Entrevista: Wado (2004)

por Marcelo Costa

Wado estreou na cena musical brasileira com um disco que chamava a atenção já no título: “Manifesto da Arte Periférica” (2001). De cara, ele procurava cutucar o público, tentando mostrar que se fazia música boa fora do eixão RJ/SP. “Eu tenho muita vontade de lutar pelo reconhecimento das outras regiões brasileiras, de criar mercados locais que sejam integrados a outros mercados locais e que permitam um intercâmbio maior entre os independentes”, dizia o músico em entrevista ao S&Y, isso três anos atrás.

Mais de mil dias se passaram, Wado lançou um segundo disco bastante elogiado, tocou na primeira edição do Tim Festival, no Rio de Janeiro, em 2003, e seguiu na difícil estrada dos jovens músicos no Brasil, fazendo música, tocando, trabalhando, tocando e fazendo música. E trabalhando, mas não deixando de tocar. “Ainda temos o sonho de viver de música”, diz Wado, apresentando seu terceiro álbum. “É um disco estranho, que contém sambas estranhos e músicas de letras fortes e sonoridade de estúdio profissional”.

“A Farsa do Samba Nublado” (Outros Discos) traz algumas mudanças, tanto em sonoridade quanto nas letras e em conceito. Primeiro de tudo: a banda agora assina Wado e Realismo Fantástico. “Acreditamos que assim seja mais justo”. As letras: “Estão mais longas, o que é uma diferença de abordagem que eu queria tentar, passar longe da concisão que são as letras dos outros discos, tentar algo novo”. O som: “Os arranjos estão mais bem resolvidos”, garante.

Ok, é preciso dizer que isso tudo é teoria. Na prática, estender o nome da banda significa que o grupo está unido e, que tudo o que vier, de alegrias a tristezas, será dividido por quatro. As letras podem até estar mais longas, mas estão mais decifráveis (seja lá o que isso queira dizer). É possível ouvir o disco uma vez e sair cantarolando as canções em seguida, e isso é mérito. Quanto ao som, esse é o disco mais direto da banda. E o mais triste. Rock e samba se influenciam, se abraçam e saem de mãos dadas pelo salão. Alvinho dispensa a guitarra e aposta no som do violão, claro, atulhado de efeitos e de wah wah. O resultado é um som dançante, pop, inteligente e com um q de melancolia e de nuvens negras.

“Tormenta” abre o disco suingando e citando um dos filmes mais bacanas (e mais barra-pesada) dos últimos tempos: “Essa calmaria que precede a tempestade / Este silêncio nas árvores / Esta calmaria é uma breve trégua / Vista sua camisa / Calce seus sapatos / Aguardemos nossas tragédias / Antes da chuva de sangue / Antes da chuva de sapos”. A próxima, “Grande Poder”, dá seqüência ao lado “dançante” do disco, com Alvinho dando um show no wah wah. “Gargalhada Fatal” tem um q de psicodelia (que remete ao segundo álbum, “Cinema Auditivo”) enquanto “Pé de Carambola” traz programações e efeitos.

Três das melhores canções do álbum são sambas lentos – estranhos e melancólicos – e de letras matadoras: “Vai Querer?”, “Carteiro de Favela” e “Amor e Restos Humanos”. “Sinto não sentir mais que um abismo entre nós”, diz a última. A melancolia com um q de rispidez é característica básica das letras do disco. “Eu vou atrás de alguma coisa que nos deixe estranhos e contentes”, diz “Alguma Coisa Mais Pra Frente”. “Navios enferrujando no fundo do mar”, desenha outra das psicodélicas, “Gargalhada Fatal”. “Se deus é canhoto e criou tudo com a mão esquerda / Talvez isso explicasse as coisas como são / Porque eu tive de aceitar a perda”, diz a bonita “Fuso”. “Se o destino é torto, eu não largo o meu osso”, canta Wado em “Se Vacilar, o Jacaré Abraça”. “Ainda há esperança no chorar soluçante”, declama o cantor em “Deserto de Sal”.

Na música pop, a maioria dos grandes discos de todos os tempos teve a desesperança (seja passional, seja política) como inspiração. “A Farsa do Samba Nublado” pertence a essa classe de discos inteligentes, geniais e rebeldes. É um disco excelente, mas lindamente triste. As músicas grudam no peito, esperando até que você entenda o motivo e agradeça pela tradução do inconsciente. “A Farsa do Samba Nublado” “é uma ode ao que não é necessário. Uma ode a sofisticação de inutilidades”. Um disco perfeito para os dias nublados que estamos vivendo. Um dos melhores discos da música brasileira desde de… desde de… deixa pra lá.

Terceiro disco nas costas, então, direto: o que é “A Farsa do Samba Nublado”?
É um disco estranho, que contém sambas estranhos e músicas de letras fortes e sonoridade de estúdio profissional. Fala da destruição de uma coisa e o nascimento ou renascimento de algo.

Este me parece o seu trabalho mais direto, musicalmente e textualmente. O que você julga de diferenças entre “A Farsa do Samba Nublado” e os dois discos anteriores?
Acho este mais parecido com o primeiro, com temas mais contundentes. O “Cinema Auditivo” era bem introspectivo e singelo. Acho este novo o melhor gravado dos três. Os arranjos estão mais bem resolvidos também, enfim, gostei deste. As letras estão mais longas, o que é uma diferença de abordagem que eu queria tentar, passar longe da concisão que são as letras dos outros discos, tentar algo novo.

Alguns amigos que ouviram me disseram que acharam este o seu trabalho mais pop. O que você acha disso? E, afinal, pop é palavrão?
Eu gosto de música popular brasileira e faço música brasileira que ainda não é popular. Eu almejo isso, e sonho viver de música. Não tenho nenhum problema com o pop, talvez ele tenha comigo…

Com três álbuns lançados, show no Tim Festival 2003, e várias apresentações nas principais capitais do país, como você analisa o percurso da banda?
Acho que fomos mais longe do que imaginávamos, mas ainda temos o sonho de viver de música, que ainda não alcançamos. As coisas estão boas, mas é difícil também. Fizemos o projeto Pixinguinha agora, que foi muito bom, e colocamos uma música num filme (“Tarja Preta” em “Contra Todos”)…

Como foi a escolha do repertório do disco? Há muito mais parcerias entre você e o Alvinho…
Na verdade, a escolha de repertório é o que estávamos tocando na época, não é muito pensado. Acontece mais de descartar umas coisas que não se encaixam… O Alvinho tem feito bastantes as bases e eu feito letras. Acho que está funcionando bem…

Foi você quem fez as ilustrações do álbum, certo. Algum conceito especial? Quem ficou responsável pelo design do disco?
O design é do Canel, amigo lá de Maceió. Queríamos passar uma coisa de estranheza e sofisticação, privilegiamos formas não humanas. Uma coisa que eu gosto nele é a unidade e também o fato de não ter fotos.

Essa formação que gravou o disco está definida há bastante tempo?
Desde a metade da preparação disco novo, mas eu, Alvinho (guitarra) e Thiago (bateria) já estamos juntos há três anos. O Rian (baixo) não pôde ficar por ter muitos compromissos com outras bandas e o Soffiatti agora está fazendo grande parte do trabalho.

Como você vê a relação da música com a internet, isso de troca de MP3…
Acho que não tem volta, tem disponibilizar tudo mesmo!

E como está a cena independente brasileira?
Muito fértil, mas ainda amadora. Vejo um desinteresse do Brasil pelo Brasil. Está tudo muito periferia do mundo, todo mundo escutando o que se escuta nos subúrbios americanos. Aqui no Brasil eu destaco gente como Rubinho Jacobina, Ultramen, Hurtmold, Catatau e Santo Samba.

Em uma entrevista que o S&Y publicou quando do lançamento do “Manifesto da Arte Periférica”, você dizia que não tinha medo do pop. Três anos depois: o pop ainda não te assusta? Deu para “aprender” alguma coisa envolvido com essa história de fazer música no Brasil?
Não temos nenhum medo do pop. Não posso dizer nada sobre isso de pop pois nunca participamos! O underground é isso aí que está posto! Não sei, estou meio cético, mas tudo beleza…

A Farsa do Samba Nublado

Faixa a Faixa, por Wado

Tormenta (Wado/Alvinho)
“Tormenta” abre o disco destruindo o que está posto. É meio que metáfora de renovação, que parte das ruínas de alguma coisa. Pode também vestir a roupa de vidas urbanas, relacionamentos e até deste mercado fonográfico dos nossos dias.

Grande Poder (Mestre Verdelinho)
É uma música de letra linda feita pelo Mestre Verdelinho (compositor de música de raiz e porteiro do teatro Deodoro, em Maceió), que em sua simplicidade chegou num resultado sofisticadíssimo.Com uma roupinha esquisita feita pelo Realismo Fantástico, Siri e Rizzotto.

Vai Querer? (Luis Capucho/Suely Mesquita)
Luis Capucho é nosso Lou Reed. Música de universo sombrio e cínico e que compactua com as nuvens negras que este disco ostenta. Procurem a obra deste grande autor subterrâneo!

Alguma Coisa Mais Pra Frente (Oito/Thiago/Corradi/André/Felipe/Fipa)
Hino underground desta grande banda paulista! O Thiago tocava na versão original, que eu acho um clássico. A nossa vale como citação e disseminação de informação.

Carteiro de Favela (Wado/Eduardo Bahia)
Um momento em que o sol abre no disco, redenção pelo trabalho e pela química.

Gargalhada Fatal (Wado/Alvinho)
Resquício do “Manifesto da Arte Periférica” (esta letra consta no encarte do primeiro disco).
Também alterna momentos de fé e falta fé.

Fuso (Wado/Eduardo Bahia)
Canção de distancias e fusos que o Eduardo fez e eu dei uma entortadinha.

Amor e Restos Humanos (Wado/Siri)
Sou um grande fã do Siri, pra mim o grande compositor de Alagoas na atualidade.
É uma honra ter uma parceria com ele.

Se Vacilar o Jacaré Abraça (Wado/Alvinho/Thiago)
Esta é a nossa “Tarja Preta” deste disco 🙂 Samba da favela.

Ode à Maldade (Wado/Alvinho/Glauber)
Única vinheta deste disco. Optamos por não fazer nenhuma vinheta neste disco,
mas esta apareceu sozinha e aí ficou.

O Deserto de Sal (Wado/Alvinho)
Música triste e arrogante. Gosto bastante.

Pé de Carambola (Marcelo Cabral/Railtinho)
Adoro a versão original desta canção, acho que é melhor que a nossa,
mas acho pertinente ela no disco pra música passear mais pelo Brasil.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia mais:
– Wado (2001): “Não tenho medo do pop. Ele que me aceite do jeito que eu sou” (aqui)
– Wado (2015): “Quero voltar a ter a coragem do Wado dos primeiros discos” (aqui)
– “Vazio Tropical”: um disco bonito que, quanto mais se cala, mais fala, por Mac (aqui)

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