Música: “Neon Bible”, Arcade Fire

por Marcelo Costa

“Eu sei que o momento está chegando”, canta Win Butler em “Black Mirror”, faixa que abre – de forma densa – “Neon Bible”, álbum que surge com a tarefa inglória de superar a grandiosidade melódica e temática de “Funeral”, estreia dos canadenses em 2004. Porém, antes de pensar se a banda conseguiu parir um álbum a altura da estreia, a pergunta que martela o pensamento é: que momento está chegando, Win? A resposta surge algumas estrofes depois: “Espelho, espelho na parede, me mostre onde as bombas vão cair”. Se a tragédia familiar era o tema central de “Funeral”, o Arcade Fire retorna abraçando esta bolotinha azul (com sua camada de ozônio esburacada) chamada Terra e tenta nina-la em “Neon Bible”, o fim do mundo segundo os canadenses.

Interessante perceber o momento atual da música pop. De um lado – dançante e festeiro e dominado por luzes verde limão – temos o Klaxons implorando para que todos dancem até o fim do mundo, que deve bater as botas ali por 2012. No centro, radiografando essa loucura que virou o planeta Terra século XXI, temos o Bloc Party, do grande vocalista/letrista Kele Okereke, que ainda acredita na existência de heróis, mas no jeitão 2007 de ser herói: um cara armado de pistola, e que se entorpece de cerveja, foie gras, cocaína e Marlboro vermelho. Na outra ponta surge o Arcade Fire, sombrio, negro, com sua bíblia de neon em forma de música pop, melodicamente encantadora, tematicamente assustadora.

Se o campo temático se ampliou de Montreal para o mundo todo, a formação da banda não ficou atrás no quesito instrumentos, sobrepondo sons através de bandolins, fagotes, xilofone, harpa, piano, violino, violoncelo, órgão de música sacra (o disco foi gravado em uma igreja, aliás, assim como “Closer”, do Joy Division, outro álbum dominado pelo desespero) e… baixo, guitarra e bateria. Sem contar um coro militar e uma orquestra húngara. Essa profusão de instrumentos e instrumentistas deixou a música da banda grandiosa, mas não grandiloquente (aleluia, aleluia). Com os arranjos trabalhando a favor da canção, o Arcade Fire consegue o inimaginável: lançar um álbum tão poderoso quanto sua estreia.

“Black Mirror”, a tal música que quer descobrir o local em que as bombas vão cair, abre o disco com uma linha de baixo (aqui mais acelerada) que lembra “With Or Without You”, do U2. A voz de Win Butler, no entanto, lembra Ian McCulloch fase “Crocodiles/Heaven Up Here”, e os instrumentos vão pontuando o arranjo de forma sublime, até quase transformar a canção numa valsa. Teclados suntuosos, bandolim e bateria acelerada anunciam “Keep The Car Running”, uma canção estradeira, que registra o olhar de quem anda visitando muitos lugares pelo mundo, sem descobrir coisas que valham a pena em cada uma destas visitas: “É a mesma velha cidade, mas com um nome diferente”, explica o vocalista logo no início da canção. Quase no fim, ele avisa: “Se alguma noite eu não voltar para casa / Por favor não pense que eu te deixei sozinho”. Violinos se misturam com microfonias e bailam estrada adentro.

Após a correria da faixa anterior, “Neon Bible”, a faixa título, é um respiro. Mas um respiro pesado, quase lúgubre. O título da canção foi emprestado do romance homônimo de John Kennedy Toole, livro renegado pelo autor, e que só foi lançado postumamente, após o suicídio do escritor, aos 32 anos. O refrão da canção, tristíssimo até onde a tristeza pode chegar, prevê: “Se a bíblia de neon estiver correta, não existe muita possibilidade de sobrevivência”. Hora de respirar profundamente, puxar o ar dos pulmões e torcer para que nenhuma bomba caia enquanto o exemplar de sua bíblia predileta é vendido em algum canal de televisão.

Nenhuma bomba cai, bíblias brilham no escuro, e um órgão de igreja com notas de piano descendo como lágrimas anuncia “Intervention”, que logo na segunda frase diz que “a semente inútil foi semeada”. Backings distantes na mixagem surgem para assombrar a melodia, e conseguem transformar “Intervention” em uma das grandes canções do álbum. Mas ainda estamos no meio da caminhada. Precisamos rezar, erguer as mãos, e dar glória a Deus. “Black Wave/Bad Vibrations”, com Régine Chassagne conduzindo o vocal, serve para dar uma acalmada na alma. Depois de tanta tortura até acreditamos quando ela diz que podemos alcançar o mar (a terra prometida?), mas basta o conforto fazer colo em nossos ouvidos para Win Butler chegar chutando a porta, gritando “stop now” e avisando: “nada dura para sempre”. Ian McCulloch já havia cantado isso, mas de sua voz escorria tristeza, não desespero, como Win Butler.

O genial título “Ocean of Noise” entrega a grande canção de amor (no sentido “Crown Of Love”) do álbum, um lamento sobre os ruídos que separaram um casal. Antes dos olhos transformarem-se em oceano surge a trágica “Well & The Lighthouse”, que narra a história de um assassino que, após ser solto, volta a matar. “Os leões e os cordeiros não estão dormindo ainda”, diz ele sobre um final épico. “Antichrist Television Blues” é uma canção que funde a inspiração temática do Bob Dylan dos primeiros anos com uma execução a lá Bruce Springsteen. E é sensacional. Sobre o som de um violão nervoso, Butler conta a história de um pai que se sente no céu só de ouvir sua filha de 13 anos cantar. Ela está pregando as palavras do senhor, mas o pai está em dúvida se essa pregação levará sua família para o céu ou para o inferno. “Será que sou um anticristo?”, pergunta o pai na melhor letra do álbum.

Melhor letra? O páreo é duro com “Windowsill”, canção que surge na sequência falando sobre a terceira guerra mundial, sobre abandonar a casa dos pais, abandonar a América, sobre ser uma alma livre, sem endereço, lenço e documento, ou seja, sobre desistir de lutar. Sua estrutura melódica lembra “Black Mirror”, e ambas lembram U2. Win Butler enfilera “não quero isso e aquilo” na letra, mas no entanto, como você pode imaginar, desejos não são os sentimentos mais fáceis de se materializar no mundo do vocalista. Pequena pausa, e “No Cars Go” pula do EP lançado de forma independente em 2003 pela banda para a camisa 10 de “Neon Bible”. Sua mudança de ambiente serve para avaliar a evolução melódica do septeto entre um registro e outro, ou, como diria alguém, no quanto o dinheiro pode permitir luxos de produção. Fugir é o tema da canção, assim como o de todo o álbum. Deixar esse mundo que está se desmaterializando para trás, e ir para um lugar em que nenhum navio, nenhum submarino, nenhum carro chegue. Para fechar um grande álbum, uma canção magnífica: “My Boby Is A Cage”, que joga na lama toda esperança de redenção procurada – de forma inocente até – nas duas faixas anteriores. Como sonhar com liberdade se o próprio corpo é uma prisão? O problema, para Win Butler, somos nós mesmos.

Ouvir “Neon Bible” do início ao fim – saboreando seus 51 minutos – é uma experiência e tanto. Enquanto o Klaxons pede para você esquecer esse mundo maluco e dançar enquanto temos tempo; enquanto o Bloc Party fotografa situações do dia-a-dia e as transforma em música de qualidade; o Arcade Fire, por sua vez, pincela um quadro negro que deve ser observado como se estivéssemos olhando fixamente as imagens de um livro 3D daqueles “Olho Mágico”. Porque atrás da tinta negra há um mundo dominado pela televisão, a caixinha que emburrece; um mundo em que religião mais culpa que acalenta; um mundo em que assassinos seriais (loucos e governantes) seguem matando; um mundo em que falsos pastores vendem bíblias de neon e prometem a vida eterna em troca de seu dinheiro; um mundo prestes a acabar numa terceira guerra mundial. É o fim do mundo como nós o conhecemos. E você se sente bem, caro leitor?

Leia também:
– “The Suburbs”, a guerra suburbana de Win Butler em Houston, por Marcelo Costa (aqui)
– Arcade Fire ao vivo em Chicago: um dos melhores shows de rock da atualidade (aqui)
– “Funeral” fala sobre a vida de todos nós, todos nós, por Marcelo Costa (aqui)

18 thoughts on “Música: “Neon Bible”, Arcade Fire

  1. caro amigo biblias estão sendo vendidas em todas as partes do mundo.voçê sabia que a biblia é o livro mais vendido no mundo,mas eu quero te dizer que tem uma parte na biblia que está escrito assim.”e este evangelho será pregado em toda a terra e então virá o fim”por acaso voçê já ouviu falar deste testo?

  2. Pelo pouco que escutei do cd anterior da banda,percebi que ela tem grande potencial e muita criatividade;lançar um álbum que mostra o lado verdadeiro da estúpida “hipocrisia-falso-moralista” da bíblia é um bom exemplodisso…

  3. Neon Bible já havia me doutrinado há tempos, mas mesmo assim ótima resenha.

    E seguindo o mesmo tema apocalíptico, logo logo tem Year Zero do NIN.

    Ah, a letra de The Well and The Lighthouse parece até coisa do Nick Cave, só que menos grandiloqüente.

    Abraços.

  4. Concordo com você meu caro, o novo do Arcade Fire bate de frente em termos de qualidade com o primeiro, mas confesso que ainda prefiro este Neon Bible o grande disco do ano por enquanto ao lado do Wilco…
    Arcade Fire vira uma religião (ou anti) nesses tempos…muito bom!

  5. Em tempos de pastiche e bricolage, o Arcade Fire exala o frescor da criatividade, promovendo novas estruturas melódicas, abordagens interessantes de temas antigos e mais do que tudo, um conjunto de credenciais que já os tornaram “cult”

  6. interessante o Carlos Rodrigues ter citado aquele teXto.

    sobre o cd, é realmente muito bom, soturno e “opressivo” como muita gente gostaria de ser e não consegue.
    minha favorita é Black Waves/Bad Vibrations;

    e esse texto está ótimo, Marcelo! parabéns, meu caro!

  7. Estou curioso por escutar Neon Bible … mas ainda estou assimilando o céu azul , muito azul que o Wilco me proporcionou !!! Juro que estou escutando o disco aqui com um nó na garganta !
    ps : é isso aí Marcelo , pau no Chris Martin …hehehehe

  8. Bela resenha. O disco é realmente emocionante. Músicas trites que conseguem te deixar feliz. Vai ser difícil alguém superar Neon Bible esse ano.

  9. marcelo…pena que tenhamos trocado idéias por meio do comentário fraco do coldplay. foi tua pisada na bola, mas ao mesmo tempo, quero dizer que sempre leio teus textos e gosto muito. Há alguns que considero clássicos (as pontes de madison, por exemplo). tenho um livro sobre o rock paraense, o decibéis sob mangueiras. queria enviar a vcs aí.

  10. Marcelo, sempre gostei de ler seus textos, mas ultimamente eles estão bem ruins.

    Parece que vc quer agradar os leitores, não sinto verdade alguma nos seus argumentos.

    Assim, como as bandas, acho que seu melhor momente passou .

  11. oh… review incrível! conseguiu me fazer chorar! (nunca tinha chorado com um review)
    esse álbum é realmente poderoso, é incrível como eles continuaram grandiosos, sem dúvida o arcade fire é uma das maiores bandas (não estou falando só literalmente :p) que apareceram nos últimos anos.

    Parabéns pelo texto!

  12. O Radiohead já desacreditava desse mundo há muito tempo, e o Stereolab brincava sarcasticamente com isso também. O Of Montreal, focando mais no indivíduo, também não espera um mundo promissor, e no último album deles, quer que o mesmo se %!@$&@# O Arcade Fire é a banda pessimista da vez. E fazem isso de maneira maravilhosamente bonita. Só discordo com o que você disse de No Cars Go, que eu achava muito mais legal a versão do EP. BW/BV é o ponto “alto” do disco, e faz Ocean of Noise soar como se tivesse sido molhada por ela. Ela soa molhada, pela onda. Gostei da associação do vocal do carinha do AF com o do McCulloch. Tudo a ver mesmo! Parabéns.

  13. finalmente comprei o Neon Bible ( o deluxe), então fui ouví-lo pela primeira vez.. não sou fã de mp3’s enfim.. pra mim esse album é tão bom quanto o primeiro, é surpreendente mas muito mais intenso, além das ótimas letras. teve momentos que me senti como se estivesse num show cantando minha música favorita de tanto que envolvi com as músicas. excelente!

  14. eu nem ia ler, pois ja tenho o disco, mas a resenha é muito boa. Bom para esclarecer o contúdo das letras. A comparaçao do Echo procede, mas com U2 nao acho nao.

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