Música: “O Exercício das Pequenas Coisa”, Ludov

por Drex

No best-seller “O Erro de Descartes”, o neurologista Antonio Damásio enfrenta impiedosamente as idéias racionalistas daquele célebre filósofo francês. Damásio, com base em anos de experiência médica e científica, afirma sem meias palavras: o cérebro e o corpo trabalham juntos e, com o objetivo de buscar nossa própria sobrevivência, a mente nunca toma decisões ou realiza julgamentos baseada exclusivamente em elementos racionais. Sendo a realidade muitíssimo complexa, se utilizássemos somente a razão pura, teríamos enorme dificuldade para obter as soluções necessárias, com rapidez e eficiência, para os problemas mais corriqueiros do dia-a-dia.. Diante da necessidade de tomar uma decisão, ficaríamos eternamente calculando as probabilidades. Ao contrário do que possa parecer, se fôssemos completamente racionais, as nossas idéias e opiniões seriam sempre ocas, volúveis e descomprometidas – estaríamos eternamente à espera de mais uma variável para completar a análise. Sem a ajuda das emoções, dos instintos e da intuição, não seríamos apenas frios e calculistas. Seríamos frios, calculistas, idiotas e indecisos.

Livros de divulgação científica sempre me assustaram um pouco. Entretanto, depois de quebrar essa barreira, pude descobrir neles coisas extremamente interessantes. Algumas idéias que, por mais teóricas que pareçam, acabam sempre dando uma mão quando me meto a matutar sobre as trivialidades da vida. Aconteceu isso hoje. Numa daquelas correlações que só a mais profunda das sinapses pode explicar, pensei no livro do Damásio enquanto escutava o último disco do Ludov, “O Exercício das Pequenas Coisas”.

Razão e emoção se misturaram na minha mente. E haja turbulência. Acabei, então, angustiado por um dilema. Foi impossível não adorar o disco do Ludov, mas, ao mesmo tempo, sei que minha opinião não se deve exclusivamente ao conteúdo daquelas 15 faixas. E agora, na hora de emitir alguma opinião, de fazer algum tipo de julgamento, o que raios devo fazer com a claríssima consciência de que, para mim, é impossível escutar Ludov com ouvidos isentos?

Explico melhor. Não se trata de ter na banda algum amigo ou parente. Nem mesmo conhecidos. Meu caso é pior que esse – trata-se de uma relação platônica. Um vínculo que se fortalece há tempos, simplesmente porque o Ludov esteve insistentemente presente na minha vida nestes últimos anos. Nos dias bons e nos dias ruins. Como um bom e velho amigo.

Portanto, se alguém quiser ler uma crítica, propriamente dita, de “O Exercício das Pequenas Coisas”, por favor, siga direto até os últimos quatro parágrafos deste texto. Até lá, talvez eu já tenha conseguido destrinchar os fatos dos sentimentos. Agora, no entanto, com toda a sua licença, vou abrir aqui um grande parêntese para tentar entender como essa banda, sem pedir licença nenhuma, se intrometeu inexoravelmente no meu caminho.

Lá pelos idos dias do ano 2000, meu cunhado me contava uma novidade: comprara um CD de uma banda independente, uma tal de Maybees. Pouco tempo depois ele faria as malas, partiria para os EUA e levaria o tal CD na bagagem. Cunhados, ora, às vezes podem ser ingratos. Fiquei sem poder ouvir o CD, mas o nome daquela banda ficara gravado em minha cabeça.

Pouco mais tarde, fui descobrir que o tal Maybees era, naquela altura, uma das bandas independentes mais consagradas da “cena” paulista. Através do saudoso Napster, consegui encontrar algumas canções. Eram tempos, porém, em que fazer o download de uma música exigia uma longa jornada noite adentro. Fui baixando, trabalhosamente, uma a uma – “Érika”, “You’re Back”, “Mary and The Moon” e outras várias. Eu passava então por tempos bastante turbulentos, meu coração estava carente de prumo. Foi inevitável que aquelas canções, pequenas pérolas coletadas com tanto cuidado, acabassem se tornando meu pequeno tesouro digital.

Era um momento pessoal de renovação e o Maybees significou para mim o ressurgimento do interesse por música nova. Isso parece pouco, mas não é. Junto com outras bandas, naquele momento eles ajudaram a reabrir a minha lojinha, tirar o pó dos meus arquivos, receber novos convidados. Se não fosse por isso, talvez hoje eu seria mais um dos fãs ardorosos da Kiss FM.

Infelizmente, logo descobri que eu havia chegado tarde aos Maybees. Em meados de 2002, soube por alguma mail-list sobre um show no Sesc Pompéia, lançamento de um revista. Uma das apresentações seria a estréia da Supertrunfo, a nova banda dos ex-Maybees, agora cantando em português. Não hesitei em ir ao SESC. Também eu estava estreando um novo amor e fazia questão de testemunhar a banda responsável pela trilha sonora de alguns dos meus novos suspiros. Mesmo que agora eles estivessem com outro nome e cantando no idioma nacional.

O show foi antológico. Dizem que a viagem é o viajante e, portanto, até hoje não sei se a apresentação do Supertrunfo foi mesmo apoteótica ou se se tratava apenas da minha catarse pessoal. No palco criou-se um clima performático, teatral, com todos os músicos vestidos de negro. A banda já estava no meio de uma longa introdução quando a vocalista, que agora eu sabia chamar-se Vanessa, fez sua entrada. Era a diva que subia ao palco, e o público gritava. No microfone, aquela voz fazia tudo obter sentido. Ainda me lembro de ouvir, pela primeira vez, canções como “Trânsito” e “Dois a Rodar”. Esta última, aliás, já entoada de cor por algumas meninas da platéia. Provavelmente gente do fã clube da banda.

Uma pergunta, no entanto, ficava solta no ar. As músicas em português tinham agradado, tudo bem, mas ainda era muito difícil entender por que o Maybees havia acabado. Quem já conhecia o passado daquela banda de negro em cima do palco, não conseguia esconder a perplexidade. Ora, se os integrantes continuavam os mesmos, porque deixar para trás um nome e um repertório já consagrados? Aquela escolha, optar por um recomeço radical e arriscado, talvez não fosse mesmo racionalmente explicável. De fora, parecia um lance de ousadia. De dentro, talvez fosse o caminho simplesmente necessário. No fim, foi uma opção que, a parte de todas as opiniões, viria a dar frutos e se justificar algum tempo depois. O tempo seria, tal como no clichê, o senhor da razão.

Depois do Sesc, o Supertrufo sumiu por uns tempos, pelo menos dos meus ouvidos. Pelo site oficial, descobri que o nome da banda mudaria de novo, por problemas de direitos autorais. O novo nome me soava um tanto estranho – Ludov.

Tudo ficara por isso mesmo até que, certa noite de sábado, decidimos sair para ouvir rock. As festas da Sound, na DJ Club, em São Paulo, já tinham enjoado um pouco, e a Funhouse era então a novidade no menu paulistano. Aliás, assim como a noite “indie” de São Paulo, a trajetória do meu novo amor também evoluía e o que antes era apenas início, agora já tinha se transformado em namoro firme e oficial.

Ao entrar no sobradinho apertado da Bela Cintra, pude ler, no quadro branco colocado ao lado da porta, o nome da banda da noite – Ludov. Surpresa boa. Seriam eles mesmos? Eram. Outra apresentação ótima. Desta vez, cedendo aos pedidos insistentes, encerraram o show com o hit maior do extinto Maybees, a poderosa “Érika”. Era um show de transição, e ainda restava alguma tolerância com o passado.

Se naquela noite o encontro foi ao acaso, ele se repetiria outra vez premeditadamente. Voltei a Funhouse, algum tempo depois, para ver novamente a banda. Desta vez, eles já se recusavam a tocar “Érika” ou remexer no baú do Maybees. Pouco a pouco, ninguém mais se importaria com isso. Parecia que todos haviam superado o passado.

Neste dia na Funhouse, um fato inusitado. Durante o show, na pista minúscula e cheia de gente, com o braço da guitarra de Habacuque roçando minha cabeça, eu e minha menina seguíamos os mandamentos da banda e nos beijávamos a “(…) rodar e a rodar”. Mais tarde, no bar, o Eduardo, baixista do Ludov, veio falar com a gente. Tinha nos visto na pista, naquela cena de videoclipe romântico, e tinha achado tudo muito bonito. Apenas agradeci, com timidez. Mas percebi ali que aquelas canções, ou na verdade aquelas pessoas, iam pouco a pouco se sedimentando como companheiros importantes daquele meu pedaço de vida, como verdadeiras testemunhas de uma etapa da minha trajetória.

Comprei o EP “Dois a Rodar” naquele mesma noite. A partir dali, acompanhei o Ludov, eventualmente ou sempre que possível, por diversos outros lugares. Ou, talvez, tenham sido eles que me acompanharam. Em 2004 vieram o Curitiba Pop Festival, depois um show na Outs, outro no Centro Cultural São Paulo. As músicas do EP já eram definitivamente íntimas e músicas novas iam sendo inseridas pouco a pouco no repertório. Depois foi “Princesa” tocando discretamente no rádio, clipes freqüentes na MTV, prêmio no VMB. A consagração dentro do “mundinho” e um ciúme besta da minha parte, inconfessável e inevitável. Ciúme que seria curado definitivamente por outro show memorável no final do ano passado, na sala de cinema da Galeria Olido, no centro de São Paulo. Quem esteve lá sabe: apresentação intimista e irretocável.

A estória vai se fechando. Mês passado houve outro show no Centro Cultural São Paulo, agora já como o repertório totalmente renovado pelo lançamento deste primeiro CD “cheio” do Ludov – “O Exercício das Pequenas Coisas”. O CCSP estava tomado e o público, como de costume, já sabia todas as letras das músicas recém lançadas.

Comprei o “Exercício das Pequenas Coisas” somente depois desse último show. Ouvi-lo, para mim, é um exercício dúbio. Em certa medida, através de algumas músicas já ouvidas, é sentir a consolidação de tudo que se passou nestes últimos anos. Por um outro lado, porém, é também descobrir novas pérolas, novas canções que vão provavelmente calçar meus passos daqui para frente.

Após tudo isso pode dizer que “O Exercício das Pequenas Coisas” oferece um excelente retrato de todas as qualidades do Ludov – um pop-rock de braços abertos, com recheio sólido e consistente. O CD começa com “Sério”, uma gostosa levada pop que, dissimulando simplicidade, esconde uma intrincada construção rítmica bastante interessante. “Estrelas” vem em seguida, outra com grande apelo, violão e ótima melodia, lembrando Lulu Santos e surf music.

As preferidas da casa, porém, são aquelas em que Vanessa despeja seu potencial dramático, ajudada por alguns versos que colam no ouvido – “Dorme Agora” e “Kriptonita” são verdadeiramente poderosas, para cantar de peito aberto e desobstruir os pulmões. Em “Elastano” e “Sete Anos” temos duas experimentações vocais. Na primeira, o guitarrista Habacuque Lima experimenta sua voz num rock mais duro, com uma linha de guitarra bem marcante. Na segunda, o multi-homem Mauro Matoki, já mais experiente com o microfone, manda uma deliciosa fantasia de infância, uma mistura de marchinha dixieland a la New Orleans com vaudeville circense.

Outro destaque é a instrumental “Supertrunfo” que, ironicamente, tem uma das melodias mais marcantes do disco. “Supertrunfo” exorciza e faz as pazes com o passado, a um só tempo. Além de possuir o nome que marcou a virada da banda, é a música que mais remete à “velha” sonoridade do Maybees.

Mas o que importa é a sonoridade nova. E eles seguem confirmando, como em outros tempos, que são capazes de conciliar, com esmero, a cor e a alegria dos arranjos com a emoção densa dos vocais de Vanessa. Sobre uma “cozinha” pesada, com baixo e bateria calcados em elementos nitidamente rock, o Ludov ainda despeja uma montanha de informação musical das mais variadas. O lado melódico do rock nacional anos 80, o capricho e a inventividade dos arranjos da Tropicália, ecos de emotividade da MPB mais tradicional, os vocais femininos remetendo às toda a tradição das cantoras de rock internacional, da new-wave até o Garbage. Mais do que isso, o Ludov vem ajudar a consolidar um novo caminho na tradição da canção popular brasileira. Sem nenhum exagero, junto com bandas como Pato Fu, Los Hermanos e outros cantadores mais “MPB” (Lenine, por exemplo), eles se inserem num espaço pouco afeito a rótulos ou definições, onde não se destaca pelo estilo, postura ou segmentação, apenas pela competência de criar belas canções.

É claro que o Ludov possui suas fraquezas e defeitos. Qualquer crítica imparcial deveria logicamente citá-los. Mas, como já falei, depois de tudo que contei até aqui, me abstenho de fazer isso. Deixo a cada um essa tarefa. Ouçam o disco, façam sua própria análise, procurem os defeitos que quiserem. No meu julgamento, impregnado de estória e emoção, só posso garantir que essa busca vai valer a pena.

No fim, porém, ainda fica a dúvida – minha opinião tem aqui algum valor? Devo ter pensado em Damásio, lá atrás, por conta disso. Ele talvez me isente dessa questão e me libere de maiores culpas. Posso sim, falar sobre o que bem entender. Aliás, creio que posso até adaptar as suas idéias e afirmar: não existe crítica ou opinião que sejam absolutamente racionais. Ou melhor, talvez até existam. Mas certamente não são as melhores. Como Damásio afirma, os melhores julgamentos são aqueles feitos sob o calor das emoções, e não os que são isentos dela.

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