Festival Claro Que é Rock 2005

por Marcelo Costa

Várias verdades puderam ser conferidas após a edição do badalado festival Claro Que é Rock, no último fim de semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro: 1) O público brasileiro é definitivamente difícil de agradar 2) Os cariocas não prestigiam o rock 3) Mike Patton é um mala 4) Festivais de grande porte são ótimos para ferrar cambistas 5) Os técnicos de som brasileiros não conseguem equalizar o som de dois palcos da mesma forma: o som do Palco A estava beeem melhor que o do palco B 6) Iggy Pop e Trent Reznor são fodas 7) Uma pergunta: Onde se compra um daqueles arremessadores de confetes que o Wayne Coyne estava usando?

Na verdade, tudo que deu certo em São Paulo não deu certo no Rio de Janeiro. Enquanto a capital paulista viu 25 mil pessoas circularem pela Chácara do Jóquei, em horários distintos (é importante frisar), os cariocas colocaram apenas 12 mil pessoas na imensa Cidade do Rock, sofreram com longos atrasos (que não aconteceram em SP) que, por fim, causaram o cancelamento do show da Nação Zumbi e cortes nos set-lists de Flaming Lips e Sonic Youth. E enquanto era possível comprar de cambistas por R$ 30 um ingresso para a área VIP em São Paulo, no Rio de Janeiro teve ofertão: três ingressos por R$ 10.

No entanto, fora os contratempos do Rio de Janeiro, a edição paulistana do evento foi praticamente perfeita. Começou às 15h com Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta dando partida na finalíssima do concurso do festival (que foi vencido pelos gaúchos do Cartolas) para pouco mais de cinco mil pessoas. Quando o festival começou mesmo, às 19h, com o Good Charlotte, cerca de mais de 10 mil pessoas (umas cinco mil com menos de 18 anos) já caminhavam pelo local. Ao final, 25 mil pessoas pisaram na lama de um quase autêntico Woodstook brasileiro (ainda bem que não choveu!!!). Tirando as imensas filas para se comprar comida e os estacionamentos distantes, o Claro Que é Rock se mostrou um bom grande festival.

Algumas pessoas reclamaram do som (ótimo), outras do local do festival (quem sabe preferiam a “limpeza” de um Credicard Hall). Porém, vamos ao que interessa: música. “Nós somos o Suicidal Tendencies”, disse Mike Patton ao tomar o microfone com sua banda, Fantomas. A rigor, como diz um amigo, o Fantomas deve ser muuuito bom, ou então muuuito ruim. Eu fico com a segunda hipótese. Um crossover inaudível dos piores clichês de punk e metal aliados a barulhinhos eletrônicos. Uma brincadeira sem graça. Funciona como desconstrução e até tem seu valor estético em um festival de massa, um local em que a maioria do público refém de MTV vai ver bandas certinhas como o Good Charlotte, e dá de cara com uma apresentação totalmente surreal insana, mas é o tipo de coisa que enche o saco após dez minutos. Mesmo.

Já o Flaming Lips prometeu mundos e fundos ao público. “Vocês vão ver o show mais foda de suas vidas”, disse Wayne Coyne. Não foi, mas com certeza foi o mais divertido e um dos melhores de todo o festival com os Lips levando seu mundo de Disneylândia para o palco. Uma dezena de bichinhos estilo Parmalat, confetes, bolha de plástico, guitarrista vestido de Papai Noel, baixista vestido de Caveira, uma loucura. Visualmente era impossível não ser conquistado pelo mundo fantasioso de Coyne, que ainda brindou o público com seus ótimos vídeos feitos de próprio punho no telão (e que acabam de ganhar edição nacional via DVD: “Void 1992-2005 Video Overview In Decelebration”). Se um show de rock é diversão e entretenimento, a apresentação do Flaming Lips foi perfeita, apesar do quesito música ficar em segundo plano, e o vocalista ter um fiozinho de voz que sumia a todo o momento. Mesmo assim, clássicos como “She Don’t Use Jelly”, “Race For Prize”, “Fight Test”, “Do You Realize?” e a sensacional “Yoshimi Battles The Pink Robbots” fizeram a festa do público, que ainda pode participar de um imenso karaokê na boa cover de “Bohemian Rhapsody”, do Queen, e ainda viu Coyne sacanear George W. Bush numa cover da poderosa “War Pigs”, do Black Sabbath, que encerrou a festa provando que mesmo no mundo da fantasia é possível ser político e oportuno. Simplesmente sensacional.

Iggy & The Stooges subiram no palco A do evento dispostos a sacanear o público. O som, altíssimo, impediu que o coro de 20 mil pessoas cantando “Now I wanna be your dog” sobrepusesse a excelência de barulho que saia das caixas de som. No repertório, quase todas as pérolas dos dois primeiros álbuns clássicos dos Stooges (“The Stooges”, de 1969, e “Fun House”, de 1970) se alternavam para a alegria e loucura dos fãs. No palco, os irmãos Ron (guitarra) e Scott Asheton (bateria) contavam com a presença histórica do baixista Mike Watt, lenda do rock norte-americano. E à frente de tudo isso o insano, demônio, maluco e carismático Iggy Pop, que aos 58 anos se entregou de corpo e alma para o público brasileiro. Vestindo uma calça nacional modelo feminino de menos de 10 dólares, Iggy passou todo o show se contorcendo, simulando sexo com caixas de som, e incentivando o público a invadir o palco. Cantou “No Fun” entre mais de quinze pessoas, que ora tomavam o microfone de sua mão, ora o abraçavam, ora levavam a mão ao rosto sem saber se acreditavam que estavam ao lado de uma lenda. Ao final, não quis deixar com que os invasores deixassem o palco, reclamou da iluminação (“Não quero saber se vocês são da televisão ou do governo, acendam as luzes”, ordenou) e mostrou que efeitos e iluminação são dispensáveis se você tem carisma, um bom repertório e é um cara fodaço. Clássico.

Com a lembrança do show arrasador que a banda fez no Free Jazz alguns anos atrás, o Sonic Youth era a certeza de uma apresentação apoteótica. Grande engano. A rigor, existem dois Sonic Youth desde sempre. Um legal pra caralho (de hits como “100%”, “Teenage Riot”, “SugarKane” e do show no Brasil em 2001) e outro chato demais (de inaudíveis álbuns paralelos como “Anagrama”, “Goodbye 20th Century” e “Slaapkamers Met Slagroom”). O que se apresentou no Claro Que é Rock trazia o clima charmoso do Sonic Youth cool soterrado pela execução e a paixão pela microfonia do Sonic Youth chato. Em uma palavra, o show foi tedioso. Boa parte da culpa pelo tédio pode ser jogada sobre o repertório, com cinco longas canções do fraquíssimo “Sonic Nurse”, álbum mais recente de estúdio da banda, que fecha a trilogia Nova York iniciada com os bons “NYC Ghosts & Flowers” (2000) e “Murray Street” (2002). Porém, mesmo canções incendiarias como “Schizofrenia” e “Bull on the Heather” soaram pálidas e desconfortáveis. Ao fim, a banda definiu a apresentação com uma exaustiva e terrivelmente chata onda de microfonia que durou longos dois minutos e meio. Acredite: o Sonic Youth é muito foda no palco, mas não esse Sonic Youth.

Após o banho de água fria que foi a apresentação do casal Thurston Moore/Kim Gordon, o Nine Inch Nails se revelou uma expurgação de demônios. Em seu livro “Barulho”, o jornalista André Barciski comentava sobre um show do Nirvana que havia visto em Seattle, 1993: “Finalmente entendi o que um amigo me falou sobre um show do Ministry. ‘Foi a coisa mais violenta que eu já vi’. Eu não entendia ou não acreditava. Agora sim deu para pegar o espírito da coisa. A violência em questão não é aquela coisa escrota a que estamos acostumados, com imbecis armados de machadinhas querendo matar alguém. Ninguém sai machucado de um show do Nirvana, mas purificado. O Nirvana solta os bichos que existem em você”. E é mais ou menos isso que se pode dizer de uma apresentação do Nine Inch Nails. Uma avalanche de bateria eletrônica misturada a porradas humanas, baixo seqüenciado, guitarras poderosas, um jogo de luzes de palco absurdo e por cima de tudo isso o vocal insano do maluco de carteirinha Trent Reznor. Enquanto uns 700 gatos pingados urravam a cada nova música, uns outros 12 mil achavam que estavam em uma rave. Na boa, as letras surreais do gênio Trent Reznor esperam os últimos.

No repertório do Nine Inch Nails, pouca concessão ao material novo, do bom (mas levezinho) “With Teeth” (2005), representado pela faixa título e pelas boas “The Line Begins to Blur”, “The Hand That Feeds” e “Only”. De resto, Trent resgatou porradas de seus primeiros álbuns como “Sin”, “Head Like a Hole” e “Terrible Lie” (“Pretty Hate Machine”, 1989), “March of the Pigs”, “Closer” e a fodaça “Hurt” apenas em voz e piano (“Downward Spiral”, 1994), e praticamente ignorou o constantemente detonado álbum duplo “The Fragile” (1999), mixando “The Frail” com “The Wretched”. No geral, a apresentação foi monstruosa, um tiquinho “poseur” (com instrumentos e pedestais constantemente jogados de um lado para o outro do palco) e teve, como único ponto negativo, o avançado da hora. Por mais que a porrada estivesse saindo clara e alta pelas caixas de som, nem todo o público tinha pique para pular ensandecidamente àquela altura da madrugada. No entanto, quem questionava o NIN como headliner do festival teve motivos de sobra para entender a escolha após um show memorável. E o que foi “Hurt”? Só faltou Johnny Cash baixar no palco…

No saldo final, o Claro Que é Rock conseguiu apagar o quase fiasco das apresentações do Placebo no primeiro semestre, primou (em São Paulo) por uma boa organização no geral para um festival deste porte, e esbarrou em qualidade de shows com o Curitiba Rock Festival, com Stooges, NIN e Flaming Lips fazendo shows à altura de Weezer e Mercury Rev. Só precisa, para 2006, destacar melhor as bandas nacionais…

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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