Um débito com Steve Harris

Texto por Marcelo Costa

Eu tenho uma péssima memória para coisas da minha infância. Na verdade, lembro da casa que meu pai construiu em Taubaté (eu devia ter quatro anos); da minha irmã caindo na escada da casa de uma vizinha e abrindo um corte na testa que lhe rendeu vários pontos (a cicatriz ainda está lá, charmosa); e da Elaine, uma garota com quem dancei quadrilha nos quatro primeiros anos da escola, e que minha mãe fazia gosto com que eu namorasse (no entanto, apesar de ter me apaixonado pela Márcia da minha sala de primário ainda nestes primeiros anos, o primeiro beijo, beijo mesmo, só foi acontecer aos doze).

No quesito música lembro que meu pai tinha uma pequena discoteca de MPB em casa, que abria seu espaço para os Beatles, que até onde me lembro eram os únicos estrangeiros naquele espaço dominado por Jorge Ben, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Gilberto Gil, entre muitos outros. Meu pai era chefe de segurança da Volkswagen, e havia sido transferido de São Bernardo do Campo para Taubaté, o que rendeu um bom aumento no orçamento familiar. Porém, por mais que houvessem festas movidas a uísque e bom samba em casa, pouca coisa me lembra de música, música mesmo. Naqueles primeiros anos eu estava mais preocupado em jogar futebol com a molecada da rua.

As coisas foram começar a mudar quando eu tinha nove anos e meus pais se separaram. Como eu nunca me imaginei trabalhando em uma fábrica, a separação até que foi boa pra mim, mas marcou demais a minha irmã. Só fomos nos entender muuuito tempo depois, quando aprendi que cada pessoa reage a sua maneira diante de um determinado fato. Eu reagi bem, ela não, mas nada como o tempo para colocar os dois no mesmo caminho, juntos, novamente. Naquela época, as coisas ficaram dispostas de maneira simples em casa: mamãe sairia para trabalhar (algo que ela não fazia há mais de dez anos) e os filhos deveriam se comportar e estudar. Olhando de fora, acredito que muito pouca gente possa acreditar que uma rotina assim tenha gerado duas pessoas tão especiais. Minha irmã se tornou uma mãe linda e maravilhosa, e eu consegui me formar na faculdade, voltar para SP, a cidade em que nasci, e trabalhar com coisas que gosto, a ponto de estar aqui desnudando minha alma. Tem coisas na vida que eu não sei explicar, mesmo.

Acredito que foi naquela época da separação que as coisas começaram a clarear para mim. Mudávamos constantemente a procura de um aluguel que permitisse que minha mãe conseguisse pagar as contas e cuidar das duas crianças. Essa rotina de “já morei em tanta casa que nem me lembro mais” acabou fazendo com que eu criasse um modo próprio de aproveitar os momentos de solidão. Ler foi o primeiro. Entre as primeiras coisas que li e amei estava Vinicius de Moraes. Porém, a “Antologia Poética” de Vinicius foi um tremendo choque para um menino de 11 anos que esperava ler coisas como “era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada”, mas acabou encontrando poemas terrivelmente belos como os de “Balada Feroz”, “Elegia Desesperada” ou “O Falso Mendigo”.

Após Vinicius vieram Shakespeare (que eu devorei de uma coleção perfeita de 30 volumes da Biblioteca Municipal de Taubaté, que trazia apêndices e dezenas de explicações históricas), Oscar Wilde, Lygia Fagundes Telles e Morris West. Porém, convenhamos, todo esse pessoal era muito para um garoto de 12 anos. E foi então que a música me pegou. Primeiro com a Blitz, que tinha estourado com “Você Não Soube Me Amar” em 1982. “Radio Atividade”, de 1983, foi meu primeiro vinil, que não me lembro se comprei ou se ganhei de presente. Só sei que durante um tempo esse foi o único vinil que eu tive em casa, ao menos até quando consegui meu primeiro emprego, depois de vários bicos, em uma loja de peças de automóveis. O primeiro salário foi gasto todo em vinis, e assim começou uma paixão avassaladora. Primeiro foi o rock nacional. Paralamas, Lobão, Kid Abelha, Legião. Depois foi Led Zeppelin.

Deve ter sido em 1984, época em que eu costumava discotecar em bailinhos com um amigo. Ele manjava muito mais que eu. Tinha dezenas de discos e era fissurado em Michael Jackson e Madonna. Lembro de um dia em que fomos “dar um som” em uma festinha em um bairro afastado da cidade (que anos depois fui morar, inclusive). Alternávamos nas pick-ups e depois de termos tocado bastante um garoto chegou pedindo para colocar um disco. Deixamos. Era “Rock’n’Roll”, faixa 2 do “Led Zeppelin IV”, e aquela bateria selvagem me conquistou. Consegui todos os vinis da banda e virei fã (anos depois chorei ao ver Robert Plant cantando “Thank You” no Pacaembu). Paralelamente tinha a Bizz, que havia acabado de chegar às bancas, e trazia histórias ótimas de gente como The Doors, Velvet e bandas da pós-punk com The Cure, Echo & The Bunnymen e The Smiths. Aquilo tudo soou familiar e começou a me guiar.

Porém, por mais que as rádios estivessem começando a abrir espaço para o rock, e uma revista estivesse falando coisas legais nas bancas, havia coisas que não furavam o bloqueio (lembre-se que eu estava em Taubaté): o punk e o metal. Eu costumava dizer, anos atrás, que nos anos 80, Taubaté era uma cidade de metaleiros enquanto a vizinha Pindamonhangaba era punk. Já a “grande Aparecida” – piada de amigos: que compreende Paris, Guaratinguetá e Lorena – era mais pós punk; São José dos Campos, a maior cidade do Vale do Paraíba, era mais cosmopolita.

Bem, não demorou muito para que eu abraçasse o punk como válvula de escape, mas como ser punk em uma cidade de metaleiros? Não havia jeito. A maioria das pessoas que gostava de rock na cidade, e das bandas, era fã de heavy metal. Eu, aos poucos, fui “construindo” uma redoma particular, criando a minha própria discoteca, e minha casa virou ponto de encontro de uma nova turma, apaixonada por rock nacional, The Clash, Bunnymen, Cure e afins. Mas mesmo assim não pude me desvencilhar dos metaleiros, os fãs mais fiéis que existem, e que lotavam qualquer excursão que eu cismasse em armar para São Paulo para shows gringos. E é lógico que andar com um metaleiro significa ouvir os sons, e as bandas que aqueles caras de preto formavam para tocar em garagens e fazer demos ainda em fita cassete. Sem contar o período do exército, que foi conduzido, em doses rigorosamente iguais, de Engenheiros do Hawaii e Mercyful Fate.

Comecei a rememorar toda essa história porque dia atrás fui invadido por uma vontade imensa de ouvir Iron Maiden. A Donzela de Ferro foi uma das poucas coisas que ficou do meu passado headbanger, muito embora a Costaniana (alô, Massari) tenha bandas clássicas com Black Sabbath, AC/DC e Deep Purple. E, claro, Sepultura (“Chaos AD” é um dos grandes discos de todos os tempos no Brasil) e Metallica. Porém, apesar de todos estes nomes estarem por ali na minha discoteca pessoal, qual surpresa não foi ao descobrir que eu não tinha nenhum álbum do Iron Maiden em casa.

Naquele momento me lembrei de um dos vários ensaios do Justice, uma banda thrash metal de Taubaté, uma das maiores barulheiras que já presenciei na vida, e que brinquei de ser roadie durante um bom tempo, lavando a alma de barulho. Eles tocavam uma versão de “Hallowed Be Thy Name” de corar Steve Harris. Dedé, o baterista, fazia a garagem inteira tremer quando esmurrava seu kit, e acho que o pouco da audição que perdi foi graças a ele. Os guitarristas Cleber e Marcelo duelavam nas guitarras enquanto Ferrarezi bancava Bruce Dickinson e Steve Harris ao mesmo tempo, arrepiando no break matador do início clássico da música:

“When the priest comes to read me the last rites
I take a look through the bars at the last sights
Of a world that has gone very wrong for me

Can it be there’s some sort of error
Hard to stop the surmounting terror
Is it really the end not some crazy dream”

Ainda me lembro também de um show do Justice em Tremembé, cidade vizinha a Taubaté, em que o riff do Cleber para “The Evil That Men Do” (outra cover do Iron que eles tocavam) foi tão cristalino e lindo que acredito que nunca mais vou esquecer daquele momento (e, acredite, já esqueci de vários trechos do show do Nirvana).

Eu cheguei a ter vinis do Iron Maiden em casa naquela época, mas – no período de vacas magras – acabei os vendendo (junto com minha coleção do Led Zeppelin), e descobri dias atrás que, em todos estes anos que se passaram, nunca mais comprei um álbum do Iron Maiden (ao contrário do Led, que tenho a coleção completa e um pouco mais). Depois que constatei essa falta, achei mais do que justo me encaminhar até a Galeria do Rock, aqui em SP, e sair de lá com a edição dupla que reúne dois álbuns ao vivo, “A Real Live Dead One”, e que fazem um belo retrospecto da carreira da Donzela. Tem até “Fear of The Dark”, com o coro do público acompanhando, e que eu também cantei no Rock in Rio e no show de 1992, no Parque Antarctica.

Porém, mesmo escutando “Hallowed By The Name” e “The Trooper” novamente, eu achei que devia um pouco mais de atenção e carinho ao Iron Maiden. E espero que um texto como esse me permita fazer as pazes com a Donzela de Ferro e com uma parte da minha adolescência. Steve Harris, a dívida está paga. Estamos quites?

Ps1: Pra quem não sabe, o sr. Steve Harris é o todo poderoso baixista e manda chuva no Iron Maiden…

Ps2: esse texto foi escrito originalmente em agosto de 2005, para o Scream & Yell, e de lá pra cá minha coleção do Iron aumentou, e muito.

20 thoughts on “Um débito com Steve Harris

  1. Matéria interessante. Passamos por momentos parecidos historicamente, pois creio temos a mesma idade.
    Só um detalhe, o show do Iron no Parque Antártica foi em 1992, e não em 1994. Foi, aliás o último show da banda com Bruce antes dele sair. Só quem estava lá para saber o que ver o gelado Dave Murray abrir sorrisos de satisfação. Coisas que só quem curte metal sabe o que é.

  2. Putz…. ainda bem que pagou sua divida com o Maiden…. a minha ja está paga tb…. chorei quando precisei vender meus vinis e cds do Iron…. mas graças a tecnologia tenho tudo de volta em 2 MP3 heheheheh
    Maiden Forever…..

  3. Jurava que, a partir do ponto em que sua irmã entrou na história, iria ler algo “Quase Famosos”. Queria ter vivido os 80’s em plenitude para ter histórias assim pra contar.

    Detalhe de escrita: a vertente é Thrash (com ‘h’) Metal. Nada que mude a rotação da Terra, mas, como disse, detalhes….

  4. Cara… muito legal seu texto… minha adolescência foi bem parecida com a tua… só que eu não tive a imensa sorte de passar essa epoca nos anos 80… tenho 21 anos só… e nunca tive a chance de assistir shows como esses…. =/

    Gde Abraço!

  5. Hoje,depois dos 30,quase uma jovem senhora,que nao ponga mais,nem bate cabeça,sobrou o gopsto pelo Iron Maiden,que por incrivel que pareça,comecei a curtir mesmo ha mais ou menos uns…cinco anos!

  6. Como é que é? “Gostaria de ter vivido nos anos 80”? Os anos 80 foram “anos dourados”? E o autor do texto ainda cita Renato Russo? Putz, está todo mundo virando bunda mole saudosista. Olha, vou ser sincero: tenho 34 anos, acho que nos anos 80 tiveram algumas coisas boas em termos de música (rock underground americano, pós punk inglês, Creation, etc), mas fora isso foi uma década de %!@$&@# Não consigo sentir saudade daquilo. Os anos 90 foram muito mais divertidos. No mais, curtam esse novo milênio!!

  7. xará, todo esse quadro musical que vc pintou eu também tive a sorte de tmb poder curtir: IRON, LEGIÃO, U2 etc…em 3 áreas os 80´são inigualáveis: O futebol do Mengão, a música e os filmes pornôs (rs)

  8. Mrcelo, acho que temos uma época da vida em comum em que Pindamonhangaba e Iron Maiden não são apenas os pontos em comum. Acredito que reparar na sua camiseta não seja a única coisa que devo fazer! Sonia PMO

  9. Muito boa essa retrospectiva, principalmente no que se refere às bandas citadas. E os momentos marcantes de nossas vidas têm mesmo que serem lembrados.
    Quanto à vossa admiração pelo Iron Maiden, posso me juntar a você. Tenho 49 anos, vivi os anos dourados do Rock & Roll, a febre das discotecas, o movimento punk, o gótico, o dark, etc. E tenho certeza de que todos eles marcaram de um modo ou de outro a vida das pessoas. Você foi muito feliz nessa matéria. Parabéns!!!!!!!!!!

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