Cinema: “Orgulho e Preconceito”, de Joe Wright

por Marcelo Costa

A escritora Jane Austen é uma verdadeira celebridade na Inglaterra, sendo considerada a segunda figura mais importante da literatura inglesa, ficando atrás apenas de William Shakespeare. Com apenas seis livros na bagagem (dois deles lançados postumamente, após sua morte prematura, aos 42 anos), Austen imprimiu personalidade aos seus escritos, derramando sobre páginas e páginas romances quase impossíveis que terminavam com finais felizes, mas que, sobretudo, analisam de forma direta – e sem rodeios – as relações pessoais da sociedade em que vivia. “Jane Austen é a última representante da tradição clássica (grega e cristã) das virtudes”, definiu o filósofo Aladair MacIntyre. A observação é interessante: Austen conseguia soar tradicional em seus escritos e pensamentos muito embora preenchesse suas histórias com heroínas à frente de seu tempo, que não se deixavam comprar por dinheiro ou por casamentos de conchavos.

Das principais obras de Jane, chegaram às telonas “Razão e Sensibilidade”, com direção de Ang Lee (“Brokeback Mountain”) e com Emma Thompson e Hugh Grant nos papéis principais, “Persuasão” e, ainda, “Emma”, adaptado numa versão pop e adolescente como “As Patricinhas de Beverly Hills”, com Alicia Silverstone e Brittany Murphy. “Orgulho & Preconceito” foi o segundo livro de Austen, já virou série de TV na Inglaterra, ganhou quatro adaptações cinematográficas, e chega aos Brasil destacando o belo nariz de Keira Knightley (dona, também, do “sorriso não sorriso” mais fofo do cinema atual), que concorre ao Oscar como Melhor Atriz em um filme que não convence em uma primeira impressão, mas necessita ser descorberto.

A rigor, as histórias de Austen retratam a aristocracia britânica do século XVIII (importante frisar: “Pride & Prejudice” foi lançado em 1813). Isso quer dizer que há muita pompa nos cenários, nos figurinos e no texto, tudo para identificar uma sociedade preconceituosa, cujos dotes financeiros eram muito mais importantes que o desejo pessoal, principalmente o feminino. Entre as principais atividades da sociedade, grandes festas, visitas, passeios e piqueniques. É neste contexto que a espevitada Elizabeth Bennet (Keira) conhece Darcy (Matthew Macfadyen) em uma festa. O casal se estranha e termina por trocar algumas farpas deliciosamente acalantadas pela finesse do vocabulário clássico. Darcy é um homem rico, arrogante e com cara de poucos amigos. Elizabeth é decidida, inteligente, mas sua família está à beira da falência.

Neste ponto surge a presença de um personagem extremamente importante na história: Sra. Bennet (Brenda Blethyn), a mãe de Elizabeth e de suas outras quatro irmãs. A Sra. Bennet quer porque quer casar as suas cinco filhas com bons partidos, que além de trazerem respeito ao nome Bennet, também se transformem em um bom futuro para as meninas. Ela não mede esforços para isso, embora termine sempre causando algum estrago, incômodo ou motivo de chacota para as outras famílias. A atriz Brenda Blethyn irrita e diverte com seu personagem. O cerne do filme é exibido neste contexto: os personagens femininos de Jane Austen são fortes e orgulhosos, com personalidades bem à frente de suas épocas (é interessante lembrar que mesmo a autora lançou seus livros anonimamente, já que não era de bom tom uma mulher se lançar na carreira de escritora) e que lutam o quanto podem para se manterem dignas e honradas.

É exatamente neste ponto que a história já não convence. Em 1787 era possível discutir honra e dignidade, mas hoje as duas palavras estão tão fora de moda que seria necessário conferir se elas ainda constam de novos dicionários. O feminismo conseguiu um bom espaço na sociedade, embora ainda necessite de mais conquistas. O casamento por dote ainda existe, em pequenos núcleos aristocráticos, mas a liberdade de escolha se tornou muito mais comum nos dias de hoje, embora dinheiro ainda seja um assunto tabu nos relacionamentos modernos. Casamento por obrigação e golpes do baú são tão deja vus quanto carruagens, vestidos longos e relógios de bolso, ou melhor, relógios, já que todos agora consultam as horas no celular. O que “Orgulho & Preconceito” traz de novo para a sociedade moderna? A segunda impressão, caro leitor.

Logo no início do filme, Elizabeth aparece lendo um livro chamado “First Impressions”. Trata-se do título original dado por Jane Austen a “Orgulho & Preconceito”, que posteriormente mudou de nome. Retirando de seu segundo título o caráter ambivalente de luta de classes e valores, a história se torna muito mais interessante para o público moderno. “Orgulho & Preconceito” é, na verdade, a história de um casal que se odeia à primeira vista, mas acaba por descobrir que este ódio é o disfarce do amor. Com sublime leveza, Austen questiona o velho ditado que defende que “a primeira impressão é que fica”. Elizabeth odeia Darcy com toda a força de seu nariz empinado. Darcy odeia Elizabeth com toda aspereza de seu inglês lento e carregado. Os dois personagens travam uma guerra pessoal, cada um em seu mundo de sonhos e fantasias, revelando por fim que a personalidade de ambos é mais próxima do que eles mesmos pudessem supor. Há preconceito em Darcy, há orgulho em Elizabeth, e tudo isso surge de uma primeira impressão, que logo será absorvida pela convivência, e pelo amor. “Orgulho & Preconceito” é a vitória da segunda impressão.

Transposta para os tempos modernos, o pensamento de Austen merece respeito, admiração e profunda análise. Como observou sabiamente o colunista João Pereira Coutinho, do UOL, “o amor não sobrevive aos ritmos da nossa modernidade. O amor exige tempo e conhecimento. Exige, no fundo, o tempo e o conhecimento que a vida moderna de hoje não permite e, mais, não tolera: se podemos satisfazer todas as nossas necessidades materiais com uma ida ao shopping do bairro, exigimos dos outros igual eficácia. Os seres humanos são apenas produtos que usamos (ou recusamos) de acordo com as mais básicas conveniências. Procuramos continuamente e desesperamos continuamente porque confundimos o efêmero com o permanente, o material com o espiritual. A nossa frustração em encontrar o “amor verdadeiro” é apenas um clichê que esconde o essencial: o amor não é um produto que se compra para combinar com os móveis da sala. É uma arte que se cultiva. Profundamente. Demoradamente.”

Desta forma, há uma certa dualidade crítica que abriga um filme como “Orgulho & Preconceito”: como obra cinematográfica, o filme de Joe Wright é certinho, bonito (principalmente nos cenários e nos figurinos) e resvala na pieguice quando se entende que estamos diante de uma questão de luta de classes e valores. Visto desta forma, “Orgulho & Preconceito” não convence, absorto que está em abrigar suas relações em um período histórico que tem pouca semelhança com o mundo moderno. Talvez sirva de curiosidade para se saber como funcionavam as coisas antigamente, como se estivéssemos indo a um museu. Porém, vertendo a questão para o campo das relações humanas vistas através do prisma das primeiras impressões, “Orgulho & Preconceito” se torna uma ótima análise dos dias atuais, onde se sabe praticamente tudo sobre uma pessoa com cinco toques no mouse, mas não se conhece verdadeiramente sua alma, seu jeito de acordar, e quanto açúcar ela gosta no café (se ela gostar de café). São dois prismas diferentes que permitem uma adaptação: não se deixe levar pela primeira impressão da história. Jane Austen foi um pouco mais profunda do que o título “Orgulho & Preconceito” permite vislumbrar. Como escreve João Pereira Coutinho, “primeiras impressões todos temos e perdemos. Mas o amor só é verdadeiro quando acontece à segunda vista’.

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