Cinema: “Whisky”, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll

por Marcelo Costa

É impressionante como a simplicidade rende momentos de rara beleza. Porém, não se engane: fazer as coisas de modo simples é algo praticamente impossível no mundo de hoje, movido por uma luta constante entre pessoas que necessitam ganhar mais destaque do que seus pares, e para isso buscam formas diferentes (e mais complicadas) de encararem determinadas situações. É como diz o dito popular:
“Para que facilitar se a gente pode complicar”.

Dentro destas características, o grande mérito do filme uruguaio “Whisky” (2004) é ser violentamente simples. A câmera não se move, fixa no tripé, enquanto os atores dão vida (ou encenam a morte) aos seus personagens. Cenas longas e repetidas também entram no pacote, mostrando a solidão de pessoas que perderam as esperanças e vivem a vida no piloto automático, fazendo todos os dias as mesmíssimas coisas do dia anterior (como se fossem máquinas de uma velha fábrica) em uma rotina que, vista em sequência, traz risos, mas é imensamente perturbadora. “Whisky” surge como o melhor filme sul-americano de 2004 e um dos cinco grandes filmes do ano no mundo.

As pessoas solitárias no filme dos diretores Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll (que já haviam trabalhado juntos em “25 Watts”) são, a rigor, três: Jacobo (Andres Pazos), um homem de 60 anos que vive sozinho desde a morte da mãe. Ele é dono de uma decadente fábrica de meias em que encontra, todos os dias, Marta (Mirella Pascual). Ela tem 48 anos e cuida do negócio de Jacobo atuando como uma supervisora e gerente. Ah, ela é responsável pelo chá do chefe, todos os dias. Além de Marta e Jacobo, mais duas empregadas trabalham na fábrica. O som do ambiente é o barulho das velhas máquinas. Jacobo não gosta de rádio.

O terceiro personagem a adentrar a história de “Whisky” é Herman (Jorge Bolani), irmão de Jacobo, que saiu do Uruguai há mais de 20 anos, constituindo família e bens (uma fabriqueta de meias em Porto Alegre que, muito melhor do que o concorrente irmão, exporta o produto para diversos países) no Brasil, enquanto o irmão cuidava da mãe doente em Montevidéu. Herman volta ao país para participar da matzeiva, uma celebração judaica para a colocação da pedra do túmulo em até um ano após a morte de uma pessoa. Herman nem chegou a ir ao enterro de sua mãe, mas prometeu ao irmão vir para a matzeiva.

A vinda de Herman faz renascer uma grande disputa entre os irmãos. A primeira atitude de Jacobo é tentar mostrar que está vivendo bem no Uruguai, feliz com uma esposa, com a casa, com a fábrica. Para realizar seu plano, Jacobo pede para que Marta seja sua esposa alguns dias, fazendo parte de uma farsa familiar que soará triste em alguns momentos, mas imensamente cômica na maioria das cenas. Desde as primeiras imagens, Marta chama a atenção muito mais por seus silêncios do que por suas falas. E a maioria de suas falas, alias, será repetida várias vezes durante o filme.

A chegada de Herman irá mudar a vida dos três personagens em vários sentidos. Mais brincalhão que o turrão Jacobo, Herman conta piadas, relembra histórias e decide levar o irmão e sua “esposa” para um passeio em uma praia que a família visitava quando eles eram crianças. O Uruguai desenhado por Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll nestas cenas externas é terrivelmente vazio. Poucas pessoas nas ruas, carros velhos nos sinais, um hotel de uma cidade turística cuja metade do letreiro está apagada. Tudo denota que o Uruguai já viveu melhores dias nas cenas de “Whisky”.

Na verdade, tudo viveu melhores dias em “Whisky”: o país, as industrias, as pessoas, o time de futebol de Jacobo, as amizades. Para conseguir um sorriso para uma fotografia, um fotógrafo no Estados Unidos pediria para que as pessoas dissessem “Sex”. No Brasil é o popular “olha o passarinho”. No Uruguai, ele pede para que Jacob e Marta digam “Whisky” (uíque, assim mesmo, sem o s). O sorriso retratado é falso, como quase tudo no filme. Em “Sadness”, canção do Porno For Pyros, Perry Farrel defende que a felicidade não dura mais do que uma hora. Em “Whisky”, a felicidade dura apenas o clic da máquina fotográfica.

Com o segundo longa de suas carreiras, Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll conseguiram realizar um dos melhores filmes sul-americanos de 2004, quilômetros à frente de “O Abraço Partido” (Argentina) e de “Olga” (Brasil). “Whisky” ganhou o Regard Original Award e o Prêmio FIPRESCI da Mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes neste ano. O filme também levou para o Uruguai três Kikitos de Ouro no Festival de Gramado, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Atriz (Mirella Pascual) e Prêmio do Júri Popular. Do Festival de Tóquio saiu com dois prêmios: Melhor Filme e Melhor Atriz (Mirella Pascual).

(Forte) Concorrente uruguaio ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Whisky” é um retrato da melancolia dos solitários, desenhado com tanta leveza e simplicidade que impressiona. Por mais que seja densa, monótona e pesada, a temática do filme não chega ao espectador como uma “porrada no estômago”, por privilegiar as situações cômicas. Funciona, mais ou menos, como uma “boa” bebedeira: a pessoa se diverte enquanto está bebendo, mas sofre com a ressaca quando acorda. “Whisky” diverte o espectador na sala de cinema, mas faz pensar depois: não há nada mais triste do que a solidão e a desesperança.

Diga “Whisky”, caro leitor…

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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