Apesar do clima tenso de liquidação popular, consegui pescar “Viva Hate” (Morrissey), “Gettin´ In Over My Head” (Brian Wilson), “Let´s Dance” (Davi Bowie), “Baby I´m Bored” (Evan Dando) e “Tarde na Fruteira” (Júpiter Maçã) por R$ 70,00. Sem querer polemizar, gostei bastante do Júpiter novo, mas isso é o de menos agora =)
    Grande abraço, Felipe

  6. Sim, o Bowie é importado, daquela série com toda a obra dele remasterizada. Esse saiu por R$30,00, e foi minha compra “cara”. Tinha mais coisa legal lá, como Mercury Rev, Luna e Nick Cave, que não levei por simples falta de grana de fim do mês. Ainda bem que não fui no início da promoção. Acho que teria gasto o dinheiro da comida de abril na loja =)

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