“Magic”, de Bruce Springsteen

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por Marcelo Costa

Nos anos 2000, Bruce Springsteen conseguiu a façanha de lançar discos quase sempre perfeitos. Não que isso não tenha acontecido nas outras décadas anteriores, mas após ter feito 50 anos (em 1999), parece que o roqueiro número 1 dos Estados Unidos imprimiu a si mesmo um nível de qualidade que precisa ser mantido em todos os álbuns. Começou com “The Rising” (2002), um disco arrebatador influenciado (mas sem populismo barato) pelos acontecimentos do 11 de setembro. A seqüência não poderia ser melhor: “Devil & Dust” (2005) escorria amargura em folks que batiam forte no peito e na cabeça.

“We Shall Overcome – The Seeger Sessions” (2006) foi uma folga da autoralidade. Bruce recolheu canções do repertório do folk singer Pete Seeger, voltou no tempo e trouxe de lá uma sonoridade riquíssima em sutilezas melódicas e políticas. Jogou no colo dos Estados Unidos da América aquilo que alguns governantes querem jogar para debaixo do tapete: história. Após uma longa turnê, Bruce Springsteen emenda um disco no outro, cancela as férias e retorna com material inédito e a companhia de sua E Street Band (cujo último trabalho em conjunto foi “The Rising”). “Magic” é o décimo quinto disco do compositor, e chega às lojas (gringas) no próximo dia 09.

Brendan O’Brien (Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Korn) volta assinar a produção, como havia feito em “The Rising” e “Devil & Dust” e contou a Rolling Stone norte-americana: “Bruce me chamou para sua casa em New Jersey e tocou um grupo de canções novas. Foi surreal. Nós sentamos em seu quarto, ele me deu um caderno com as letras e tocou as músicas novas na guitarra. Minha tarefa foi dizer quais canções cabiam no novo álbum, e quais iriam ficar de fora“, explicou O’Brien. As canções que “sobraram” foram trabalhadas em estúdio durante dois meses, com membros da E Street Band gravando nos finais de semana.

O resultado deste modus operandi é um álbum inspirado que soa como uma continuação melódica de “The Rising” (que, por sua vez, era quase um “Born In The USA” 2), sem soar diretamente tão político quanto seus álbuns gêmeos. “Radio Nowhere” abre o disco de forma acelerada e empolgante. O som das guitarras é sujo, mas cristalino, e serve para dar corpo a uma canção que clama por outras do mesmo quilate: “Eu quero mil guitarras / Eu quero baterias martelando / Eu quero um milhão de vozes diferentes“. Mais duas canções seguem por este mesmo caminho: “You’ll Be Comin’ Down” (com piano a frente das guitarras que fazem um riff circular por trás) e “Last to Die”, com cordas na introdução abrindo caminho para uma porrada musical que tem a guerra como tema (“Quem será o último a morrer por um erro”, diz a letra).

Porém, “Magic” não é feito apenas de rocks acelerados entupidos de guitarradas. A romântica “I’ll Work for Your Love” traz boas guitarras, vocação pop rock de estádio, mas fica no grupo das canções menores do álbum. “Livin In The Future” se sai melhor: é dançante e destaca o reconhecível sax de Clarence Clemons. Em “Your Own Worst Enemy” é a vez dos teclados tomarem a frente da canção que fala sobre alguém que não pode dormir nem sonhar pois seu inimigo está na cidade. “Girls in Their Summer Clothes” é uma balada ensolarada de quem se inspira com garotas caminhando na rua em suas roupas de verão. “Devil’s Arcade” é um libelo anti-guerra que quer soar épico, mas fica no meio do caminho. “Magic”, a faixa título, é bonitinha, e em termos de Bruce Springsteen isso soa ligeiramente estranho.

Se até aqui “Magic” está parecendo um álbum mediano é porque as três grandes canções do disco ainda não foram citadas: “Gypsy Biker” começa com violão e gaita para virar um rockão portentoso lá pelo meio. “Long Walk Home” é uma das poucas canções do disco que já vinha sendo apresentada na turnê do álbum anterior. Segue a linha de “Gypsy Biker” (com percussão no lugar da gaita) e também inspira. As duas canções falam sobre voltar pra casa. Para o final, o único folk “folk mesmo” de todo o repertório, “Terrys Song”, dedicada ao amigo Terry Magovern, morto em julho, e que versa sobre maravilhas do mundo (as Pirâmides do Egito, a Capela Sistina, a Mona Lisa, o amigo falecido) e conclui que o amor é maior do que a morte.

Em retrospecto, “Magic” fica abaixo de outros álbuns roqueiros de Bruce Springsteen (cuja lista é encabeçada pelo clássico “Born To Run”, de 1975), e é um álbum menor do roqueiro mesmo nos anos 2000, mas isso só acontece porque a competição aqui é em alto nível. “Magic” é, facilmente, um álbum nota 9, cuja produção cuidadosa em parceria com um repertório inspirado encontram tradução perfeita por uma banda competente (a mão segura e pesada do baterista Max Weinberg e as guitarras afiadas de Steven Van Zandt e Nils Lofgren se destacam em um grupo que ainda conta com o saxofonista Clarence Clemons, o baixista Garry Tallent, os tecladistas Roy Bittan e Danny Federici, e Patti Scialfa nos violões e backing). Não é o melhor disco de Bruce Springsteen, mas é um dos cinco grandes discos do ano. Fácil.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

13 thoughts on ““Magic”, de Bruce Springsteen

  1. O CD nem saiu? Tem gente perdida no tempo… rsss

    Nunca entendi o fascinio que esse Bruce exerce, mas ouvi o disco e gostei. Pelo menos é rock enquanto os outros discos anteriores nem isso eram. Mas ainda não entendo.,,

  2. Semana retrasada, estava lendo a mais uma coluna do competente Ignácio de Loyola Brandão, onde o escritor comentava sobre a extinção dos valores, nesta década. Ponderando a esta escassez, o autor cita três palavras que regem esta sociedade atual. Inconseqüência, superficialidade e efemeridade. Caiu como uma luva a mim, pois é tudo o que eu sempre pensei e penso, sobre este mundinho redondo.
    Enfim, transportando estas palavras do escritor para a música que se faz nesta década, soa a mim, como um casamento feliz.
    Pois a grande maioria das bandas atuais (não querendo generalizar), exerce da mídia, do seu público alvo, do seu marketing pessoal, e de alguns críticos musicais, um ensaio perfeito e calculado de como se adequar ao sucesso rápido e efêmero. Como se tudo foi ou é, milimetricamente pensado.
    Tudo isso para dizer, que ao contrário deste meu raciocínio, existem vários artistas como Bruce Springsteen, que fazem da música, uma eterna magia de se criar melodias que se eternizam pra sempre em nossos corações. E que boas, são atemporais.
    Longa vida aos Bruces Springsteen`s!!!

    Abraço

  3. Mais um grande album de Bruce, sem dúvida. É interessante ver como a maturidade vem fazendo bem a grandes nomes da música pop como Bruce, Dylan e Nick Cave, que parecem ter atingido a perfeição. O rock, outrora gênero juvenil, cresceu e se incorporou como parte integrante da cultura ocidental, a despeito do que pensam os pseudointelectuais acadêmicos. E é importante que homens como Springsteen venham colocar as coisas em seu devido lugar, sobretudo em uma época em que a maioria das bandas não sabe a diferença entre música e barulho.

  4. Ok…telepatia então…hehe..vou tentar esse contato mediunico hj denoite.

    Concordo contigo MAC quando diz sobre a o universo masculino da musica do cara…ele dá uma exagerada mesmo.

    abraço!

  5. Vou arriscar…Springsteen é um músico e não simplesmente um roqueiro. Sem atribuir valores a este ou aquele. Springsteen se serve dos estilos, com respeito e dignidade, para expor sua música literária ( ver Dentro do Rock). Impressionante como o dinheiro e a celebrização não destruiram sua capacidade criativa.

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