Cinema: Juno, de Jason Reitman

por Marcelo Costa

Juno MacGuff tem 16 anos. Não se engane pelo nome: Juno é uma menina (na mitologia romana, Juno era a mulher de Zeus). Uma menina estranha para os padrões “normais” (reforçando: entre aspas) da sociedade: ela gosta de Stooges, Patti Smith e Mott The Hoople (artistas que surgiram em média 16 anos antes dela ter nascido) enquanto as paradas de sucesso apontam Britney Spears, Spice Girls e Garth Brooks; já teve uma banda com alguns amigos da escola; usa camisetas largadas enquanto sua melhor amiga brinca de cheerleader; e está grávida.

Ok, gravidez adolescente não é algo tão estranho assim; se fosse, a discussão em torno do aborto não seria tão grande quanto é. Discussões a parte, a gravidez adolescente já rendeu comédias fofas como “Mais ou Menos Grávida”, em que a ruivinha Molly Ringwald engravida do namorado e a visita da cegonha bagunça os planos do jovem casal, mas tudo acaba bem. O tema também rende filmes densos e pesados como o recente “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”, em que a opção pelo aborto e todo desenrolar da história ficará marcado eternamente na memória de uma adolescente grávida e de sua melhor amiga.

Porém, embora suscitem verossimilhança, tanto a ruivinha que fica grávida, casa com o namorado, sofre, mas se dá bem (com o filho e o marido) no final quanto a romena que faz o traumático aborto auxiliada pela amiga parecem menores diante do tratamento ao tema realizado por “Juno”. Os méritos são vários. O roteiro da ex-strip-teaser Brooke Busey (que assina como Diablo Cody) é esperto o bastante para não cair em clichês; a direção correta de Jason Reitman (que parece ter gosto por temas tabus; Reitman estreou com o genial “Obrigado por Fumar”) desenha personagens comuns vivendo situações comuns, e isso aproxima a trama do espectador; a trilha assinada por Kimya Dawson (Moldy Peaches) dá aquele sotaque indie adolescente ao filme; e, por fim, Ellen Page encanta e conquista com sua atuação consagradora.

O roteiro foge do óbvio partindo de uma nova premissa: Juno sabe que não tem estrutura nenhuma para criar um filho, porém não tem nenhuma coragem de encarar um aborto (a cena no hospital, em que a atendente oferece camisinhas com gosto de amora, é impagável). A saída: encontrar um casal que tope adotar o bebê. Com essa idéia em mente, Juno e sua melhor amiga saem à procura do casal perfeito. A direção de Reitman insere cores à trama (o cartaz dá a dica; o filme é exatamente assim). Em sua busca pelas situações comuns, Jason Reitman quase não erra em “Juno”. Uma cena capital mostra bem isso: na hora que Juno vai contar ao pai sobre a gravidez, a forma com que ele e a madrasta reagem é totalmente provável. Lembre-se: ele deu o nome de Juno á filha. O diálogo depois que a filha deixa a sala é impagável.

– Você achava que era isso? – pergunta o pai para a madrasta;
– Eu achei que ela estivesse viciada em drogas… – diz a madrasta.

A trilha de Kimya Dawson (de enorme sucesso nos EUA) une Cat Power, Belle and Sebastian e Moldy Peaches com Velvet Underground, Buddy Holly e Sonic Youth (representado por “Superstar”, versão para o original dos Carpenters). O filme respira música, e há até um certo excesso de canções na trama, embora um dos grandes momentos da história resida em uma tirada sensacional – raivosa e certeira – de Juno com relação ao Sonic Youth. Por fim, a estrela Ellen Page. Ela tem apenas 20 anos, atua desde os 10, e conseguiu com Juno criar um personagem tão cativante que é quase impossível não se apaixonar por ele. Ellen Page brilha e faz todos os demais atores circularem ao seu redor. Mais: é extremamente convincente nas cenas em que carrega uma barriga falsa de oito meses (note em seu caminhar), o que torna realmente merecida sua indicação ao Oscar.

Roteiro esperto, direção correta, trilha sonora certeira e uma atriz encantadora: com esses quatro ingredientes, “Juno” vem arrebatando corações, vendendo centenas de milhares de CDs e conquistando nas bilheterias mais de 15 vezes aquilo que custou (US$ 7,5 milhões de custo, US$ 113 milhões nas bilheterias até a semana passada), e por mais que a histeria, as cifras milionárias e suas quatro indicações ao Oscar possam transformar a película em um hype nos cinemas abarrotados de bobagens sem conteúdo, Juno (precocemente madura e exageradamente espirituosa – tal qual os personagens da série Dawsons Creek, lembra?) é a personagem carismática do grande filme indie da temporada: fofo, estranho e charmoso. Quer saber: Juno está certa. Sonic Youth é barulho. Mesmo.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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