“Sky Blue Sky”, um disco setentão para 2007

por Marcelo Costa

Eu não entendo o emo. Pior: eu detesto o emocore. Nada contra ser sentimental ou emotivo. Pô, eu já escrevi poesias (e só não escrevo mais por absoluta falta de tempo), já presenteei namorada com rosas e já chorei em comédia romântica no cinema. Só que uma coisa é ser sentimental, outra é ficar se lamentando, choramingando e reclamando da vida o tempo todo por todos os cantos como se a vida fosse um fardo impossível de ser carregado só porque a menina de olhos azuis que você está apaixonado decidiu sair com seu melhor amigo. Pára, vai. A vida é um fardo, sim – Ian Curtis que o diga – mas há uma beleza na melancolia que poucos no mundo sabem transformar em arte sem parecer piegas ou ridículo.

Caraminholo tudo isso por vários motivos, mas o principal é porque virou pensamento corrente dizer que isso e aquilo é emo apenas porque é sentimental e/ou emotivo. Basta o cara abrir o coração em uma canção pop que ele é emo. Sorry, amigos, mas não é bem assim. E Jeff Tweedy, o homem por trás (pela frente, por cima, por baixo e pelos lados) do Wilco está ai para provar. “Sky Blue Sky”, sexto álbum do Wilco, é um tiquinho decepcionante no território instrumental (rock-folk-country-ballads para as massas), mas é exemplar no que diz respeito às dores do coração. Porque Tweedy já passou, faz tempo, dos 16 anos, e apesar de soar emocional até os píncaros em “Sky Blue Sky”, explica: “Eu não confio em nenhuma emoção. Eu acredito na locomoção” (“You Are My Face”).

Viver, não me canso de dizer, é acumular tristezas. Mas repito sempre logo em seguida a velha anedota com a qual Woody Allen abre “Annie Hall”: “A vida é uma droga, mas passa rápido”. Não adianta ficar parado, chorando e lamentando. Jeff Tweedy não é Woody Allen, um homem que consegue enxergar beleza na tristeza e nos desastres das relações humanas, e ainda nos fazer rir disso tudo. Tweedy é um gênio atormentado cujo amor parece ser algo impossível de ser tocado. Em seu disco mais famoso (e genial), o cantor e compositor do Wilco ousou usar as estações de rádio da agência de inteligência de Israel para mostrar o quanto não nos comunicamos nos relacionamentos. No disco seguinte, mandou avisar que teólogos não sabiam nada sobre sua alma. Agora, quase quarentão, ele pensa consigo mesmo: “Eu devo ficar satisfeito, eu não morri. Isso é o bastante para agora”. (da faixa título do novo álbum).

Porém, se você quer mesmo saber como transformar um fim de relacionamento em poesia sem soar emo, você precisa ler e ouvir “Hate It Here”:

“Eu tento permanecer ocupado
Eu lavo os pratos, eu corto o gramado
Eu tento manter-me ocupado
Mesmo que eu saiba que você não está vindo para casa

Eu tento manter a casa agradável e pura
Eu faço minha cama, eu troco os lençóis
Eu aprendi sozinho a usar a máquina de lavar roupas
Mas manter as coisas limpas não muda qualquer coisa”

Tematicamente, “Sky Blue Sky” é isso ai em cima. Um cara olhando a caixa do correio e verificando a secretária eletrônica do telefone, e ambos dizendo que ela não vai voltar, e que ele precisa seguir em frente e dizer “ciao”. Apesar de não confiar na emoção, Tweedy transpira isso em cada uma das canções em “Sky Blue Sky”, mas, não pule em meu pescoço, o disco é inferior musicalmente a tudo que ele já fez até hoje.

Uma das questões que o namoro de “A Ghost Is Born” (quinto disco da banda) com o kraut-rock explicitava era para onde estava indo o som do grupo de Jeff Tweedy. A banda começou country com “AM” e “Being There” (embora já trouxessem experimentos indies que bastaram para apresentar o movimento alternative country ao mundo), virou altcountry total em “SummerTeeth” e experimental em “Yankee Hotel Foxtrot”. Em “A Ghost Is Born” Tweedy deixou de emular o Neil Young country para se espelhar no Neil Young roqueiro de longos solos improvisados. O resultado se fez difícil, mas de rara beleza. Mas após gravar uma faixa de 15 minutos que finaliza com microfonia abraçando microfonia, para onde iria o som do Wilco? Para o céu azul.

Além de imaginar pássaros voando livres em uma das capas de disco mais bonitas do ano, e analisar o amor com sobriedade e melancolia (Chris Martin um dia aprende), Tweedy limou as experimentações sonoras, e fez um disco todo certinho baseado no country, no folk e em baladas rock que escancaram de uma vez sua paixão pelo beatle Paul McCartney. A estética sonora adotada agora causa estranhamento não só porque substitui as experimentações de “A Ghost Is Born”, mas também porque vai na contramão de tudo aquilo que a banda vinha fazendo até então. Entenda: as músicas não são ruins, de maneira alguma. Elas só carecem de… locomoção, para ficarmos em uma palavra do próprio Tweedy. O som da banda parou nos anos 70, e ficou por lá. E isso é pouco para um grupo que eu mesmo apontava – anos atrás – como um dos cinco que levavam a música pop por um caminho inteligente e novo.

Sei que vão lotar a minha caixa de e-mail e os comments com frases tipo “o disco é maravilhoso e isso é o que importa” e/ou “as novidades que estão por ai não são tão boas assim”. Realmente, é isso o que importa, e tenho certeza de que esse álbum irá se transformar num grande companheiro após diversas audições. E “Sky Blue Sky” é melhor do que a maioria dos discos das bandas que a NME coloca em sua capa. Só que não estamos falando apenas de canções bonitas aqui. “Sky Blue Sky” é um daqueles discos atemporais, que não pertencem a esta época, e seria elevado a clássico se houvesse vindo ao público no começo dos anos 70. Hoje em dia, ele é apenas um amontoado de belas canções que ficam a sombra de “Yankee Hotel Foxtrot”, este sim, uma obra clássica dos anos 00. Essa comparação não diminui a beleza de canções como a mccartiana “Walken” ou “On And On And On” (entre outras), mas faz sentir saudade de um tempo em que Tweedy se arriscava muito mais nas trevas ao invés de ficar olhando o céu azul. Nada contra o céu azul, mas, você sabe, de vez em quando chove.

Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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– “The Autumn Defense”, The Autumn Defense: música calma para corações roqueiros (aqui)
– La música de nuestro tiempo: entrevista de Jeff Tweedy ao El País (aqui)
– Entrevista: Jeff Tweedy responde perguntas da Rolling Stone EUA (aqui)
– Entrevista: Jeff Tweedy Talks Wilco’s “Irreverent” Fall Album, Spin Magazine (aqui)

22 thoughts on ““Sky Blue Sky”, um disco setentão para 2007

  1. ah! eu tinha visto em outro blog, e o Ina escreveu um dia desses… vc viu que a capa do disco é uma foto e não um desenho?
    a foto é de autoria do italiano Manuel Presti, e venceu o Wildlife Photographer de 2005.
    vale a curiosidade! =]

  2. enfim esse disco por aqui! rs
    o Fred Leal resumiu bem a idéia de SBS ao compará-lo com um misto de Abbey Road com Harvest; acho que é bem por aí mesmo, e isso leva ao que vc disse: é um belo disco (belíssimo em alguns momentos), mas não pertence ao nosso tempo.

    quanto às letras, Either Way foi uma das que mais me emocionou quando ouvi pela primeira vez. as coisas acabam sim e, talvez isso um dia vá fazer sentido, ou não; talvez ela ainda me ame, talvez ela volte… talvez não! mas a vida não pára, não espera, então continuamos a vivê-la, ainda que com uma pontinha de tristeza.
    é preciso ser genial ou muito perto disso para resumir angústias pelas quais todos nós passamos em versos tão simples, mas nem por isso medíocres; e genialidade é uma característca que não falta em Tweedy.

    um abraço, e desculpe pela empolgação! rs

  3. Começando pela belíssima capa, este é um dos poucos álbuns, durante toda a minha vida, (sem exgero), que consigo escutar do começo ao fim sem pular nenhuma canção. E ainda me faz arrepiar e tirar suspiros como foi o clássico “Summerteeth” e “Yankee Hotel Foxtrot”, enfim, emoção pura!Uma obra impecável – “Sky Blue Sky” – diga-se de passagem, sabendo que estamos na era do descartável e do superficial.
    Jeff Tweedy e a banda estão a vários passos a frente das demais bandas atuais. Sinto neste disco um flerte com o passado e uma volta ao simples, comum, mas com alma de quem começou a poucos dias atrás.
    Desculpa a empolgação, mas Wilco é a minha banda do coração.
    Ah, bela resenha, parabéns pelo bom gosto.

  4. Jeff Tweedy amadureceu e escolheu o caminho certo. Assim como Drummond foi transgressor no princípio e acabou escrevendo sonetos em claro enigma, o mesmo acontecendo com Ferreira Gullar, dois dentre tantos exemplos que encontramos no mundo das artes. Tweedy chegou na idade da resignaçao e compôs, sem dúvida, seu melhor albúm daqui a 10 anos yankee hotel soará datado, sky blue sky é atemporal.

  5. Eu acho que o simples deveria ser enaltecido nos tempos difícies da humanidade.
    Me refiro a SBS, simples, mas muito digno de figurar em qualquer lista dos melhores do ano. Na minha modéstia opiniao, o segundo melhor da banda, só perdendo para o “insuperável” (até o momento) “Summerteeth”.
    Jeff Tweedy acertou em querer emular os velhos tempos de Wilco. Deu um tempo no experimentalismo genial de YHF e AGIB. Uma oxigenada setentista no som, porém, sem perder a qualidade.
    Discão!

  6. Meu velho Mac,

    Cara, esse álbum dá vontade de dizer tanta coisa. Estou viciado nele desde que baixei (seguindo sua orientação, eheh) acho que em Fevereiro ainda.

    Entendo o que vc diz Mac, mas eu achei lindo que o Jeff Tweedy tenha desencanado de soar vanguarda. É o disco mais pop do Wilco desde Summerteeth, e eu adorei o caminho de volta. Realmente esse disco soa atemporal, mas não vejo maior elogio que este.

    Either Way também é muito McCartney. E What Light é bem Bob Dylan, não achas:

    Bom, já desisti de desenvolver comentários mais estruturados e coerentes sobre o Wilco. Cada vez mais os caras fazem de mim um fã bobão e embasbacado.

    Abraço cara,

  7. Cara….

    achei o disco meio como um desses pedaços de bolo que a gente come qdo criança e que nunca mais esquece. Dai qdo encontramos algo parecido alguns anos depois, nos pegamos envolvidos em tantas memorias deliciosas que nem sabemos bem como funciona. Esse disco, ainda que seja um primor, me leva a lembrar de coisas lindas, como se emocionar com um disco todo…como conceito fechado e tals, em plena era do mp3. Emocionante e emocional, mas como vc bem disse , longe do emo.
    é isso, parabens pelo blog.

  8. Belíííííssima resenha, Marcelo.

    Comentar o q???.. hehe

    Cara, achei que só pelo fato deste ‘Sky Blue Sky’ soar mais simples, setentão e “datado”, frustrando expectativas, já valeu! hehe

    E qdo o Wilco não fez isso, afinal, surpreender…?

    E as músicas são gemas pop, melhoram a cada audição e, como já disseram, ‘SBS’ tem cara de disco (como só os grandes fazem), dá pra ouví-lo inteiro, sem pular, não é um amontoado de hits baladeiros hypados-morde-fronha e esquecíveis de 3 minutos. Claro, nada contra tbm… hehe

    E mr. Tweedy ainda tem o q dizer! Letras geniais, pra variar, nos lembrando q é pra frente q se anda, como vc muito bem frisou.

    Ok, não rola experimentação, “locomoção”… mas, pô, deixa o cara, ele tá curtindo um ‘back to basics’ (até a christina aguilera fez isso… hahaha =), como qdo nos presenteou o ‘A.M.’ há mais de 10 anos. Deve estar num clima “just chillin'” com a rapaziada da banda, só tirando um som (e que som!), tals… hehe

    Mas, no final das contas, é aquilo: anos 00, geral chupando aos trancos e barrancos o pior dos 80, daí vem o Wilco do nada e nos brinda com o melhor dos 70, só pra contrariar. Na boa, é muita onda! =)

  9. excelente álbum, mas com certeza ainda fica só na sombra do segundo melhor disco americano pra mim de todos os tempos. o Yankee. (primeiro pra mim fica com Pet Sounds)

    Até chegeui a me incomodar com algumas coisas no texo. Mas tipo, esse final “mas faz sentir saudade de um tempo em que Tweedy se arriscava muito mais nas trevas ao invés de ficar olhando o céu azul. Nada contra o céu azul, mas, você sabe, de vez em quando chove” , salvou a resenha brilhantemente
    Parabéns!

  10. Resenhaça meu caro,
    Transformar a melancolia em arte é para poucos e ainda fazer isso belo, menos ainda. Jeff Tweedy consegue.
    “Sky Blue Sky” tá na terceira posição do meu top de 2007 e so nao concordo que ele seja musicalmente o pior da carreira da banda, nao é um “Summerteth”, mas briga ali por uma posição melhor…
    E quanto aos ceus azuis, estamos precisando deles mais e mais meu caro amigo…
    Abraços

  11. esse comentário é pro post do wilco. sua resenha é genial, vc escreve incrivelmente bem. dá gosto de ler. com tanto blog de música por aí, sempre acabo aqui, e, concordando ou não, é sempre bom saber a sua opinião (vide o genial texto sobre o coxinha chris martin, de quem eu gosto mto mas reconheço q seu texto está genial).

    um beijo e
    parabéns, sempre
    =****

  12. Salve, Mac!
    Gostei muito da resenha do Céu Azul, mesmo que às vezes chova. :o)

    Tem jeito de deixar meu nome aí para concorrer ao CD do Ronei Jorge?

    Conheci um lugar para ver bons shows em Campinas. A arte continua me salvando por aqui.

    Grande abraço.

  13. Sky Blue Sky colou no meu mp3 e não dá sinais de que vá sair tão cedo, um disco lindo, sincero e mesmo que não chegue a superar os anteriores, ele nos oferece uma grata surpresa onde a previsibilidade da música pop reina. Adorei o texto, abraços meu caro

  14. oi marcelo, to de volta, sempre sempre com mais crises emocionais, mas sem perder a doçura!! tem tomado seu remédio?
    texto lindo, vc sabe que eu te adoro! mas para com isso cara, para de tentar impressionar sua garota porque ela deve te amar! todas essas bobagens que vc reivindica nas musicas do wilco a musica eletronica faz muito melhor (ou pior) vamo lá marcelão, abre o coração. esse disco do wilco é qualquer coisa de sensacional e é originalissimo. ninguem faz isso hj. não entendo o que vc julga moderno e muito menos a importancia de ser moderno. moderno é o david bowie. wilco aqui é trans-historico!!

    pare de pensar um pouco seu cabeça de melão!

    grande abraço!!

    1. Vou contar algo sobre esse cara que escreveu esse comentário: era emo sim.
      Que loucura, como eu falava besteira e escrevia mal (isso na vdd não mudou).
      E que falta de gentileza com o interlocutor, credo.
      Mas o engraçado é que o tempo passou, o mundo girou e eu continuo amando esse disco, talvez não pelos mesmos motivos, mas é uma audição prazerosa do primeiro ao último minuto nos meus ouvidos.
      As vezes o foco era mesmo nessa sonoridade e menos em “inovação”.
      E vc Marcelo, chegou a ouvir de novo esse disco?
      Abraço!

  15. Marcelo, adoro o Wilco! Adorei a sua resenha! Mas fico com vc até a parte do conceito do álbum, pois quanto a parte musical ainda acho o som bem maduro e isso não tem nada a ver com “chato” talvez, ao contrário, é saber o que “jogar fora”, agora, por mais que seja inovador – aquilo que não tem a ver com o estado de espírito da banda. Um constante vir-a-ser artistico! Um brinde ao Jeff Tweedy ao Wilco e a vc!

  16. Mac, afinal de contas…você gostou ou não do “A Ghost Is Born”?
    Visto que, na matéria sobre o próprio, você disse que era chato umas 30 vezes e agora aparece como terceiro disco predileto ahahah deixando ainda o o maravilhoso Being There em quarto…

    só curiosidade mesmo..

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