2004, o ano Brian Wilson na música pop

por Marcelo Costa

2004 tem tudo para ser o ano Brian Wilson na música pop. O ex-líder do Beach Boys recuperou o disco perdido mais famoso de todos os tempos, “Smile”, saiu em turnê mundial (que chega a São Paulo em 07 de novembro) e ainda encontrou tempo para quebrar um silêncio de seis anos ao lançar um novo disco de canções inéditas, “Gettin’ In Over My Head”, que conta com participações de Eric Clapton, Elton John e Paul McCartney. Não é pouco para um senhor de 62 anos que mudou a história da música pop, 38 anos atrás, quando lançou “Pet Sounds” (1966), considerado por muitos como o melhor disco de todos os tempos e fonte de inspiração e desafio para que os Beatles ultrapassassem seus próprios limites em “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” (1967).

Brian Wilson surgiu para a música pop nos Beach Boys, no inicio dos anos 60. Sua vida artística e pessoal é tão cheia de sucessos quanto de frustrações. A banda nasceu com o trio de irmãos Brian, Carl e Dennis, mais o primo Mick Love e o amigo Al Jardine, enaltecendo a vida na Califórnia: o sol, a praia, as garotas. Conforme o grupo foi arrebatando legiões de fãs, ganhando inúmeros discos de ouro e cravando nas paradas de sucesso algumas canções inesquecíveis – como “Fun, Fun, Fun”, “Help Me Rhonda”, “I Get Around” e “Surfin’ USA” (entre muitas outras) –, a musicalidade de Brian Wilson foi aumentando. O músico começou a ver o estúdio de gravação como um instrumento a mais na criação das canções. Enquanto a banda fazia shows pelo mundo, Wilson, sozinho, aprofundava seus experimentos musicais. O resultado foi o aclamado “Pet Sounds”. Com “Pet Sounds” e “Sgt Peppers”, a música pop adentrou o território da arte, deixando de ser analisada como uma música descartável, apelativa e efêmera. Após 66/67, o rock nunca mais foi o mesmo. E “Smile” seria o próximo passo de Brian.

“Smile”, o tal álbum perdido, quase acabou com a vida do líder dos Beach Boys. Foram vinte anos de terapia psiquiátrica e reabilitação das drogas. Quando abandonou o projeto, em maio de 1967, “Smile” seria um concorrente de peso a posição de melhor disco daquele ano, cabeça-a-cabeça com “Sgt Peppers”, dos Beatles. Mais do que isso, seria um passo a frente de “Pet Sounds”. Porém, atrasos no lançamento, a devoção obsessiva pela perfeição, pressão da gravadora e o alto consumo de drogas colocaram Brian em crise. Depressivo, o músico abandonou o disco, a banda, os amigos e se internou em um hospital, vítima de um colapso nervoso.

A decisão de abandonar “Smile” foi dura para Brian. O músico passou os anos seguintes em depressão, sem compor material inédito, tocando eventualmente com os Beach Boys em shows e só voltando ao mundo pop em 1988, com um álbum solo, seu primeiro disco em mais de vinte anos. De lá pra cá, a volta de Wilson foi gradual, mas cresceu nos últimos anos com o lançamento de um disco de inéditas (o bom “Imagination”, 1998), um álbum duplo ao vivo gravado no Roxy Theatre (2000), uma versão de “Pet Sounds” registrada ao vivo no Royal Albert Hall, em Londres (2002), e, agora, “Smile” (2004) e, “Gettin’ In Over My Head”.

No começo de 2003, Brian Wilson decidiu ouvir os tapes abandonados de “Smile”, convidou o letrista e parceiro Van Dyke Parks para recuperar a obra e, com auxilio da esposa Melinda e de Darian Sahanaja, líder da banda que o acompanha desde 1999, finalizou o disco. “Smile” é uma ópera pop dividida em três longas suítes musicais, cada uma delas tendo como inspiração uma pop song inesquecível de Brian Wilson: “Heroes & Villains”, “Surf’s Up” e “Good Vibrations”. O álbum vem sendo apontado pela crítica internacional como um dos grandes discos de todos os tempos, o que não surpreende em se tratando de Brian Wilson. A textura das melodias, os belíssimos arranjos vocais, a inspiração em Gershwin, Miles Davis, Phil Spector, soul, folk e pop music fazem de “Smile” um disco praticamente perfeito. Se levarmos em conta, ainda, que comparado diretamente com “Pet Sounds” (dito melhor disco da história da música pop), “Smile” soe mais inventivo, grandioso e abrangente, é natural que o disco seja apontado como uma obra-prima musical. Brian Wilson queria escrever uma pequena sinfonia para Deus, um disco que transpirasse amor. E conseguiu.

Tanta louvação sobre Brian Wilson é plenamente justificada. O músico é considerado um dos maiores por gente como Bob Dylan, Neil Young e Elton John. Para o beatle Paul McCartney, “God Only Knows”, do clássico “Pet Sounds”, é a melhor música escrita em todos os tempos. Para o cineasta Cameron Crowe (“Quase Famosos”, “Vanilla Sky” e “Vida de Solteiro”), a genialidade de Brian está na “tristeza intoxicante e dócil de suas melodias. Sempre que posso fazer um filme, coloco uma cópia ‘Pet Sounds’ nas mãos dos atores e digo que ali está o que é viver, o que é crescer. Esta é a magia de ‘Pet Sounds”. Esta é a magia de Brian Wilson.

Em março de 2001, Brian Wilson recebeu uma homenagem em Nova York, registrada no DVD “An All-Star Tribute To Brian Wilson”. Paul Simon, Go-Go’s, Elton John, Billy Joel, David Crosby, Carly Simon e Aimee Mann, entre outros, cantaram canções dos Beach Boys e falaram sobre Brian Wilson. Sir George Martin, produtor dos Beatles, viajou de Londres para Nova York apenas para registrar seu testemunho sobre um dos maiores artistas que a música pop já conheceu. “Enquanto John e Paul escreviam as canções, Ringo e George interpretavam e eu produzia ‘Revolver’, ele, sozinho, fazia tudo isso em ‘Pet Sounds’. Ele nos desafiava. Sem ‘Pet Sounds’ não haveria ‘Sgt Peppers’”, reconhece George Martin, completando que “nos anos 60, o melhor da música pop tornou-se a música do povo”. Com “Smile”, Brian Wilson apresenta um fragmento desta época, um documento da vida feliz na América dos anos 60. Uma ópera-pop em três movimentos. Todo o projeto fez renascer, também, o documentário “Beautiful Dreamer: Brian Wilson and the Story of Smile”, sobre o difícil parto do álbum. A direção é de David Leaf, amigo desde aquela época de Brian, e traz informações recentes que mostram que, mesmo após todo esse tempo, a cobrança pessoal foi tanta que Brian Wilson quase se internou neste ano após retomar o trabalho.

“Smile”, que chega às lojas brasileiras nesta semana, deixa de ser o disco perdido mais famoso de todos os tempos para ser apontado como disco da semana pelo jornal Sunday Times, o álbum do mês do jornal The Observer, “o melhor que o rock produziu em todos os tempos” pelo The Guardian, “o melhor da música pop no século 20” pelo New Music Express. Ao fim dos shows de apresentação de “Smile” em Londres, em fevereiro passado, três mil pessoas aplaudiram ininterruptamente por cinco minutos o que a crítica britânica apontou como uma execução de uma “complexa e sofisticada sinfonia americana”. “Nada poderia nos preparar para isso”, enalteceu o jornal Daily Telegraph.

O Brasil terá a oportunidade de passar uma noite com Brian Wilson, dia 07 de novembro, no Tim Festival, que acontece no Jockey Clube, em São Paulo. Brian irá tocar “Smile” na integra, além de canções do álbum “Pet Sounds” e hits da carreira dos Beach Boys. O músico pediu para que a organização do festival disponibilizasse cadeiras para o público. Será um show de quase 3h de duração. Um show para ficar na história. Os convites, no entanto, já se encontram esgotados. Além do show, três álbuns de Brian Wilson aportam nas lojas brasileiras (“Smile”, “Gettin’ In Over My Head” e “Live At The Roxy Theatre”). 2004 tem tudo para ser o ano Brian Wilson. É o melhor da música pop voltando ao povo. Sorriso.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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