Esse Você Precisa Ouvir: “Vapen Och Ammunition”, Kent

Texto por Eduardo Palandi

Tenho minhas teorias sobre música. Algumas até foram publicadas aqui no Scream & Yell, quatro anos atrás. Outras eu só conto para alguns amigos próximos. Uma delas é a de que a Suécia é, por excelência, o país do refrão, numa tradição que tem 30 anos de vida internacional – vem pelo menos desde “Waterloo”, do Abba. Nos anos seguintes, Roxette, Cardigans e Hellacopters encarregaram-se de fazer o mundo cantar junto e de trazer ainda mais divisas para esse rico país.

O Kent é uma banda pouco conhecida fora da Escandinávia, apesar de algumas tentativas de sua gravadora para que a banda emplacasse nos EUA e no Reino Unido – que fez com que lançassem dois discos de duas versões cada, em sueco e em inglês. Quando a BMG sueca percebeu que a missão era difícil, o Kent decidiu voltar a dar atenção total a seu amado país, onde são astros de primeira grandeza. “Vapen Och Ammunition” (“Arma e Munição”), de 2002, é seu quinto trabalho, lançado apenas em sueco. Em suas 10 canções a banda faz um tratado pop, uma obra-prima composta de refrões, guitarras, teclados estrategicamente posicionados e backing vocals. Nada original, mas minha mãe já ensinava que o que importa não é “o que” você faz, mas “como” faz. E você precisa ouvir “o que” e “como” o Kent fez esse disco.

O disco abre com “Sundance Kid”, onde uma base meio shoegazer faz a cama para Joakim Berg, o vocalista, cantar “há muito tempo atrás / brigávamos contra a estupidez / chegamos até a cidade dos sonhos / sabendo de tudo e cheios de arrogância / tendo a fé como arma mortífera / eram outros inimigos contra outros de nós”. O título faz referência ao personagem do mestre Steve McQueen em “Butch Cassidy”, um assaltante de bancos do velho Oeste que decide fugir para a Bolívia. Desde o começo da canção, você já percebe quais são as armas e munição do Kent: guitarras primorosas, refrões cuidadosamente estudados pra ficar na sua cabeça, aulas de backing vocals.

Em “Pärlor” (“Pérolas”), cada verso do backing vocal completa um verso do vocal principal, até que a explosão do refrão acaba com isso deixando você com os versos “så snurra min jord igen / radion spelar vår sång / Stockholm ligger öde och världen håller andan / snurra min jord igen / för allt vi drömde en gång / allt som du gör blir till pärlor på min panna”. Algumas palavras do sueco têm parentesco bem próximo com o inglês, mas experimente pronunciá-las. Depois de 10 vezes, continua difícil – mas a cada tentativa você fica com mais vontade de aprender a cantar.

Num disco em que as 10 canções poderiam ser singles, é impossível saber como eles decidiram escolher os hits. O primeiro deles, “Dom Andra” (“Os Outros”), venceu do Grammy sueco em 2003, e retrata a busca por amor e reconhecimento. Tem uns recados primorosos a quem muda por causa dos outros, do tipo “coma gordura e açúcar até vomitar / ou tornar-se um mártir de quatro toneladas / só não se venda barato”. Sob os versos, sintetizadores cortados por uma guitarra mais baixa.

Logo depois, “Duett” (“Dueto”) coloca a cantora Titiyo ao lado de Berg, e os dois constroem juntos uma canção de amor. “Recebi uma mensagem / uma carta de verdade e com um selo / um postal de muito tempo atrás / quando o futuro era nosso”. O refrão é embasado na frase “att långsamt, långsamt, åh så långsamt” (lentamente, lentamente, oh, tão lentamente), mas a velocidade com que você vai cantar algo como “atlongsa, longsa, ah solongsaaaaaaa” será espantosa.

“Hur Jag Fick Dig Att Älska Mig” (“Como Eu Fiz Você Me Amar”) parte de uma batidinha que, com o perdão do trocadilho, é bem batida, para que Joakim Berg conte à amada o que ele precisou fazer para que ela se interessasse por ele. Dela, vale mencionar os versos “você nunca se importou / com aqueles que me chamavam / de ‘um estrago já feito'”. É loser, é verdade. Mas se a musa da canção tivesse ouvido as cinco canções que abrem o disco, seria paixão à primeira vista. Metais sintetizados fecham suavemente a música, abrindo caminho para “Kärleken Väntar” (“O Amor Espera” – sim, não é só o Radiohead que diz isso).

“Kärleken…”, outro single, flerta novamente com o shoegazer e tem um solo de guitarras que me deixa maravilhado. Não toco nenhum instrumento e só tenho simpatia pelo piano, mas, quando ouço o solo dessa música, sou tomado pela vontade de aprender a tocar guitarra. Fora isso, mais uma aula de backing vocals, que faz o Kent superar até o Teenage Fanclub, ícone do assunto. O clipe da canção mostra um casal de adolescentes perdendo a virgindade – debaixo dos lençóis: e antes que alguém aí reclame; é a coisa mais bonitinha do mundo, apesar da comemoração do goiabão, na frente da menina, depois de consumar o ato.

Em “Söcker” (“Açúcar”), o pianinho da introdução disfarça bem a letra, uma metralhadora giratória contra a apelação na tevê e as celebridades instantâneas (sim, a Suécia também tem disso). Em tom de deboche, Joakim emula um apresentador anunciando a atração do dia em seu programa: “E o convidado dessa noite é Jesus / ele se viciou em heroína / ele tomou um gole em seu copo / e a água Évian virou vinho / ele vai falar de suas armas / de seus tempos em Saint-Tropez / sobre se dar uma chance / e sua nova BMW Z3 / em um mundo de idiotas / ele é o primeiro da fila / vai falar em frente às câmeras / sobre como foi trocar de sexo / ou qualquer coisa do tipo / que deveria ser íntimo / sobre todos aqueles que amou / e aqueles para quem pagou um boquete / mas ele sempre disse ‘não'”. Artilharia pesada, sem dúvida, mas coberta por um pop perfeito, impecável, incontornável.

Na faixa oito, “FF”, o Kent convida a cantora francesa Nancy Danino para um dueto bilíngue: Berg em sueco, ela em francês. Impossível descrever com palavras essa canção, mas aí vão umas tentativas: ela é pulsante. Vibrante. Poética. Você precisa ouvir isso, juro. Foi a terceira música de trabalho do disco e ganhou um clipe sem graça, mas nada que estrague o belo arranjo e a linda melodia.

Pro final, “Elite” começa como se fosse um blues lo-fi, mas basta uma pandeirola e o clima muda. Na letra, uma certa decepção do protagonista, que diz ter uma família cheia de heróis, corações partidos, alianças cansadas e um orgulho entediante – e que o caminho de tudo isso desembocou nele. Um coro de lalalas garante a aula de pop, entrando no último quarto da canção. E “Sverige” (“Suécia”) fecha o disco, com um violão dedilhado e uma declaração de amor ao próprio país:

Suécia, Suécia, amada amiga
Uma tigresa envergonhada
Eu sei como se sentes
Quando a realidade vira piada
Quando o silêncio assusta –
O quê aconteceu?

Bem-vinda, bem-vinda aqui
Quem quer que seja, onde quer que esteja

Prepare sua varanda para uma festa
Para um convidado que vem de longe
Numa terra onde o suficiente é o melhor
E nós bebemos até o sol da meia-noite
Com batatas frescas e peixe
Como se estivéssemos parados no tempo

A chuva bate contra as vidraças agora
Mas as noites brilham numa terra sem som
E os copos brilham quietos sobre a mesa
Vazios como as palavras
E com certeza o amor é grande

O mínimo que se poderia dizer é que a “Suécia” do Kent é melhor que “Brasil” do Cazuza – em termos de canção, saneamento básico e indústria automotiva, pelo menos. Mas, mais do que me dar uma vontade enorme de aprender a tocar guitarra, a falar sueco e a conhecer o país, em “Vapen Och Ammunition” o Kent tem armas e munição pra dizer que a Suécia é o país do refrão. E ainda tem gente que vota a favor do desarmamento…

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