Fernanda Takai ao vivo em São Paulo

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

Estou sentado na primeira fila do charmoso teatro do Sesc Pinheiros. Ao meu lado, uma senhora que aparenta ter mais de 60 anos. Já passou da metade do show, e ela não abriu a boca para cantar nenhuma das canções, muitas delas hits do cancioneiro nacional. Ao final de “Insensatez”, porém, ela se vira para mim e lança a pergunta: “Todas essas músicas estão no CD?”. Respondo que sim, explicando que apenas as versões em inglês não entraram. “São muito boas”, diz ela encerrando o papo e voltando-se para o palco.

No palco, Fernanda Takai, a vocalista do Pato Fu (que fez questão de frisar que a banda é sua prioridade, é onde ela quer estar), apresenta as canções de seu excelente primeiro disco solo, “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, que reúne um repertório de canções interpretadas por Nara Leão. É a noite de estreia, e Fernanda está radiante e falante, saltitando entre o nervosismo do debute de uma turnê e a felicidade da recepção do público, que esgotou os ingressos para as duas apresentações. “A gente nunca sabe como será a noite de estreia, mas eu fiquei muito feliz quando soube que os ingressos estavam sendo bem vendidos… e bem esgotados”, comentou em certo momento.

A banda que a acompanha traz os Pato Fus Lulu Camargo (teclados) e John Ulhoa (”violão, guitarra, marido, bom pai”), mais Thiago Braga (baixista do LAB) e Mariá Portugal (bateria e zabumba, integrante das bandas Trash Pour 4 e Dona Zica). Mariá, por sinal, é um dos grandes destaques da formação. Baterista de “mão pesada”, a garota ataca seu kit mostrando versatilidade, indo dos extremos da delicadeza até as marcações mais pesadas (e são essas últimas que dão o tom de grande parte da apresentação).

O repertório apresenta as treze canções do álbum, mais algumas surpresas, “já que o disco é curtinho, tem pouco mais de 30 minutos”, explica a cantora. A produção é magnífica. A iluminação é extremamente delicada e as luzes flutuam dando charme ao espetáculo. Projeções estampam fotos de Fernanda na decoração do fundo de palco. E se levarmos em conta que o projeto tomou fôlego após Fernanda interpretar Nara em um desfile da grife de Ronaldo Fraga no SPFW, natural que ela esteja deslumbrante na noite de estréia (de preto, vestido, meias e sapatilhas).

Todo esse cuidado com a produção aconchega o repertório, que funciona a perfeição no palco. O show começa com de “Ta-Hi”, samba de Joubert de Carvalho (1930) gravado primeiramente por Carmen Miranda. Seguem-se “Luz Negra”, “Lindonéia” e “Diz Que Fui Por Aí” (uma das melhores do álbum e do show). A primeira canção “extra” foi “There Must Be an Angel (Playing with My Heart)”, do Eurythmics, totalmente no clima da noite. Após “Estrada do Sol”, Fernanda arremata: “Como apresentamos uma música do Tom Jobim com a Dolores Duran, agora a gente vai tocar uma música do Duran Duran”. Segue-se “Ordinary World” em versão fofa, fofa.

No show, Fernanda Takai amplia os acertos do álbum. O repertório junta muitas canções quase que de “domínio público”, cujas versões mais famosas já fizeram casa no imaginário popular. Porém, os ótimos arranjos de John e Lulu, somados a interpretação delicada e particular de Fernanda (e, no show, acrescidos da pontuação marcante da bateria de Mariá e do baixo estiloso de Thiago) conseguem transcender o passado, que ao invés de se transformar em obstáculo, acaba por servir como trampolim para o presente, explorando a musicalidade do quinteto.

“Com Açúcar, Com Afeto”, “Trevo de Quatro Folhas”, “Seja o Meu Céu” e “Odeon” rendem belos momentos na noite, que ainda traz versões para “Ben”, de Michael Jackson, “Esconda o Pranto Num Sorriso”, de Evaldo Braga, “O Divã”, de Roberto Carlos (excelente) e a contagiante “A Dança do Carimbó”, de Eliana Pittman. Ao final desta última, empolgada, a senhora que assiste ao show ao meu lado intima: “Ninguém levanta? Levanta e aplaude!”. Seguem-se mais de dois minutos de aplausos incessantes com todos de pé no teatro do Sesc Pinheiros coroando a estréia. Com grande parte do público dançando na frente do palco, “Kobune”, versão em japonês estilo Pizzicato Five de “O Barquinho”, fecha a noite em clima descontraído, e deixa a certeza que Fernanda Takai tem uma bela carreira solo pela frente.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é fotógrafa e arquiteta. Veja galeria de fotos dos shows aqui

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