Cinema: “Desejo e Reparação”, de Joe Wright

por Jonas Lopes

É impossível não fazer a comparação do filme com o livro – ainda mais quando o livro é sério concorrente a melhor da década (e, conseqüentemente, do século) até agora. Mas para quem não esperava grande coisa, até que “Desejo e Reparação” surpreende. É um bom filme, longe da obra-prima que é o romance de Ian McEwan (“Reparação”).

A principal diferença está na ênfase no desejo em detrimento da reparação. Ou seja, a expiação da culpa de Briony Tallis perde espaço para a paixão de sua irmã Cecilia (Keira Knightley melhorou como atriz) e o injustiçado Robbie. O sofrimento de Briony carece da ambigüidade talhada a bisturi por McEwan, misturando veneno e ingenuidade. Na tela o seu ato pareceu apenas motivado por uma paixão frustrada por Robbie.

A grande força de “Reparação”, afinal, está na metáfora do poder da literatura através da mente imaginativa da menina. Há uma passagem no livro em que Briony começa a brincar com um dedo – dobrando-o e esticando-o –, que a leva a pensar que basta uma simples ordem mental para que ele se mexesse. Como em uma história, o mundo em que o romancista é rei. No papel, em suas narrativas, ela poderia fazer tudo. A confusão entre real e imaginado provoca a ficção que Briony engendra para colocar Robbie na cadeia.

Quando vê o casal na fonte, ela sente, no livro, um misto de surpresa e excitação. No filme, sente apenas horror. O moralismo do romancista que ordena o mundo conforme seus princípios torna-se apenas uma moral como convenção social. Esse trecho do dedo, por sinal, é um bom exemplo da dificuldade de transformar texto em imagem; como transpor o fluxo de pensamentos sem recorrer ao batido truque do off?

De todo modo, “Desejo e Reparação” funciona como história de amor impossível. O roteiro, em geral, é eficiente, derrapando apenas quando tenta dizer para o telespectador o que já havia ficado subentendido (caso de quando Briony finalmente se dá conta de quem cometeu o crime). A direção de Joe Wright (“Orgulho e Preconceito”) também é segura (apesar do tom um tanto dramalhão do final), e tem seu ápice em um plano-seqüência de vários minutos em uma praia da Normandia, durante a guerra.

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