Cinco shows em uma semana

por Marcelo Costa

Shows, shows e mais shows. Começou a badalada temporada de shows que promete agitar o segundo semestre no País. Como nem só de rock vive quem ama realmente a música, o passeio semanal da Revoluttion flagrou Wado entortando o samba no Studio SP, Chico Buarque jogando pérolas aos porcos no Tom Brasil, Tortoise destruindo tudo no Sesc Santana, Cardigans causando bocejos no Via Funchal, e o Gang of Four dando um show de técnica e presença de palco. Saiba mais sobre cada um dos shows abaixo:

31/08/2006 – Wado e Realismo Fantástico, Studio SP
Em entrevista a este colunista, o cantor e compositor catarinense – radicado em Maceió – havia prometido um show de “música terceiro-mundista sem ranços nem vícios”. Ele só não falou que um dos melhores repertórios da nova música brasileira viria encorpado de batidas fortes, aproximando seu samba torto da música eletrônica. Dono de uma belíssima carreira de três discos, em que se destacam o hit “Tarja Preta” e o excelente álbum “A Farsa do Samba Nublado”, Wado – acompanhado da excelente banda Realismo Fantástico – fez um show impecável, em que além de recriar com genialidade ótimas canções como “Tormenta”, “Ontem Eu Sambei” e a própria “Tarja Preta”, abriu espaço para inéditas como “Pedra” (que está sendo gravada por Maria Alcina), “Melhor” e “Teta”, além da bonita versão de “Hortelã”, do Fino Coletivo (do qual participam Wado e o violonista mestre no wah-wah Alvinho). O acréscimo da guitarra de Caetano deu mais liberdade para Alvinho conduzir – e entortar – as canções. “Terceiro Mundo Festivo”, título provisório do novo disco do cantor, promete.

01/09/2006 – Chico Buarque, Tom Brasil
Uma menina, meio alterada pela bebida, comenta com um amigo: “Eu gosto de música carioca”. Ela segue num cambalear falatório bêbado que, por vezes, encobre a voz de Chico, que está apresentando um repertório de novas canções após sete anos de afastamento dos palcos. O público parece não se preocupar. Uma menina grita: “lindo”. Outra, minutos depois, segue o exemplo. Até que uma voz – masculina – exalta a beleza de um dos maiores brasileiros vivos: “lindoooooo”. Penso com meus botões: Chico está jogando pérolas aos porcos. Quantos ali perceberam a beleza de futuros clássicos como “Outros Sonhos” (do bonito verso “Eu sei que o sonho era bom / Porque ela sorria / Até quando chovia”) ou “Ela Faz Cinema” (da quase discreta frase “Eu não sei / Se ela sabe o que fez / Quando fez o meu peito / Cantar outra vez”)? Acompanhado de um afinado septeto, Chico só se dirigiu ao público uma vez, para apresentar uma música em parceria do baixista Jorge Helder. Mais seria impossível. A unanimidade (burra, sempre lembra Nelson Rodrigues) e a beleza física de Chico são – hoje – mais importantes do que a música que ele compõe e canta. Ele não tem culpa, nem a menina que gosta de “música carioca”, nem o rapaz que gritou “lindo”. Ninguém tem culpa. Não temos culpa de sermos jovens demais para termos visto Chico ao vivo em 1960 e pouco, quando ele não era essa unanimidade toda, e o público se preocupava mais com a música do que com sua beleza física. No entanto, quer saber: “João e Maria” emocionou, mesmo com todo o coro dos contentes acompanhando uma música super-hiper-maxi-conhecida (algo raro – graças – no show novo).

05/09/2006 – Tortoise, Sesc Santana
Preciso confessar: eu tinha medo do Tortoise. Medo, medo mesmo. Pavor. Não pelo som da banda, que eu nunca tinha ouvido até então, mas porque todas as definições que me deram sobre o Tortoise em anos e anos pintavam o som dos infernos. Foi tipo aquela história do “nunca comi, mas não gosto”, entende. Esse equivoco foi atropelado pelas duas baterias dissonantes do grupo na apresentação do quinteto no Teatro do Sesc Santana. Por influência de Carlos Freitas, decidi encarar a banda, e o assumo que saí surpreso. Há uma dinâmica no som do Tortoise que me interessa muito. Uma paixão pelos riffs fortes de guitarra tanto quanto pelas batidas suaves dos vibrafones que se faz urgente no palco. As imagens no telão apenas completam o pacote. John McEntire, o chefão, posa de psicopata. A banda diverte, e assusta. Em algumas passagens lembra Mogwai. Em outras, música brasileira. Em “It’s All Around You”, minha preferida do show, o som tristonho da guitarra paga tributo para o tango argentino. Após pouco mais de uma hora e vinte minutos, e três retornos para o bis, o Tortoise conquistou meu gosto pessoal com uma grande apresentação.

06/09/2006 – Cardigans, Via Funchall
Nina Persson é pequenina e bastante simpática, mas tem um vozeirão de gente grande. No entanto, não bastam voz e simpatia para se fazer um grande show. É preciso algo mais. Não que a banda toque mal ou algo assim. É tudo certinho no show do Cardigans. Até demais. Na verdade, o problema é que duas bandas se chocam ao vivo: a do começo de carreira (mais dançante e desencanada) com a mais recente (cerebral e roqueira). O resultado deste embate é um show morno, que parece que vai pegar fogo a qualquer momento, mas nunca chega a incendiar, mesmo em hits do quilate de “Lovefool” (com belo vocal de Nina, principalmente no refrão), e na acelerada versão de “My Favourite Game”, que fechou o show. Canções novas como “Godspell” e “I Need Some Fine Wine and You, You Need to Be Nicer” (ambas do excelente “Super Extra Gravity”) soaram fortes, mas não salvaram o show de ser tedioso em vários momentos. E já que as meninas (e os meninos) podem gritar que o Chico é lindo, deixo aqui meu comentário extramúsica: a Nina Persson de cabelos pretos do álbum “Lone Gone Before Daylight” é muito mais bonita que esta que passou por São Paulo nesta noite. Gosto pessoal, gosto pessoal…

06/09/2006 – Gang of Four, Via Funchall
Quando o Gang of Four pisou no palco do Via Funchall, já a 1h da manhã do dia 07 de setembro, o rock nacional anos 80 deve ter tremido nas bases. Edgard Scandurra e Dado Villa-Lobos estavam presentes para reverenciar um dos maiores guitarristas de todos os tempos, o gentleman Andy Gill, que influenciou meio rock nacional com seu jeito de tocar guitarra. Sérgio Brito (dos Titãs) não deu as caras, talvez intimidado. Nos anos 80, Brito roubou uma estrofe inteira do clássico “Damaged Gods”, traduziu e colocou na sua “Corações e Mentes”, sem creditar o Gang of Four. Ficou legal, mas foi descoberto. No entanto, o respeito, a influência e a babação não é algo só nosso. Metade do Novo Rock vai na cola do Gang of Four. De Rapture a Bloc Party, passando por Art Brut, Franz Ferdinand e Radio 4 (esse, até no nome), uma das poucas coisas úteis que o Novo Rock realizou até o momento foi trazer o devido reconhecimento ao senhor Andy Gill. Mas, não é tarde demais? Não, caro amigo, não. O que se viu no Via Funchall foi um acerto de contas com a história do rock num show caótico no perfeito conceito destas duas palavra – juntas ou solitárias. Gill deu uma aula de como tocar guitarra, indo das dissonâncias mais barulhentas até o silêncio mais delicado, mostrando ainda que há espaço para o groove no rock. Se Andy Gill foi um show a parte, o vocalista Jon King não ficou atrás. Seja cantando ferozmente, pulando no palco como um macaco, rolando pelo chão, convocando o público a cantar ou fazendo a marcação da música malhando um taco de beisebol sobre um forno microondas, Jon King deu espetáculo. Andy Gill também. A abertura do show, com clássicos do clássico álbum “Entertaiment” (1979) sendo executados em seqüência (“Return the Gift”, “Not Great Men”, “Ether”, “At Home He’s a Tourist”) e o bis com “I Love Men in Uniform” e “I Found that Essence Rare” foram de emocionar. Obrigatório.

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Ps1: E eu ainda perdi o show do Slayer. Os amigos jornalistas Carlos Augusto Gomes, do iG Pop, e Sergio Martins, da Veja, foram só elogios… Agora é se preparar para ver Franz Ferdinand, na semana que vem…

Ps2: Gosto de Cardigans, ok. O show foi frouxo, amigos disseram que se a banda tivesse nascido aqui teríamos dois Kid Abelha nas paradas, mas não é por esse lado também. Talvez seja o fato de que existem bandas que funcionem ao vivo, e outras não. O Cardigans é do segundo grupo. Mas mesmo assim descubra o excelente “Super Extra Gravity”.

14 thoughts on “Cinco shows em uma semana

  1. Caramba não ganhei os buttons, ok tudo bem, nem sempre se consgue tudo que queremos…

    Parabéns pela coluna Marcelo.

    Abração.

  2. fala, marcelo! quando puder, dê uma conferida nos mp3s da minha banda no Trama Virtual (mais precisamente as gravações toscas das Anti-Baleias Tapes) e no meu blog O Som da Música. Não há melhor lugar pra escrever do que no seu próprio blog, concorda? Quando eu tiver mais novidades, te aviso. abraço, sem mais delongas.

  3. hum..

    1) twilight singers – 40 dollars
    2) sunset rubdown – stadiums and shrines
    3) destroyer – painter in your pocket
    4) built to spill – goin´ against your mind
    5) rapture – get myself into it

    1) twilight singers – powder burns
    2) sunset rubdown – shut up i´m dreaming
    3) tv on the radio – return to cookie mountain
    4) decemberists – the crane wife
    5) cursive – happy hollow

    E pena o gang of four não ter passado pelo rio. A gente ficou com a escalação fraquinha do Tim Festival, ao invés.

  4. O Racounters com o Lou foi visceral, por asim dizer…E eu ainda nem sei o que faço nos melhores no ano, realmente, muita coisa boa…

    Abraços

  5. enviado por: Mac
    Ela falou um monte de coisas fofinhas, vai.

    Ai, Mac, ela falou, mas soltou um “same old %!@$&@#” no final de “Lovefool” que estragou tudo. Sabe, não quer tocar aquela música, não toca. Mas não faz malcriaçãozinha com o público que ninguém tá lá pra isso.

    E eu gosto de muitas meninas e to sempre falando bem delas, que gente distraída…

  6. sobre o gang of four em belo horizonte, totalmente excelente.
    felipe seabra do plebe tava lá.
    fabrício miranda, dj da funhouse, também.

  7. Fala, Marcelo !!

    Ainda não ouvi o Novo do Dylan e muito menos Automatic ou Be Your Own Pet, mas gostei de vc ” responder” a crítica do Thiago Ney…..

    abraço

  8. 1- Sou muito suspeita pra falar de Wado e Realismo Fantástico, mas lá vai: Gostei muito dos shows (pena que começaram muito tarde e a vida de quem acorda cedo para trampar não é fácil) as releituras foram fundamentais para mostrar o rumo que as coisas estão tomando, as músicas novas não me surpreenderam (e isso não é ruim) pela qualidade, letras fortes e um tanto polêmicas. Concordo com você, com a guitarra do Caetano mais espaço para criação do Alvinho.
    2- Mais uma vez suspeita, o show do Chico foi lindo e sim, foi duro ter que aguentar os gritos de “lindoooo” e afins. Os “futuros-clássicos” casaram muito bem com os “antigos clássicos” escolhidos para o show. Quase temático. Cenário/iluminação lindos.
    3- Triste que não vi o Tortoise, haja tempo e grana!
    4- Cardigans: zzzzzzzzzz. Chato. Também, covardia dividir a noite com Gang of Four.
    5- Gang of Four: Sou uma pessoa mais feliz por ter tido o prazer de ver esse %!@$&@#show. Nunca vi uma banda tocar com os instrumentos naquele volume. Impressionante.

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