Música: “Eyes Open”, Snow Patrol

Texto por Marcelo Costa

Quando “Eyes Open”, quarto álbum da carreira dos escoceses do Snow Patrol, apareceu no topo da lista de discos mais vendidos na Europa na primeira semana de maio, o mundo se surpreendeu. Se você, leitor esperto, for ao Google e der uma busca com as palavras “parada britânica’ irá ter a prova desta afirmação. Ora, se o disco saiu no começo de maio, deveríamos ter as paradas das semanas seguintes destacadas no Google, mas acontece que a metade do mundo que não acompanha música se surpreendeu de tal forma com as vendas de “Eyes Open” que achou que o Snow Patrol estar no topo da parada britânica (pela primeira vez) era uma grande notícia. Porém, quem acompanha a banda (ao menos desde que “Final Straw”, o disco anterior, vendeu 2 milhões de cópias) sabe que o passo adiante rumo ao posto número 1 dos charts ingleses era nada mais do que um passo natural. E se tomarmos “Eyes Open” como combustível para esta caminhada, era extremamente óbvio que o Snow Patrol iria amanhecer como a “nova sensação da imprensa mundial”.

“Eyes Open’, que já está vagando pela Internet desde meados de março (o que corrobora a velha afirmação de que um disco vazar não atrapalha sua escalada nas paradas), acaba de ganhar edição nacional, e mantém o nível de inspiração exibido em “Final Straw”, com um ponto positivo: a banda parece afiada no ideal de compor grandes canções pop. A fórmula continua sendo a mesma do disco anterior, uma mistura tão homogênea quanto inspirada que ousa juntar numa mesma canção “os arranjos sinfônicos do Echo & The Bunnymen, o vício pelo doce psicótico do Jesus & Mary Chain e a obsessão pelas alfinetadas de eletrônica do Joy Division“. Assim como no disco anterior, o resultado é um britpop que, agora mais do que nunca, remete ao Coldplay, com uma grande diferença: Gary Lightbody, o líder do Snow Patrol, sabe escrever pop songs vigorosas e não têm medo de enfiar os pés na pedaleira de distorção transformando uma simples balada em uma canção de fazer o vizinho reclamar tamanho o barulho. “Eyes Open” começa matador, mas não mantém o pique no álbum todo. Porém, quando a banda acerta, acerta mesmo.

A banda dá as cartas exibindo as características acima logo no trio de canções que abre de forma espetacular o disco: “You’re All I Have”, “Hands Open” e “Chasing Cars”. Se 2006 tivesse que ser representado apenas por três canções, estariam aqui três seríssimas concorrentes. “You’re All I Have” foi o primeiro single do álbum e lembra bastante o pique de “Spitting Games”, uma das canções mais assobiáveis de 2004, destaque do álbum “Final Straw”. A bateria, seca e acelerada, abre espaço para um forte riff de guitarra, que surge acompanhado por um backing vocal docinho. Uma linha de baixo suja faz às vezes de guitarra base e o refrão é uma explosão de melodia: “Eu não tenho medo de nada / Você é tudo que eu tenho”, diz a letra.

“Hands Open”, a seguinte, é uma porrada. Bateria de marcação seca, novamente, mas muito mais lenta que “You’re All I Have”. O riff de guitarra é sujo, pesado. A letra cita Sufjan Stevens e traz Lightbody cantando com força: “Abro minhas mãos, abro meus olhos, e fico a esperar que meu coração se abra”. Já “Chasing Cars’ é tudo aquilo que Chris Martin sonha escrever um dia. Quatro acordes que se repetem e se repetem e se repetem, ambientados por alfientadas de eletrônica, um riff bonito de guitarra e a voz de Lightbody, recitando uma letra que traz um personagem cuja aquelas três palavrinhas já não são suficientes para representar um amor. A canção cresce lentamente, bem lentamente, até receber, no final, uma avalanche de guitarradas, que faz da música um pequeno épico. Impossível não se arrepiar com Lightbody quando ele olha para seu par e pergunta: “Se eu me colocar aqui, você ficaria comigo e esqueceria do mundo?”.

Após este trio matador de canções (as três disponíveis para download no endereço da banda no My Space), “Eyes Open” dá uma pequena caída. “Shut Your Eyes”, a faixa seguinte, traz o título do álbum, tem acento soul, com riff repetido de guitarra e bateria dançante, mas soa apagada. A letra é simples e boa. “It’s Beginning To Get To Me” segue a linha de “Spitting Games”, com riff em forma de solo abrindo a melodia, para se transformar em uma boa canção britpop, que marca a entrada dos teclados com mais presença nos arranjos. “You Could Be Happy” traz Gary Lightbody cantando sobre o som de uma caixinha de bailarina enquanto “Make This Go On Forever” – a mais longa canção do disco, chegando perto dos seis minutos – escorrega no arranjo, pretensioso e chato, e poderia muito bem estar em “X&Y“, do Coldplay. “Set The Fire To The Third Bar”, a próxima, iria ter o mesmo destino da anterior, caso a cantora Martha Wainwright não surgisse em dueto com Gary Lightbody, dando vida à canção. O rock volta a marcar presença com a aceleradinha “Headlights On Dark Roads” e a calma “Open Your Eyes”, que não mantém o brilho do início do álbum, mas servem para acordar o ouvinte após duas baladas melosas, e preparar para a arrastadíssima “The Finish Line”. A edição britânica do álbum ainda conta com a boa “In My Arms’ e a fraca “Warmer Climale”.

Após começar indie, lançando pelo pequeno selo Jeepster (sim, o mesmo do Belle & Sebastian, cujos membros participaram dos dois primeiros discos do Snow Patrol), a banda de Gary Lightbody ganhou atenção mundial com “Final Straw”, que deixou o grupo na marca do pênalti para ser a “nova sensação da música pop mundial”. A estréia no topo da parada britânica é um dos primeiros sinais que “Eyes Open” coloca o Snow Patrol definitivamente no páreo. Os Estados Unidos, território sonhado por qualquer banda do velho mundo, parece estar aceitando bem o grupo. “Eyes Open” estreou em 34º lugar na Billboard, e a banda “passeia” pelas terras de George W. Bush em uma turnê praticamente “sold out”, cujo maior sintoma pode ser avaliado pelo fracasso que os badalados Arctic Monkeys tiveram por lá: a banda queridinha da imprensa britânica no momento, recordista de vendas de um álbum na semana de estréia, teve que cancelar metade de sua turnê norte-americana, e voltar para a Inglaterra com as guitarras entre as pernas. Quietinhos, na deles, mas de olhos abertos, o Snow Patrol caminha para ser a grande banda escocesa do momento. Chris Martin precisa tomar cuidado, pois pode ver o Coldplay ter seu brilho ofuscado pelo Snow Patrol. “Eyes Open”, o disco, tem repertório para isso. Será que existe justiça no mundo pop?

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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