Plebe Rude conclama: vote em branco!

Houve um tempo em que o tom da voz de Philippe Seabra era o meu preferido de todo o rock nacional. Isso aconteceu na segunda metade dos anos 80, quando Brasília desceu para o Sudeste representada pelo som de bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Seguindo a risca a cartilha Clash de punk rock, a Plebe Rude de Philippe Seabra lançou três discos naquele período: o obrigatório “O Concreto Já Rachou” (um mini-LP clássico lançado em 1985), o bom “Nunca Fomos Tão Brasileiros” (da bonita “A Ida”, 1987) e o subestimado “Plebe Rude III” (1989), que chegou ás lojas quando o Plano Cruzado II chafurdava na lama.

É com certa nostalgia que me lembro daquele período. A abertura política fez com que todos sonhassem e, citando Renato Russo, cantar que “temos todo o tempo do mundo”, porque “somos tão jovens” lembra um tempo distante, um tempo perdido mesmo. A Plebe seguiu em frente após a dispensa da EMI, em 1990, lançando (como duo) o ótimo “Mais Raiva Do Que Medo” (1992), pelo selo Rock IT! (de Dado Villa-Lobos e André X). Depois disso, Philippe foi morar nos Estados Unidos e a banda só voltou a se reunir em 2000, com a formação original, para o lançamento do disco ao vivo “Enquanto a Trégua Não Vem”. A reunião previa um disco de inéditas, mas foi tão meteórica (e tão briga de egos) quanto a do Velvet Underground em 1993.

Mais de vinte anos depois de sua estréia, a Plebe Rude retorna com disco novo, e a sensação de que o tempo passou (e de que foi tempo perdido, mesmo) é bastante cruel. A voz de Philippe não é mais a mesma. Jander, cujo vocal contrastava com o de Seabra na fase clássica do grupo, não está na empreitada, cedendo seu lugar para Clemente (Inocentes), que segue a mesma linha do vocal anterior sem comprometer. André X ainda segura o baixo. Txotxa, ex-Maskavo Roots, ficou responsável pelas baquetas. O quarteto está lançando o disco “R Ao Contrário”, que surge encartado na revista OutraCoisa, ao preço de R$ 14,90.

Perto da discografia oficial da Plebe Rude, “R Ao Contrário” é um disco menor, emulando uma sonoridade que aguarda por uma temática que não vem. Em um mundo de emos e emas inconformados com as dores do coração, a Plebe teria tudo para ser a salvação da lavoura com um afiado álbum politizado. Porém, impossível que uma das bandas mais politizadas da história do rock brasileiro acredite – inocentemente – que “aqui se faz, aqui se paga”, como prega a letra da música que abre o disco. Exemplos do contrário existem aos montes. “Eu me rendo à falta de opção”, aceita a letra de “Discórdia”. Em “Suficiente Por Um Dia (ou Dois)”, Philippe assume: “Sempre me pareceu errado escolher as armas antes do seu lado”. Em um período de descrença na instituição governo – que deve celebrar um recorde de votos nulos na próxima eleição – era de se esperar mais de Philippe e da Plebe Rude.

No entanto, uma luz se acende na última música do CD. “Vote em Branco” é música de primeira hora da Plebe Rude, em 1981. Enquanto a Legião Urbana perguntava “Que País É Esse?”, a Plebe conclamava jovens eleitores a votar em branco. Era 1982, e o primeiro show do grupo foi num festival em Patos de Minas, ao lado de outras bandas, e a execução da música rendeu uma noite na delegacia (a Legião também foi detida pelo conteúdo literário de “Música Urbana II” e “Que País É Esse?”). O episódio entrou para a história do rock nacional, mas a música permaneceu inédita por 25 anos. Nada mais apropriado do que lançá-la às vésperas das eleições presidenciais.

Dizem que é tremendamente fora de moda falar de política em uma canção pop hoje em dia. Bobagem. Um dos discos obrigatórios de 2006, “Living With War”, de Neil Young, pede o impeachment de George W. Bush e desanca o presidente norte-americano – e seu modo de enganar o povo – em várias canções. Não é porque o mundo virou emo que não se deve falar de política no rock. Aliás, muito pelo contrário. O namoro da política com o rock é histórico. Se uma canção vale um CD, essa canção é “Vote em Branco”. Confira a letra:

“Imaginem uma eleição em que ninguém fosse eleito
Já estou vendo a cara do futuro prefeito
Vamos lá chapa, seja franco
Use o poder do seu voto, vote em branco

Vote em branco!

Seja alguém, vote em ninguém
Seja alguém, vote em ninguém
Seja alguém, vote em ninguém

Esquerda direita, em cima em baixo
Você assim e eu assado
Quando vamos para de tomar lados?
Quando vamos parar de ser enganados?

Enganados!”

O melhor momento da letra, cantada pelo baixista André X, é declamado no final da música:

“Você está sentado no bar, num happy hour tomando um choppinho no fim de tarde, quando entra um cara cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. Você olha pra ele, não presta atenção, acha que é um louco. Agora, duas pessoas. Duas pessoas entrando no mesmo bar cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. Vão achar que são dois palhaços, ainda não vão prestar atenção. Mas agora são dez pessoas em volta do bar marchando e cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. As pessoas vão colocar os seus chopps na mesa e vão prestar atenção. Elas vão achar que é uma gang. Agora temos 100 pessoas andando pela rua e cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’ atraindo mais e mais pessoas. As pessoas vão ver que é um movimento, elas vão aderir. E é isso mesmo. Elas querem mandar uma mensagem. E a mensagem é essa: Estamos de saco cheio de não sermos representados. Estamos de saco cheio de só sermos lembrados de quatro em quatro anos quando vocês querem nossos votos. Vocês não nos representam, por isso vamos ser alguém e votar em ninguém”.

Ouça a música

E até semana que vem.

Ps1: O site oficial da Plebe Rude é bem bacana com histórias sobre as gravações de cada disco. Vale uma visita, e é uma aula para jovens bandas: Plebe Rude

Ps2: Você quer saber sobre o show do Franz Ferdinand, né. Escrevi sobre ele no S&Y. Confere o texto aqui.

Ps3: A revista Rock Life 8 vai para o Fausi, de São Paulo. Nesta semana, o item a ser sorteado é uma camiseta do projeto Veludo Subterrâneo, que está agitando shows de rock pelos lados de Araraquara e Ribeirão Preto. Nesta sexta, a festa Groselha Fuzz, no Bronze Night Club (Ribeirão Preto) recebe Os Telepatas e Monokini. O Bronze Night Club fica Av. 9 de julho, 59 e a balada começa às 23h. No sábado, Telepatas e Monokini tocam em Araraquara, no Mister House Music Bar, a partir das 22h. Saiba mais infos no fotolog fotolog do projeto. E concorra a camiseta escrevendo pra mcosta@ig.com

Ps4: Revoluttion também é cultura: voto em branco e voto nulo são iguais! O voto nulo se dá quando o eleitor digita na urna eletrônica um número que não seja correspondente a nenhum candidato ou partido político oficialmente registrados. Ele é apenas registrado para fins estatísticos e não é computado como voto válido, ou seja não vai para nenhum candidato, partido político ou coligação. O voto em branco acontece quando o eleitor manifesta sua vontade de não votar em nenhum candidato ou partido político apertando a tecla “branco” na urna eletrônica. O voto em branco, assim como o voto nulo, é apenas registrado para fins estatísticos e não é computado como voto válido, ou seja, não vai para nenhum candidato, partido político ou coligação. Antes da Lei 9.504/97, o voto em branco era considerado válido, hoje em dia não é mais. Ou seja, voto em branco ou voto nulo não são computados na eleição.

Ps5: Entrando um pouco mais em política, nessa confusão toda do escândalo da fita e fotos compradas pelo PT, grande parte da imprensa está mais interessada em fazer uma cortina de fumaça e não está mostrando realmente o que interessa: a íntegra do vídeo do empresário Luiz Antonio Vedoin que foi apreendido pela Polícia Federal. Como diz a letra de uma das músicas novas da Plebe Rude: “Sempre me pareceu errado escolher as armas antes do seu lado”. Antes de dizer quem é culpado, vale assistir ao vídeo. Ele mostra um evento realizado em 7 de maio de 2001, quando o então ministro José Serra participou da entrega de 40 ambulâncias para cidades de Mato Grosso. Assista. E depois confere os comentários do Zé Dirceu em seu blog. Este post é bem interessante também.

Ps6: De maneira alguma estou tomando partido. Pelo teor desta coluna você já deve imaginar pra onde vai o meu voto. A questão toda é longa, mas o “jornalismo isento” está cada vez mais nojento. A idéia é que você ‘ouça’ os dois lados. Depois tome a sua decisão.

Ps7: Aliás, já que usei a expressão ‘ouvir os dois lados’, está sensacional a entrevista com os Mutantes na mesma OutraCoisa que traz o CD da Plebe. A jornalista Christiana Furtado conversou com Arnaldo Baptista na gravação de um programa de TV. E entrevistou Sérgio Dias por telefone. Sete perguntas para os dois. As mesmas sete perguntas. Sete respostas diferentes uma da outra. :o) Ela pergunta: Ainda há aquela velha discussão sobre guitarras? Sérgio responde: ‘Nunca teve isso, é uma grande bobagem’. Na vez de Arnaldo: ‘Continua. Acabei de falar que não era baixo Gibson, que era Fender’. Imperdível!!!

8 thoughts on “Plebe Rude conclama: vote em branco!

  1. cara, parabéns pelo texto da Plebe, bons tempos do rock de Brasília… quero escutar esse novo CD deles… pena que o Ameba não faça mais parte… Atualmente, ao menos nos últimos tempos, ele estava trabalhando como roadie do Nando Reis… Nunca vi show deles, reza a lenda que eram incendiários, talvez não sejam mais, mas ainda assim gostaria de ver… abços

  2. Anular o voto é a maneira que encontrei de demonstrar minha insatisfação profunda com o cenário político atual. E sei que muita gente pensa como eu.

    a entrevista com os mutantes está hilária. nunca vi duas pessoas discordarem tanto.

    beijinhos

  3. só uma observação: se o voto nulo/branco não é computado, o beneficiado é o candidato que está na frente na contagem dos votos.
    a chance de ser derrotado/ultrapassado diminui a cada voto branco/nulo.

  4. Olha…. Sinceramente…. se era para o Plebe Rude voltar cantando uma letra tão ridiculamente pequena e anacéfala desse jeito era melhor não yrt voltado. Horrível. Vou continuar ouvindo “Até Quando Esperar”, essas sim, feita antigamente pela Plebe Rude mas sempre atual. “Voto em branco” ?!?!? Plebe, por favor, vejam o que vocês escreveram antigamente, caras! Putz! Vocês perderam o gosto, foi?

  5. grande marcelo…
    boa relacao entre a musica e a politica, parabens pela iniciativa, pq so o hype deixa a mlocada muito alienada. Parabens pelo texto do Franz, “como quisesse se livrar do seu uniforme de roqueiro vale a resenha” valeu!!!

  6. tente saber do Jander o que ele acha dessa nova tentativa da Plebe e o que se ouvirá é um seco “o Phillipe é maluco, cara!”

    ser punk é ser como o Jander que cagou pra tudo e todos e hoje é bem feliz tocando viola, tirando fotos de plantinhas e trabalhando como roadie do Nando Reis.

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