Cinema: Melinda & Melinda, Woody Allen

por Marcelo Costa

Para facilitar as coisas, para você e para mim, vamos dizer que existem dois tipos de bons filmes:

a) aqueles que te conquistam na sala da cinema com imagens, textos, passagens matadoras, e você adora, mas que esquece logo depois que vira a esquina em direção à sua casa

b) aqueles filmes que fazem você ficar pensando por dias nas malditas minhocas que o cineasta enfiou em sua consciência.

O gênio Woody Allen é mestre nos filmes da segunda categoria, mas vinha, ultimamente, exercitando os da primeira, o que de certa forma dava um prazer aqui (“O Escorpião de Jade”, 2001), rendia risadas ali (“Dirigindo no Escuro”, 2002) e até decepcionava um pouco (“Igual a Tudo na Vida”, 2003). Boas novas: “Melinda & Melinda”, 34º filme do diretor, aposta na segunda categoria, e é o melhor filme dele nos últimos cinco anos.

A rigor, “Melinda & Melinda” chega ao País com um ano de atraso, no momento em que ele acaba de apresentar em Cannes seu novo filme, “Match Point”. O atraso, porém, não atrapalha os filmes do diretor, cada vez mais atemporal em suas histórias movidas a jazz, piadas de psicanalista e romances imperfeitos.

Em “Melinda & Melinda”, quase tudo que é obrigatório em um filme de Woody Allen está na tela, com a grande exceção sendo a sua ausência como ator (e que, realmente, faz falta. Só Allen sabe interpretar com magia seus personagens malucos). Porém, esta pequena falta não compromete a qualidade de “Melinda & Melinda”, que está longe, muito longe de ser um “Annie Hall”, 1979, (ou um “Hannah e Suas Irmãs’, 1986), mas faz bonito ao lado de “Trapaceiros” (2000), “Descontruindo Harry” (1997) e “Poucas e Boas” (1999). Aliás, quantos cineastas são tão prolíficos quanto Woody Allen?

“Melinda & Melinda” parte do pensamento clichê de que tudo na vida depende da forma que cada pessoa enxergue as coisas. “A vida pode ser uma tragédia ou uma comédia, depende de como se olha para ela”, diz uma mulher sentada a mesa de um bar com mais três amigos. Um deles acredita que a vida é trágica. O outro só vê comicidade nos rumos da dita cuja. Para exemplificar sua história, um dos dois homens (ambos diretores de teatro) conta uma história (teoricamente real) de uma pessoa que chega a casa de amigos, sem avisar, no meio de um jantar (de negócios, não oficialmente). “Isto seria um ótimo gancho para uma comédia”, diz um. “Que nada, isso seria triste. Já estou vendo a tragédia que iria ocorrer”, diz o outro.

Com esse mote nas mãos, Woody Allen nos conta a história – partindo dos pontos de vista dos dois diretores a mesa – de duas Melindas, que chegam sem avisar a casa de suas amigas, no meio de um jantar. Radha Mitchell (de “Em Busca da Terra do Nunca”) encarna as duas Melindas com sublime desenvoltura. As duas são depressivas, mas uma delas ainda consegue ver sinais de coisas boas no mundo (apesar de insistir em digerir 28 calmantes com vodka) enquanto a outra vive aguardando o momento em que a vida vá lhe passar uma rasteira novamente (embora tenha acabado de conhecer um pianista espirituoso e galante).

O choque destas duas tramas permite que Woody Allen exercite seu papel de contador de histórias, e, sobretudo, reafirme suas opiniões a respeito de fidelidade, amizade, falta de comunicação entre as pessoas, e amor, esse maldito sentimento que nos faz realizar coisas absurdas e terrivelmente constrangedoras, e pior, não sentir a mínima vergonha disso. Porém, na verdade o que o diretor deixa explícito em “Melinda & Melinda” é que o amor, ou a traição, ou o acaso, e a comédia e a tragédia, podem ser lidos de forma cômica ou trágica, dependendo do olhar particular de cada pessoa sobre o fato em questão.

Com um tema simples a mão, Allen consegue brincar com as ideias, dizendo que a vida não é nem comédia e nem tragédia, e sim o que nos fazemos dela. Um dos geniais cartazes do filme traz Allen segurando em cada uma das mãos uma daquelas famosas máscaras teatrais que simbolizam a alegria e a tristeza. Como marionetes, cada um pode ler a história da vida de outra pessoa da forma que bem entender. O interessante é aplicar a simbologia sobre sua própria vida, e lembrar que hoje, quietinhos em nossa própria segurança, rimos de momentos trágicos de nossas histórias. Mas, citando diretamente “Annie Hall”, o diretor ainda releva a discussão quase ao fim do filme, mostrando que na verdade não importa se a vida é trágica ou cômica, o que realmente importa é que ela é curta. Passa rápido demais. Divirta-se. Allen faz isso todos os anos.

“Melinda & Melinda” vai além de que “Dirigindo No Escuro”, “Igual a Tudo na Vida” e “O Escorpião de Jade”. Está no mesmo nível que “Trapaceiros” (que analisava a equação dinheiro = felicidade) e faz pensar enquanto entretém. Nossas vidas, de diversos ângulos, são uma tragédia grega. É melhor rir de tudo isso…

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Todos os filmes de Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)

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